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No meio de um festejo…

Max lê para meia dúzia de amigos mais a sua noiva. Os amigos fingem prestar atenção, a noiva também, ela arregala os olhos e solta leves acenos quando Max, para enfatizar a narrativa oral, olha-a com gravidade de acordo com o clima proposto pelo autor em determinado trecho.

A festa brilha delicadamente com luzes disfarçadas em lustres ovais de papel que ofuscam o brilho alaranjado e o tornam obliquamente vivos, escapando da maneira que podem, recheando as salas de uma pretensa luz que se assemelha muito a uma escuridão dourada. O efeito da luz, mais o vinho e o queijo deixam os que festejam numa sensação ébria e por isso dão risadas das coisas mais tolas que ouvem e se alegram na medida em que sentem uma sombra cerca-los: é a tristeza os abraçando.

A meia dúzia de amigos mais Giulia não prestam a devida atenção à narrativa pois já estão cansados de ouvir Max não só lendo para eles tal conto como já se cansaram (e talvez não saibam ainda disso) de ouvi-lo dizer sobre. Max sabe que irrita seus amigos, e por isso, sempre antes de começar a falar sobre Um Artista da Fome, já se desculpa, ele sabe que o conto teve consequências sérias em sua vida, mudou a perspectiva dele de tal maneira que não sai mais de sua mente há um considerável tempo. A tudo que Max vê acontecer em sua volta, sejam revoltas sociais, intrigas na fila do mercado, desastres naturais, ou qualquer tipo de manifestação humana diante dos inevitáveis acontecimentos da vida na Terra, a tudo isso, Max sempre comenta apoiado numa citação direta ou indireta do conto de Kafka.

Quando não embriagados de vinho e queijo aromático, seus colegas se estressam, os mais antigos e que mais o amam, já ligam inconscientemente um ignorar. Por exemplo sua noiva, que no começo do relacionamento adorava as interpretações que ele sugeria a ela, com diversas metáforas de interpretação, e até mesmo analises literais, isso a enchia de opiniões e inquietamentos. Só que de instigante, tal obsessão passou a ser tediosa.

Max gosta de comentar sempre que pode que ele é inevitavelmente assim, e que não pode fazer nada para mudar, pois mudar seria pior do que a morte. Isso se para Max, a morte pudesse ser considerada de alguma maneira ruim.

Max é um artista, está há um tanto de tempo desempregado e às vezes até passa fome. Ele trabalhou por muitos anos numa locadora, isso no começo dos anos 2000 quando havia um boom generalizado por grandes produções nas locadoras, a dois e cinquenta cada filme para alugar durante dois dias, lançamentos podiam chegar a três reais, também havia promoções do tipo: dois por cinco, o que era de forma generalizada o que as pessoas mais recorriam. É claro que isso acabou. Desapareceu como vapor numa frigideira refogando repolho. Um dia, Max já não tinha mais emprego.

Com pouco mais de vinte anos estava formado em hotelaria e não sabia o que diabos fazer com a vida, quando conseguiu um emprego em uma Gráfica no Centro com um grande movimento. Foi lá que conheceu Giulia, sua noiva, que na época cursava Publicidade e Propaganda, e ia lá, por causa dos bons preços de impressão e xerox, cada folha quinze centavos (e também porque gostava de conversar com Max sobre a filosofia dos quatro pês). Um dia, Giulia o convidou para assistir um filme que o próprio Max tinha comentado, foi daí que o primeiro beijo brotou.

Como Max trabalhou algum tempo numa locadora, assistiu a uma dezena de centenas de filmes. E por isso era mais ou menos uma biblioteca ambulante de filmes. Fazia referência a eles a todo momento, o que irritava seus amigos. Os amigos dessa época de Max, não gostavam desse tipo de referência, não estavam acostumados, achavam infantil, ou descabido. Não havia significação expressa, era só mais um ato tolo, que um dia poderia ter sido considerado nobre, mas que hoje em dia era inútil. Mas mesmo assim Max não deixava de soltar as referências, ia de George Lucas a Gaspar Noé em questão de segundos.

Foi só ao conhecer Giulia que foi introduzido a novos amigos, esses o apreciavam de outra maneira, e a isso Max percebeu, sentia-se extasiado com as novas amizades; duas dúzias deles, eles apreciavam os movimentos da natureza, as trilhas sonoras da chuva, e os precisos enquadramentos que um único olhar preso a um instante dá. Max começou a amar as luzes: as estrelas e a lua, assim como o sol. Tinha interesse por artes das mais delicadas, e seu olhar já de tal maneira acostumado com a curiosidade para as belezas, passou a procurar em meio ao bizarro e ao violento, a beleza do mundo. Max se assemelhava a uma criança; tudo lhe era novo e instigante, cheio de enigmas: o mundo precisava ser desbravado, mas era impossível, eram precisos tantos olhares, tantas perspectivas para se observar um único elemento, um único átomo, e ao mesmo tempo o mundo era tão imenso, tão vasto, que na medida em que Max sentia-se acuado por sua pequenez, sentia-se alegre.

