Toda preta toda bela

– O-lha-pa-ra-MIM quando eu estiver falando!… E desferiu mais uma tapa no rosto da moça. Esse um pouco mais forte. Estava no quarto. Ela derreou para o lado em reação ao movimento. Deixou cair o corpo em cima da cama. As lágrimas arrebentaram-se dos olhos e ela engoliu um golpe de ar em dois tempos; segurou por alguns segundos como se quisesse prender um pouco de vida dentro de si. As cortinas abertas recebiam um sopro de brisa da manhã através da janela e eu, urubusservando, negrejava aquela cena no andar de cima daquela casa, uma pequena chácara.

– Quais são as chances deste filho ser meu? Fala! Vou refazer a pergunta: quais são as chances, hein?! E levanta, vamos. Eu falei pra você levantar! Não me ouviu… Emaranhou a mão no cabelo da moça e afundou a face dela no colchão como se pudesse atravessá-lo, aos trancos. Depois puxou de forma impetuosa e a colocou em pé novamente. Deu um passo para trás, firmou o pé da frente e a golpeou na barriga com um chute certeiro que a fez deslizar em forma de arco pelo ar, bater na beirada da cama e aterrissar no chão; encolhida pela dor, recolhida pelo sofrimento. Ficou imóvel. Senti um cheiro de morte. Tranquilamente, o sujeito sentou-se na poltrona que ficava ao lado da porta. Desabotoou os punhos da camisa e dobrou até os cotovelos; afrouxou um pouco o nó da gravata; tirou os sapatos lustrosos; as meias; pegou o telefone e discou um número.

– Tudo bem? Sou eu. Avisa ao pessoal que talvez eu não vá trabalhar hoje. Estou resolvendo um assunto particular. Melhor! Agende tudo para amanhã. Faça isso… A moça, submetida ali no chão, mexeu uma perna. Esticou e encolheu. Duas vezes. Na posição em que estava eu não podia ver seu rosto. Era possível notar que as mãos seguravam o ventre. Estava diferente. Há muito que eu a via; contudo, não havia notado qualquer transformação. Esta não era a cena que costumava presenciar. Mas esta era a árvore que gostava de passar um bom tempo esperando o vento trazer um agradável cheiro de uma possível refeição.

– Está me ouvindo? Como meu filho foi se apaixonar por você, criatura noturna?! Não consigo entender. Uma criatura que se deixa violar pelo sogro e não abre a boca; uma criatura que por amor aceita tamanha humilhação; uma criatura que não consegue gritar por socorro. Sabe o que eu acho? Não? Acho que você gosta… O sujeito se levantou e começou a chutar: nádegas, coxas, costas; trocava de pé, uma vez, duas, três, incontáveis. Parecia cansado. Tirou a gravata e, com brutalidade, amarrou os braços da moça para trás, deixando-a emborcada. Pegou uma meia e enfiou em sua boca; pisou em seu rosto e balançou o calcanhar no ar como se estivesse esmagando um inseto com o peito do pé. Subiu em suas costas, na altura do tórax, e limpou a sola dos pés como se o tecido do vestido fosse um tapete. Ajoelhou-se ao lado dela e cuspiu as palavras diretamente em seu ouvido.

– Sabe por que sua raça é inferior, criatura noturna?! Porque nasceu pra sofrer. Sua raça existe só pra isso: sofrer! Não perceberam isso ainda? Apanha, apanha, e nem fica vermelha, nem roxa. Sabe por quê? Porque sua raça é podre. Não entendo como meu filho, tão educado, não percebe isso. É cego! Não pode ser meu filho, não tem meu sangue. E quero que escute bem: esse filho dentro de você não pode nascer. Se eu não matá-lo hoje você vai abortar. Está ouvindo? Nem que eu tenha que jogar você por esta janela. Mas se for preciso, farei. Não quero ver meu sangue misturado com sua raça, não quero ver meu filho feliz sendo que este filho que você espera pode nem ser dele. Pode nem ser meu. Sabe-se lá com quem você se deita por aí… E com a dobra dos dedos socou a têmpora da moça com sabor de ódio. Eu podia ver seu rosto saliente. O olhar estava incompleto; distante, mergulhado em lágrimas. As lágrimas estavam correntes como se uma fonte inesgotável pudesse trazer esse efeito. Mesmo com o maxilar expandido e a meia encharcada com sangue e saliva, ela parecia sorrir amargamente. Sorria como se, profundo em seu inconsciente, um fio de esperança ou um resquício de salvação houvesse. Talvez não tenha percebido que seu corpo ainda fora erguido pelo sujeito com apenas uma das mãos segurando pelos cabelos da nuca e a fez caminhar tropegamente até a janela ameaçando jogá-la. Ao encostar, ergueu seu vestido e colou o corpo junto ao dela deslizando uma das mãos da cintura até o colo enquanto lambia seu pescoço. Não se preocupou se era suor ou lágrima. Ou uma mistura dos dois. De repente, o sujeito a deixou cair aos seus pés. Parecia surpreso.

