Henrique

Ela me chama de Henrique e carrega três estrelas no ombro esquerdo. Fuma Marlboro Light e mora longe, por isso pediu para dormir na minha casa depois da cerveja no bar. Disse que já tinha dormido na casa de todo mundo lá do trampo e que não se incomodava com o sofá. Eu também não me incomodei quando ela me chamou de Henrique nem quando trepamos pela primeira vez. Nem pela última. Alguns familiares e amigos já começam a se preocupar com essa situação e me chamam de louco. Prefiro que me chamem de Henrique, digo. Ela já está lá em casa há cinco meses porque está esperando um filho do Henrique e diz que faz questão de colocar o meu nome na criança.

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Pingente

A virgem fica presa numa corrente comprida que desce entre os seios cheios de sardas, desejos que têm a medida exata das minhas mãos. Sua imagem é cercada por um aro de metal; ao redor, pequenas pedras se intercalam num arco-íris manco de algumas cores que agora não me recordo quais são. Quando ela se deita sobre o meu corpo, a virgem chega antes, dá um beijo no meu peito e fica por alguns segundos gelando a pele entre os meus pelos. Heresias à parte, o meu coração pega fogo: me sinto livre dos pecados pecando. E como a minha imaginação não me deixa em paz nem nos momentos de êxtase, imagino a virgem rogando pelos dois corpos que a esmagam e colocando seu manto azul sagrado sobre nós. Depois de uma ducha rápida, ela se veste, me dá um beijo e sai pela porta do céu carregando a virgem no pescoço. Tenho necessidade de rezar, mas eu não sei. Agora, as minhas únicas companhias são um diabo exausto no corpo e metade do vinho que leva o santo nome dela.

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Fada

acredito em fadas e em fodas mágicas

seres iluminados e seus presságios

que nos sopram pó mágico pelas narinas

e nos transportam a mundos coloridos

safadas, brincam com magos e magias

transformam lendas em desassossegos

flanam pelos campos, atrás de flores e borboletas

enquanto alguém copia linhas e rimas sem culpa nem fim

acredito em elfos sangue-bom e sereias encantadoras

que fisgam corações de escribas ébrios em histórias épicas

acredito em amores que curam, transcendem e transbordam

métricas, melodias e molduras

acredito em pequenas homenagens e grandes ofícios

só não acredito em sátiros como este que vos escreve

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Desejar profundo

Pouco antes de se despir na minha frente com um certo constrangimento, ela fez uma pausa e me revelou que era uma sereia. Debochei dizendo que nesse caso eu seria um pirata chapado de rum em busca tesouros perdidos pelos sete mares. Primeiro ela sorriu, depois ficou séria e disse que ela mesma se buscava o tempo todo e sempre se surpreendia. Ela limpou a garganta e acho que foi nesse momento que percebi que ela realmente não estava brincando. Mal presságio. Se é verdade que o canto das sereias hipnotiza os homens, então estava feito.

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Manha

Tem situações em que ela me lembra muito a minha mãe. Antes de eu sair para uma nova entrevista de emprego ela ajeita a minha única camisa com a mão, amenizando os amassados. Assim que volto de mais um fracasso, ela pergunta como foi. Eu apenas baixo a cabeça e ela me faz um carinho como que dizendo na próxima você consegue, tá tudo bem. Quando o meu cabelo está muito desgrenhado ela faz eu me sentar no vaso sanitário, igualzinho minha mãe fazia, e, com uma tesoura não muito afiada, apara os fios mais ordinários que resistem bravamente no meu couro cabeludo. Mas ela fica definitivamente parecida com a minha mãe quando estou manhoso e me dá o peito.

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Supernova

Ela acha tudo o máximo. Vem de longe flutuando numa bolha voadora, gosta de flores de plástico porque não morrem, recorta palavras coloridas das revistas que nunca lê e cola uma foto minha na camiseta branca que eu emprestei. Básico é o máximo, diz com olhos brilhantes e mamilos idem. Ela não conhece o cheiro das flores de verdade, mas achou o máximo quando eu provei que elas existem de todas as cores, formatos e texturas. Às vezes parece que ela veio de outro planeta. O que sai daquelas bocas não são sons audíveis para qualquer ouvido humano. Nem aquela língua que parece penetrar cada poro do meu corpo antes, durante e depois de abduções sem camisas de vênus. Isso porque ela acha que eu também sou o máximo. Os domingos de ressaca ela passa em frente ao espelho pintando corações do avesso. E todo mundo sabe como é triste um coração do avesso. Ela não. Ela acha tudo o máximo.

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Entendimento

Ela chega dizendo que homem não sabe fazer nada direito, que não valho o arroz que cago, que a casa está só o pó e que não tem tempo para amarelões. Abre a geladeira, tira a água (é só o que tem), bate a porta, bate o copo nos dentes, tenta me fazer um carinho mas também bate a mão na minha cara. Tem pressa, cheiro doce amargo, sabor salgado e uns olhos vidrados que me deixam louco. Acende um cigarro, traga os meus desejos, me solta com nojo, mas depois repete tudo de novo. Eis o que entendo sobre o amor.

