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Vingança

 

se a morte existisse

investiria minha melhor

cadeira à sua espera

 

calmo e manso, todos os dias,

sentaria na pior canto à mesa

– em respeito aos de fora

 

como ensinou minha vó –

num dia, fitaria a maçaneta fria

dobrar-se a favor de quem entra

 

e ela, talvez educada, talvez indiferente,

talvez como minha vó, sentaria,

a fim de esticar as pernas cansadas

 

(e a morte se cansa? porventura

a  morte intui a clausura da carne?)

anoto a pergunta para a ocasião

 

à mesa estaria o chá

serviria na xícara

de porcelana especial

 

das visitas. ofereceria açúcar

e só depois poria para mim.

brindaríamos a distância,

 

sorriríamos… ficaria atento

às expressões… ela olharia

nos meus olhos ou apreciaria

 

a pata-de-vaca a partir da janela

como minha vó fazia?

tossiria após o segundo gole?

 

deixaria a xícara cair?

e então com espanto

e entendimento

 

discerniria o tipo do chá?

se a morte existisse

até minha vó – que deus

 

a tenha, caso exista –

perdoaria minha vingança

se a morte existisse

 

eu morreria em paz.

 

Jardinagem

 

a cada palavra que cava

mais distante é seu encontro

sua mão não é de luta e seu estilo frágil

emudece ante o solo

o que procura o que planta o que não irá colher

o solo nunca explicará

não há respostas entre pedras

solo pouco fértil a diálogos

branco incompreensível

cobra do corpo os sentimentos mais essenciais

o viço da poda o portentoso riso após a perda

na cava a vida é mistério à mão que toma

de utensílios rudes para lavra

memórias frouxas assombrações voz muda

jardinar sob chuva deveria bastar às mãos inábeis

 

mal sabe que tudo nasce do vento

 

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