– Não acredito! Não acredito! Ela… Quando olhei em direção ao portão um terceiro homem pulava o muro. Rapidamente tomaram a casa. Um pela porta da frente, outro deu a volta e entrou pela porta da cozinha, aos fundos, o outro ficou na quina da casa observando, a espreitar uma possível tentativa de fuga do sujeito. Só adentrou depois de um sinal vindo de dentro da casa. Provavelmente assim que o sujeito foi encontrado. Senti cheiro de morte pela segunda vez. Este foi direto ao encontro da moça e a colocou, sentada, na poltrona. Saiu e, rapidamente, voltou com uma toalha molhada. Começou a cuidar da moça. Muitos sons começaram a fugir da casa. Barulho de vidro quebrado, de madeira estralando, alguém dizendo “não, não, não” e uma confusão de vozes “gosta de bater em mulher?”, “então é você que abusa da minha irmã?”, “gostou do meu braço?”, “sente isso”. E muitas outras coisas foram ditas. Durou um bom tempo. Os nãos pararam de ser ditos.

– Já desceu essa escada muitas vezes, né? Mas dessa forma acho que não… E o sujeito apareceu no pé da escada. Desfigurado completamente. A moça desceu amparada e foi direto para a cozinha. Dois deles levantaram o sujeito e apoiaram sua barriga no braço do sofá; desceram as calças; começaram; em seguida, revezaram. Não estavam mais tensos. Pareciam sorrir: se não felizes, vingativos. O outro veio da cozinha trazendo uma corda nas mãos e parecia satisfeito por ter encontrado aquilo. Também participou do revezamento três por um. Só pararam quando pareciam exaustos. Arrancaram as cortinas da sala e enxugaram seus corpos. Vestiram-se. Depois arrastaram o sujeito nu pela varanda, pelo gramado e pararam embaixo da árvore onde eu assistia a tudo. Uma risca marcou o caminho que o corpo do sujeito percorreu. Ele agonizava. Passaram a corda pelo tornozelo esquerdo e deram um nó. Um belo nó! Pareciam especialistas em nó. A outra ponta da corda foi passada por um galho e o sujeito foi suspenso. Amarraram a corda com firmeza. Os braços ficaram abandonados; quase tocavam o chão a ponta dos dedos.

– Vá buscar a irmã. Vamos perguntar se ela quer matar ou capar esse porco imundo… A irmã veio. Parecia um pouco melhor. Mas ainda se apoiava nos ombros do irmão para andar. Com o polegar no quadril e os outros dedos na lombar, apertava o lado esquerdo. Talvez o local onde a dor nascia e se espalhava pelo resto do corpo. Nem olhou para o sujeito.

– Deixem ele. É um coitado. Tenho é muita pena dele. Agora me levem para o hospital. Preciso; preciso urgente! Começou uma dor muito forte… E caminharam em direção ao portão praticamente carregando a moça no colo. O que estava de lado olhou para um canto e diminuiu os passos. Afastou-se dos demais. Pegou uma vassoura e quebrou-a forçando contra o joelho. Caminhou na direção do dependurado. Boa parte penetrou o corpo do sujeito que apenas contraiu a face, respirando fundo. A parte que ficou de fora, entre as pernas, dividiu ao meio o ângulo que elas formavam. Um líquido começou a escorrer pelas nádegas, pelas costas, encharcando a nuca até pingar no gramado e formar uma pequena poça que foi aumentando de tamanho, enquanto o corpo balançava lentamente e fazia um movimento de rotação: ora para um lado, ora para o outro. Depois de algum tempo, quando o sol dividiu o céu ao meio, o sujeito tossiu; fraco, engasgado, trêmulo; cuspiu uma bola gosmenta que esticou, mas voltou e grudou no próprio rosto, por sobre o nariz e os olhos, formando uma bolha quando respirava. Com muito sacrifício conseguiu limpar com as costas da mão. Tentou abrir os olhos inchados. Abriu muito pouco apenas. Forçou uma vez, duas, várias, para dobrar o corpo. Talvez na tentativa de alcançar o cabo. Foi inútil. Um gemido gutural acompanhava qualquer mínimo movimento. Desistiu. Aceitou ficar dependurado. Amordaçou a infelicidade no rosto como se estivesse compreendido o motivo pelo qual estava ali. Senti um cheiro de morte pela terceira

O sol começou a despencar de um lado do céu. O vento balançava as folhas com mais força e os galhos da árvore faziam uma dança que me incomodava. Desci um, depois outro; outro. Fiquei numa parte onde balançava menos. Muitas formigas cercavam a poça. E depois sumiam pelo gramado seguindo um caminho de mão dupla. Alguém entrou pelo portão. E ficou espantado com o que viu.

Pai?! Pai?! Pai?!… Maldita hora. Decidi voar e procurar minha refeição em outro lugar. A noite ainda estava longe. E a lua apontava oposta ao sol. Quase invisível. Soltei meu forte som urubuzeiro que percorreu a imensidão. E atravessei o espaço em minha solidão, em meu negrume. Levando para bem longe os meus desejos famigerados.

Deixe seu comentário

procrastinaçãoAntiprovérbios