Parte I – A maldição

 

Benditos vós, que, em épocas futuras,

Haveis de ser no mundo subjetivo,

Minha continuidade emocional!

Augusto dos Anjos

 

Essa era a terceira vez que eu voltava à “vida”. Doze anos depois da minha morte, já familiarizado com essa situação surreal vinda da maldição de Buñuel. Tempos atrás, esse famoso diretor de cinema, integrante do movimento surrealista, divagava em uma entrevista sobre suas impressões, desejos ou puros devaneios do pós morte. Eu, besta, fiquei impressionado com a “possibilidade” de voltar à vida de tempos em tempos, acompanhar os avanços ou desgraças da humanidade registradas nos jornais e periódicos…

Sem mais explicações aqui estou, nessa dádiva ou maldição, junto a alguns estágios avançados de decomposição… Um completo esqueleto, sem músculos, fibras ou qualquer outra parte pútrida pendurada ao corpo. A brancura óssea exposta após um banho de cândida e… quase me considero uma simpática caveira, com a mandíbula e a arcada dentária num sorriso sempre pronto.

Não sei ao certo as razões e objetivos dessa saga moribunda. De qualquer forma, tenho feitos temporárias visitas ao mundo dos vivos. Um cometa que de tempos em tempos vem visitar a terra. Mas diferente dos cometas que contornam a galáxia e vem dar as caras por aqui cheios de brilho e mágica, eu, bem mais opaco, não desperto o deslumbre no olhar das pessoas. No entanto, vale dizer que não sou um zumbi nem alma penada que permanece entre os vivos por conta de algo pendente ou um vírus experimental produzidos por gigantescas corporações.

Contudo, mesmo nesse déficit de massa corporal, não preciso me alimentar de cérebros, nem sangue ou carne humana, bem pelo contrário, não possuo nenhuma necessidade fisiológica. Essas viagens têm a duração de aproximadamente 5 dias, procuro trabalhar e agir nos três primeiros, separando o quarto e o quinto para uma reclusa espera do sono profundo que vai durar por outros quatro ou cinco anos.

Preocupei-me em defender e tentar prolongar ao máximo o que resta de minha matéria. Protegi o corpo de larvas e gazes, com algum êxito. Se não mantive a fibra intacta, chego a esse esqueleto limpo e firme. Pois sinto ou apenas temo que exista uma condição física mínima para que a consciência possa habitar o corpo (ainda que numa parte mínima), temo que virar um fantasma, ter uma consciência mas não um corpo, seja uma estrada muito próxima do vazio e desaparecimento completo. Sendo assim, parece certo que esta seja minha última passagem por aqui. Por mais cuidado que tenha tido, há ainda certos limites pra esse mundo físico que me limito a reviver, e então esse Cometa Carvalho vai partir pra outras galáxias, outra dimensão.

 

Parte II – O primeiro e o segundo despertar

 

Quando eu pego nas carnes do meu rosto.

Pressinto o fim da orgânica batalha:

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,

Em tua podridão a herança horrenda…

 

Depois da luta pra sair do caixão, reconheci o cemitério de minha família onde eu deveria ser enterrado e segui para o meu antigo endereço. Crente no milagre da ressurreição e ansioso pelo abraço na mulher e na filha. Cogitava ainda a hipótese de ter sido enterrado vivo.

Dalva era uma esposa de hábitos rígidos quando se tratava de obrigações domesticas. Desde o café da manhã, roupa pra lavar, secar, passar e costurar. Almoço e jantar em ritmo intenso como se estivesse sempre atrasada, além do prazo estipulado, prazo que somente em sua cabeça existia e que era cada vez mais curto. Desfeita das roupas velhas de faxina e do cheiro de desinfetante e cândida que algumas vezes persistia em suas mãos, tentava ser outra mulher, usufruindo de uma beleza ordinária e corpo (sobretudo braços) corpulentos e aconchegantes, oferecia-me abrigo, encosto que abarcava todo o meu corpo magro e diminuto quase sumindo dentro de seu abraço. Tímida de forma irritante, misturada a gestos de carinho e medo que nunca entendi, também porque como marido jamais solicitei que fosse assim.

Tentava imaginar qual seria a reação de Dalva nesse reencontro. Na rua percebia o horror das pessoas ao me ver. Alguns tapavam o rosto tentando evitar aquela visão, como se implorassem para não ter aquilo como lembrança. Outros com as mãos na boca tentavam segurar a ânsia que vinha com força de dentro querendo expulsar todo o alimento de suas entranhas.