Talvez sua alegria fosse desespero.

Max estava desempregado há alguns anos, já desistira da ideia de se sustentar de maneiras convencionais. Profissões ilegais não lhe agradavam de igual maneira. Talvez, só a arte pudesse satisfazer Max.

Um dia, Giulia lhe comprou de aniversário uma coleção do Kafka, ao qual Max leu como se estivesse comendo miojo frio. Leu os livros tais como se os devorasse, assim pensou Giulia que se surpreendeu com a maneira dele de encontrar esclarecimentos que tais romances, novelas e contos ofereciam. Um dia leu Um Artista da Fome e nunca mais foi o mesmo: foi o seu livro de ruptura. Ali, ele tinha conjurado um modo de ser, tinha se achado, havia uma trilha na existência que poderia traçar para percorrer sua vida.
Enquanto lia o conto com tamanha paixão para sua meia dúzia de amigos e Giulia, ele não percebia o que acontecia ali na sala de entrada da casa que se submetia a um festejo.

Há dezessete dias, Max conhecera, em uma feira de adoção de cachorros castrados e vacinados em um parque, um tal de Laslieaieth Jonturgund, que era comumente chamado de Bili. Max passeava pelo parque, tentava pensar de outras maneiras sobre questões supérfluas, estava intrigado com tudo que era superficial, tosco, imbecil e idiota. Tropeçou de repente em uma perna. Essa perna era do sr. Jonturgund, a pessoa mais séria que, segundo Max, ele já tinha conhecido. Estava no parque de bermuda e sandália, mas geralmente usava terno e gravata, junto a um celular no bolso ou pendurado no ouvido. Por motivos desconhecidos, Max e Bili ficaram amigos de um dia para o outro. Max esbarrou na perna de Bili, o que quase o levou de cara para o chão, Bili se pôs a rir com a situação, e só depois perguntou a Max se estava tudo bem, e por isso, talvez, Max tenha simpatizado com o sujeito. Eles voltaram a se encontrar subsequentemente pelo menos duas vezes por semana para almoçarem. Nesses encontros, conversavam sobre a vida de cada um, Max falava de sua vocação artística (e por isso não deixava de citar o conto do Kafka) e Bili comentava de suas experiências amorosas e viagens alucinantes a base de opióides dos mais variados.

Bili era uma pessoa ocupada, tinha negócios no exterior e em todo canto do Brasil, estava sempre viajando e trocando de carro. Usava roupas que de longe dava para verificar a qualidade do tecido. Ele gerenciava a filial de alguma multinacional que exporta commodities, era um engenheiro consagrado na sua época acadêmica, tinha se casada já duas vezes e estava caminhando para os quarenta anos de idade.

Quando Bili chegou na residência, Max não percebeu por causa de seu empenho na leitura. Ele já havia avisado seus velhos amigos de sua nova amizade, tinha deixado explicito de que todos iriam aprecia-lo, o que aumentou o clima de expectativas. Quando Bili chegou, sorrisos foram abertos em cada lábio ali presente tais como se abrissem latas de sardinha; ele era alto, tinha a pele branca e os cabelos negros, um simpático sorriso, estava penteado. Era bonito e ao mesmo tempo que demonstrava seriedade também aparentava ser deveras bondoso. Todos se agradaram ao vê-lo.

Uma roda logo se instalou a sua volta, e ele narrou histórias com tamanha delicadeza e acurácia para remontar as imagens mais impactantes de suas experiências, que todos acompanharam o sentimento que ele pressupunha que os seus ouvintes tivessem. Estavam todos extasiados com aquela nova companhia. Ele tinha opiniões diversificadas para os vinhos, para os queijos aromáticos, para as músicas, o clima, as estrelas, sobre os livros, sobre Max, sobre filmes e a tudo que lhe perguntavam, sempre com muito charme, ele respondia e encantava a todos.

Quando Max terminou de ler o conto, olhou para os lados e não havia mais ninguém em sua volta. De fato, não havia mais ninguém na festa. A casa estava abandonada. Havia taças de vinhos esquecidas no carpete, queijos desamparados por todos os cantos da casa e garrafas de vinho abertas. Max procurou pela casa, na mínima tentativa de achar, pelo menos, sua noiva, Giulia, mas não a encontrou. Não encontrou ninguém, até o cachorro havia desaparecido.

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