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Muito se fala sobre estereótipos. Mas o que é, de forma precisa, um estereótipo? Na origem, estereótipo é o mesmo que clichê – uma peça de metal usada em gráficas para reproduzir uma imagem. Parece um carimbo de metal: basta passar tinta e ter mais uma cópia da mesma imagem. Centenas, milhares de vezes, a mesma coisa repetida. Fácil entender porque usamos o termo clichê para uma ideia que já está batida, por ter sido usada vezes demais. E também para entender o conceito de que um estereótipo é uma imagem repetida sem pensar, sem questionar, e sem saber se está certa ou errada. E mais do que tudo, uma ideia que nega as características individuais, achatando a nossa percepção sobre um grupo social.

Uma coisa que eu acho incrível nessa metáfora é que quanto mais cópias você fizer usando um estereótipo, mais os detalhes são perdidos. O estereótipo se desgasta e borra. Quanto mais se repete, menos semelhante fica com a imagem original.

Agora, vem cá e me conta. Quando você escreve um personagem, de onde você tira as características dele?

Dependendo do seu modo de escrever, essa pergunta pode ser difícil de responder. Porque a gente não pensa muito nisso enquanto escreve um personagem. Ele vai surgindo a partir de uma tonelada de referências e no final acontece. Mas no nosso mundo cotidiano, essas referências estão muitas vezes contaminadas pelos danados dos estereótipos.

Eu costumo usar como exemplo de porque é tão fácil se render a essas repetições, uma situação bem cotidiana. Você vai fazer batatas fritas. Colocou o óleo para esquentar. Quando foi colocar as batatas no óleo, alguma coisa caiu dentro dele. Sei lá, um anel que estava frouxo no dedo. A faca que cortava as batatas. Não importa. O que importa é que o seu cérebro já sabe que calor queima e vai tentar impedir sua reação imediata de enfiar os dedos no óleo fervendo para resgatar o que caiu.

Para facilitar a vida, a mente cria fórmulas, resumos de como se comportar.

Esses resumos servem para muitas coisas. Não queimar a mão no óleo quente, não tocar no fio desencapado, se afastar quando um cachorro está rosnando para você. Beber água quando sentiu sede. Nossa mente cria listas de atitudes. O problema é que nossa mente nem sempre tem uma lógica tão boa quanto quente – queima. Porque vivemos em sociedade, e muitas, muitas dessas formulações prontas do cérebro não têm nenhum sentido exceto a repetição de preconceitos.

Mulher é frágil. Homem não chora. Heróis salvam mocinhas. Mulheres merecem punição ao fugir dos padrões sociais. O garoto negro andando na rua é um bandido. Homossexuais são depravados. Pronto, de uma linha de segurança para não enfiar a mão na boca de um cachorro bravo, passamos para um monte de noções que não fazem sentido nenhum, e são repetidas, naturalizadas, e nos afetam de forma invisível.

A nossa visão de mundo vai sendo construída a partir das nossas vivências. E isso não inclui só as coisas do mundo físico, se preferir, mundo real. Nosso imaginário vai sendo moldado, nossa cultura vai construindo nossa percepção das coisas. Os livros que lemos, as histórias contadas, os filmes, seriados, novelas, o jeito como os jornais mostram as notícias, tudo contribui para que entre as coisas como elas são e a forma como enxergamos, estejam os óculos dos estereótipos.

E os estereótipos mais grotescos são mais fáceis de perceber, e mais fáceis de evitar quando escrevemos. Não é tão difícil assim perceber que a promiscuidade não tem relação com a orientação sexual se você pensar só um pouco. Mas as pessoas ainda associam gays a escutar música de diva pop, por exemplo. Parece inócuo, mas é um estereótipo bem incômodo. Assim como a relação sem sentido nenhum entre usar óculos e ser intelectual. No meu trabalho, um estereótipo repetido a exaustão é o de que “música erudita é superior a música folclórica” mesmo que metade da música erudita seja não muito mais do que música folclórica com instrumentos de orquestra. Outro bem irritante e comum é a noção de dança como algo feminino – o que não tem a menor lógica, mas se eu pedir para você “desenhe alguém dançando”, sem te dar tempo para pensar, é bem provável que o desenho mostre uma mulher. Idem se eu pedir para imaginar alguém limpando a casa. Mas se eu pedir para imaginar cientistas, a figura é quase sempre masculina.

E então, quando vou descrever uma personagem bela, surgem na minha mente características caucasianas, olhos claros, cabelos louros – a visão repetida pelos autores europeus dentro de um padrão de beleza que pouco tem a ver com a maior parte do mundo. E personagens maus muitas vezes têm características semitas, como “nariz adunco”. Nariz adunco é uma frase que eu cansei de ler em descrições de personagens que são pouco confiáveis.

Aqui, só entre nós. Não me fez nenhum bem passar a vida lendo que meu nariz é um nariz de vilão. Podia ter um nariz fino de princesa, mas não, nasci com o nariz da bruxa, o nariz do Snape, do Heathcliff, do avarento. E meu nariz ainda estava na história – quando comecei a descrever o rosto da personagem que dá nome para o meu romance Alma e a Tempestade, descobri que não tinha aquele monte de referências literárias para pautar a descrição de um nariz negro. Porque posso contar nos dedos os livros que li até a idade adulta onde sequer aparecia um personagem negro que tivesse merecido uma descrição.

Quando estamos criando histórias, os estereótipos estão ali no fundo da mente, prontos para saltar dos nossos dedos na menor distração. Isso faz o personagem mais raso, um personagem de papelão. Lembra quando falei que quanto mais você copia a imagem, menos detalhes ela tem? Não dá para criar empatia por um personagem que não tem identidade. Não existem duas pessoas iguais. Porque então todos os gays dos filmes aparecem como alívio cômico ou melhor amigo da mocinha? Porque temos tantas “mulheres fortes” que chegam na cena prontas, destemidas, poderosas, mas que servem só para servir de coadjuvantes do escolhido para salvar o mundo?

Os estereótipos são amigos da publicidade. Porque o objetivo da publicidade é atingir as pessoas na sua zona de conforto em 30 segundos. E mesmo assim, cada vez mais, os estereótipos publicitários tem gerado irritação e respostas negativas, porque não convencem mais.

A literatura mora em outro campo. Kafka escreveu uma frase que eu amo: “Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós”. Uma história precisa afetar quem a lê. Precisa gerar inquietação, de algum modo. E o estereótipo é a repetição do que se espera do rebanho, ele é a resposta fácil, sem significado – e quase sempre ofensiva a quem deveria estar sendo retratado. Quando trabalhamos a individualidade dos personagens, nós conseguimos atingir as pessoas, porque elas vão poder acreditar naqueles personagens, vão se importar com o que acontece a eles. Não é ser politicamente correto: é buscar verossimilhança.

Para se libertar dos estereótipos, só temos uma saída. A ampliação de repertório. Estudar o assunto. Ouvir a voz do grupo que estamos tentando representar. Observar o mundo. Enxergar o que está por trás de uma representação que é familiar demais, mesmo não fazendo nenhum sentido, para desmontar essa mistificação. Não confiar no que está pronto, e ir além.

E com o tempo, vai ser cada vez mais natural que nossos leitores possam se surpreender com nossas criações, ao invés de terem a entediante certeza de como vai ser cada personagem no primeiro instante em que foi descrito na trama.

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artistaantônio nóbrega