Corri em passos desconjuntos, lentos e tortos, é o que acontece com a ausência de músculos e tendões. Parei como se precisasse de ar para meus pulmões mortos. No reflexo do vidro do açougue, vi minha carne interpolada com suculentas peças de alcatra, enormes línguas de vaca, tiras de linguiça, carne moída e majestosas peças de picanha. Sem sentir nojo já que os sentidos e órgãos não respondiam mais a essa manifestação, noutros pontos do meu corpo a carne já dava espaço ao esqueleto abaixo, insetos e vermes aos montes remexiam tentando buscar lugares mais fundos e longe da luz. Fibras e gorduras misturadas ao tecido velho do terno tornavam tudo um trapo asqueroso e de cheiro insuportável.

Desisti de visitar Dalva, dei meia volta em direção ao cemitério, no caminho fui coletando panfletos, revistas e jornais jogados pelo chão. Neles tudo era novo pra mim, fui compreendendo aos poucos o que estava acontecendo. Sabia agora que estava no ano de 1988, quatro anos depois de minha morte. Nas vésperas da olimpíada de Seul, promulgação da Constituição de 1988, aprovação do mandado de cinco anos para o presidente pela assembleia. Se era sonho ou pesadelo, realidade ou alucinação, entendia ao menos duas coisas; que estava num tempo além do que vivi e que estava definitivamente morto.

Da segunda vez que acordei, foi quase tudo menos traumático, sai pelo caixão já violado, brotei da terra como uma flor cinza, enrugada, e tracei um roteiro objetivo, queria ver Dalva e Rebeca.

Aparentando mais uma múmia embalsamada, a pele seca embora não agradável era menos nojenta, livre de vermes vivos e saltitantes com um fedor bem menos acentuado. Poucos e compridos fios de cabelos na cabeça davam-me um ar cômico junto ao corpo cinza com finíssima camada de tecidos já contornando ossos escondidos abaixo. Roupas limitadas a pequenos pedaços de pano como se tivessem sido costurados ao corpo. Um tanto mais “apresentável”, pensei pouco antes de surpreender Dalva no quintal.

– UhaaaUa……..aaaaAAAAA……..uaahaaaaaaaaahha!!! Gritou sem coordenação como um gemido, um som fora de controle, descontinuado, em desespero e falho com a perda do fôlego que em momentos não lhe permitia emitir som nenhum.

Foi a ultima lembrança da voz de Dalva que levei comigo, entendi que deveria mesmo me limitar aos livros, revistas e jornais. Ainda que perambulando por aqui, esse mundo não mais me pertencia.

– Jeeeesussss!!!!!! Auuhaaaaaaa!!! Que é isso meu Deus!!!! Gritava Dalva ainda encabulada pela visão enquanto apressadamente mas sem efetivamente ser rápido eu mais uma vez ia embora de nossa casa.

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Dentro de meu Bunker, rodeado de revistas, livros, jornais, panfletos e outros impressos, fui consumindo aos poucos todas as novidades e notícias. Fiquei intrigado com o lançamento do micro-ondas, suas possibilidades e praticidade, do telefone sem fio e o desfecho da Copa União que teve mais uma confusão feita pelos safados dos dirigentes.

Mesmo as notícias velhas de semanas ou meses, causavam-me tremendo espanto e interesse, “surto” da AIDS, guerras, corrupções, moda, novos filmes, novelas e livros, roubos, inflação e assassinatos. Num periódico de roteiros de viagem e curiosidades encontrei um artigo sobre Kutná Hora. Antiga cidade da prata do reino tcheco, com o seu incrível ossário de Sedlec, composto de ossos de mais de 40 mil pessoas, localizado na Capela Funerária de Todos os Santos.

– A cidade dos ossos, a cidade dos mortos – pensei falando baixo.

– Quero conhecer esse lugar!!! Decidi.

Não só por ser um funesto cartão postal, mas já vislumbrando a possibilidade dum futuro abrigo. O artigo continuava dizendo que durante a Peste Negra, que matou milhares de pessoas, um bispo derramou naquele solo um punhado de terra vinda de Jerusalém. Sedlec foi considerada campo santo e cerca de 30 mil pessoas foram enterradas por ali. Centenas de anos depois, foi preciso arrumar toda aquela ossada, esculturas e paredes de ossos consumiram grande parte desse estoque, colocando a cidade nos mapas de roteiros turísticos.

Fui buscar o meu sono de 1460 dias, me recolhi antes mesmo do “chamado” para o grande nada. Nenhuma informação mais dos jornais me interessava, nem estar milagrosamente desperto me parecia algo incrível. O pouco da vida e de suas constantes privações que atingia até mesmo mortos-vivos, me causava tristeza e tédio. Adeus Dalva, adeus Rebeca, adeus Sedlec.

 

Parte III – O terceiro despertar e os planos para Kutná Hora

 

Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há-de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

 

Quatro anos se passaram sendo que consegui esquivar-me de todos os golpes, todas as angústias que esse tempo me guardaria. Depois de morto alcanço a ideia ou convicção de que a falta de momentos felizes junto da ausência de tribulações, resulta num cálculo positivo de felicidade, como se mais vida, igual a menos vida.

Ando pela deserta cidade de Kutná Hora, com pouco mais de 25 mil habitantes. Durante o inverno fica ainda mais deserta e corre-se o risco de por horas não encontrar nenhuma alma viva. Repetia mentalmente: menos vida… mais vida… menos vida… mais vida…

Alvo, calcâneo, esqueleto por completo, imprimia um andar galante pelo cemitério de Sedlec, era John Travolta em “Embalos de Sábado a Noite”. Arrisquei ruas e esquinas próximas do cemitério e a Capela de Todos os Santos. A meia distância analisava aquele conjunto arquitetônico. No centro, a certa distância das árvores, a capela recebia todo o sol disponível no terreno, paredes claras contrastando com a arquitetura gótica, discretos adornos externos não anunciavam o que existia lá dentro. Eu estava em Kutná Hora, experimentando uma felicidade inédita tanto em vida quanto na morte.

Anos atrás, durante o terceiro despertar, enquanto permanecia em meu caixão avesso a qualquer nova aventura, num dia inteiro preso em melancolias, mas desperto em agonia, fui invadido por um novo “sopro” de vida que entrou gelado entre os ossos da costela alcançando o crânio vazio onde ideias ainda o habitavam como se fossem fantasmas numa casa velha.

Fiz um dossiê com artigos, fotos e mapas que descreviam Kutná Hora; simulei uma carta que só postumamente seria revelada, todas as instruções e meu “último desejo” de ser enterrado próximo ao ossário de Sedlec.

Durante a noite antes de cair em novo sono profundo, tomei emprestado o terno do morador da ala F4 do Cemitério Terra da Saudade. Não vesti seus sapatos pois o pé ossudo não conseguia preencher o espaço do calçado, tornando o equilíbrio mais difícil.

O terno me aproximava da semelhança com um magricela. Um pouco mais seguro entrei pelo quintal, avancei sobre o plano inicial de deixar os documentos na caixa de correio. Uma noite quente e o vento úmido e morno anunciavam chuva dentre instantes. Entre as roupas que secavam no varal, Dalva corpulenta de camisola recebia no corpo as delícias daquela noite de verão. Braços abertos como quem se espreguiça ou já imagina a chuva refrescante cair. Contornei o quintal para estar em sua frente quando abrisse os olhos. Em silêncio e a alguns metros de distância aguardei pelo fim daquele rito de prazer virginal. Ao abrir as pálpebras e me ver, estalou os olhos que normalmente eram pressionados pelas bochechas volumosas, como um raio trouxe os braços esticados pra junto do corpo e esticou o pescoço buscando no vazio do meu crânio os olhos que ela sabia, estavam olhando pra ela.

Um lençol foi suspenso no ar pelo vento, passou entre nós e foi descendo lentamente revelando novamente o encontro. Estiquei lentamente o braço mostrando o envelope, confesso que minha maior felicidade estava ali, nas possibilidades que aqueles papéis poderiam me proporcionar. Agora mais do que nunca dependia da destreza e boa vontade de Dalva, e já desconfiando de suas capacidades intelectuais, deixei as recomendações descritas passo a passo depois de pesquisar os tramites necessários para o translado internacional de corpos exumados.

Por uma última vez teria que usar parte da gorda pensão e poupança que deixei a elas. Alguns nomes de amigos que conheciam caminhos legais e ilegais para burlar a burocracia foram anexados, nomes que em parte me deviam favores e noutra eram de fato amigos…

Não trocamos palavras nem cumprimentos, trêmula e silenciosa pegou o envelope e entrou pra dentro de casa. Num dos lençóis do varal deixei escrito com barro: – Faça! Em tom imperativo ameaçador…

 

Parte IV – Enfim Kutná Hora

 

Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto

De anomalias lúgubres. Existo

Como o cancro, a exigir que os sãos enfermem…

 

Estou em Kutná Hora. Desperto em uma Terra Santa que me transformou nessa caveira muito mais disposta e alegre.

– Estou em Kutná Hora!!! Grito de braços abertos em frente à Capela de Todos os Santos. Aqui é o lugar onde todos os esqueletos andantes ou mortos, como revoadas de pássaros fúnebres, vêm buscar o seu ninho.

Ao entrar na capela, crânios dependurados em gigantescos candelabros, paredes com crânios encaixados lado a lado. Castiçais, colunas à base de fêmures, escápulas, úmeros e pélvis. Tomando toda parte do teto, um lustre com dezenas de fêmures pendurados em torno de arcos que parecem tentáculos de ossos avançando sobre o salão. Ao centro amontoados de crânios sustentam outras ossadas menores que mantém o lustre preso ao teto. Nas extremidades dos arcos, cerca de cinco escapulas unidas como se fossem bandejas fixam crânios em perfeito estado, cada um com um pequeno candelabro de velas acesas.

Nas paredes ao alcance das mãos candelabros construídos inteiramente com ossos. Pequenas articulações, como adornos, formam uma pequena torre de um metro e meio de altura, no alto como uma estrela feita de ossos maiores e um pequeno crânio ao centro como se fosse um botão de flor. São ossos por toda a parte, exceto e curiosamente em duas colunas que sustem na ponta um pequeno e gorducho arcanjo, que contrasta com todo o resto do grande salão.

Passando por debaixo do grande lustre, vencendo a sensação e medo que nos faz crer que tudo aquilo cairá sobre nossa cabeça, chega-se ao ponto principal da Capela de Todos os Santos. Uma enorme parede feita de crânios e a frente dessa fazendo a vez do que seria o altar, o brasão da morte. Tudo construído de forma detalhada com pedaços de esqueleto humano, e acima uma coroa digna de reis medievais sustentando uma das poucas cruzes que se pode ver dentro da capela. O brasão é dividido em quatro partes, cada uma é formada por tipo diferentes de ossos, que por tamanho e características diferentes dão a impressão de diferentes tonalidades e texturas. No canto direito abaixo, está o que se pode dizer, o grupo mais completo do que fora um esqueleto humano, partes da cabeça, tronco, ombros, passando pelo rádio até completar a mão e seus dedos todos ainda juntos.

Aproximei-me encarando aquele par incompleto, fixando o olhar onde deveriam estar seus olhos. Para meu desespero ou consolo depois de anos e mais anos de solidão, o braço que restava daquele torso esquelético flexionou as articulações ósseas e deu um impulso ao resto do corpo o fazendo saltar do alto do brasão da morte, girar no ar e cair como um gato atrás de mim.

Intacto sem se espatifar no chão, levantou a cabeça e apontou com o dedo para outra escultura de ossos ao lado da enorme parede de crânios. Com choque semelhante ao das poucas pessoas que me viram perambular depois de morto, fiquei também surpreso com a desenvoltura daquele pequeno conjunto de ossos e o segui até a escultura.

Tratava-se de outro candelabro, menos complexo, construído com uma quase completa ossada humana, onde dois braços abertos seguravam as velas. Olhei rapidamente ao redor buscando outras manifestações, mas todos os outros ossos permaneciam em seus lugares. Rasteiro, meu amigo aleijado apontava insistentemente para o candelabro, enfatizando os ossos da costela trincados parecendo que a qualquer instante se quebrariam e num novo salto impulsionado pelo único braço, alcançou o queixo da escultura, e com um leve triscar de dedo deslocou o maxilar do crânio que se desintegrou por completo. Continuou a apontar para a escultura decepada com maior agitação, arrastou-se pra perto de mim e começou a empurrar pela tíbia na direção do candelabro.

Kutná Hora me reservava mais do que um passeio, mas uma função, outra possibilidade de fim ou um recomeço. Estava desperto a dias, um esqueleto vivo. Não sabia se todos aqueles outros ossos tinham cada um seu relógio para despertar novamente ou se apenas eu e meu amigo incompleto é que dividíamos essa dádiva.

Acima no altar meu amigo se recoloca em seu lugar. Seguro as velas em minhas mãos, empurro e assisto ao antigo esqueleto dali se fragmentar por inteiro no chão. Vamos formando essa escultura não só de ossos, esqueletos e pessoas mortas, mas de homens que agora descansam verdadeiramente em paz…

 

Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveres

De atingir, como o gérmen de outros seres,

Ao supremo infortúnio de ser alma!

 

Deixe seu comentário

https://www.flickr.com/photos/internetarchivebookimages/14782671833/