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GP

essa noite ela se vestiu de poema

se cobriu lentamente

letra por letra

sílaba por sílaba

experimentou frases como se fosse a uma festa

trocou as cores das palavras

mudou mil vezes de verbos

se enfeitou de adjetivos

indecisa, imperfeita, impura

se despiu com pressa

me rabiscou, me amassou e me rasgou

um rascunho de romances inacabados

uma página de versos sem rímel

uma epopeia de apenas uma hora

escrita com saliva, suor e sêmen

sobre o poema amarrotado e jogado no chão

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Skylab

Quando ela sobe as escadas até o céu azulzim sem nuvens, meu skylab. Quando vejo a que velocidade viaja a minha mente quando estamos em órbita. O jeito que ela move o ar love spell suspenso ao meu redor me faz querer mais uma vez. Quando a vejo molhando os lábios e segurando promessas sob o céu da boca, meu skylab. O jeito que ela se exibe me faz desistir de querer ser estrela e cair iluminando tudo, cortando o céu até virar pó, cratera, carbono. Quando a vejo ir embora na verdade eu queria levá-la ao planetário. Quando ela sobe as escadas até o céu azulzim sem nuvens, meu skylab. Quando a vejo feliz isso me faz flutuar e tirar grandes nacos das nuvens com os dentes. Quando ela morde os meus dedos acredito no amor.

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Inevitabilidades

A moça que me oferece gratuitamente os seios só quer se divertir. A que me pede a mão quer atenção e talvez um pouco de carinho. A moça que me mostra despudoradamente a bunda quer me iludir. A que me dá um beijo na testa não quer absolutamente nada comigo. A moça que me oferta ansiosamente a própria boca quer me cuspir. A que move lindamente os cabelos, tirando-os do meu rosto, quer me sufocar. A moça que me entrega o coração só quer, naturalmente, que eu a deixe partir.

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A encantadora de aves

Ela tenta me explicar a diferença entre cisnes, gansos, patos e marrecos e eu finjo que entendo. Ambos se divertem na água suja, ensaiam voos, caçam biscoitos de polvilho e pedaços de pão atirados por crianças barulhentas sob o sol de domingo. Os cisnes, gansos, patos e marrecos são vaidosos e namoram como todo mundo, mas não entre si, que aí também vira zona. Penso em comprar pés-de-pato e fazer um curso de mergulho, mas aí me lembro que cisnes, gansos, patos e marrecos fazem suas necessidades na água. Sou desperto dos meus devaneios enquanto ela vai estrelando seu documentário sobre cisnes, gansos, patos e marrecos e vou filmando tudo pelas lentes dos meus óculos escuros. Os cisnes, gansos, patos e marrecos me fazem perguntar em off: de onde vem o amor? Felizes são os animais que não perdem tempo filosofando num domingo qualquer. Continuo fingindo que entendo e para provar dou um beijo no bico dela.

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Igual criança pequena

No escuro, forço os olhos para enxergar o que está escrito naquela página. Como criança pequena que está aprendendo a ler, gaguejo uns versos fodidos de bom. Ao final de cada frase, catarse: me arrepio com a beleza das palavras certas colocadas nos lugares certos. Sinto inveja mesmo. Não minto. Elogio o autor, digo que um dia quero escrever pelo menos um décimo daquilo e encosto a cabeça mais perto do corpo dela. Ela passa a mão no meu cabelo bagunçado e diz, como se o que acabei de ler fosse uma receita de bolo: acho que você escreve bem melhor que esse homem aí. É só porque ele é famoso. É nesse momento que tenho vontade de chorar, abraçá-la e beijá-la. Em vez disso, orgulhoso como menino levado que fez a lição de casa, fecho o livro e ganho um beijo-estrela na testa. Talvez ela tenha razão. Talvez eu seja mais que um cara nu, suado, estirado num colchão lendo poemas de outro homem para a mulher da minha vida. Talvez eu seja o homem da vida dela.

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A ordem de todas as coisas

Passa a língua na minha boca. Essa frase imperativa, essa ordem direta, esse apelo erótico mais que perfeito vale mais que dez cartelas de pílulas azuis. Cada vez que ela me diz isso o mundo para, o universo conspira e os objetos ficam suspensos no ar: um livro de poesias jogado num canto, um chocolate pela metade e o colchão que ocupa quase todo o minúsculo quarto. Já li sobre isso. É a lei da simplicidade: todas as mensagens mais importantes são absurdamente simples: por favor, muito obrigado, eu te amo, me pega de quatro. Nós levamos uma vida simples. De manhã ela me diz bom dia. Antes de eu sair para trabalhar ela pede para comprar pão na volta. E toda noite ela repete: passa a língua na minha boca.

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Hedonismo

Ela, que admira corpos sarados e mentes brilhantes, tira a pele das uvas sem sementes e enfia muitas ao mesmo tempo na boca. De vez em quando sobra uma para mim. Fico numa completa leseira moral, com a cabeça jogada para trás lembrando os barbudos gregos, me empanturrando de sonhos efêmeros e sentindo o sabor de viver o agora. Rapidamente ela se tornou a minha filosofia de vida e a fruição das minhas viagens mitológicas. Tenho absoluta certeza de que o velho Zorba também melaria a cueca se a conhecesse. O meu prazer é proporcionar prazer a ela, mesmo possuindo um corpo bem meia boca, uma mente nada brilhante e a cabeça do pau sem a pele.

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De onde vem o amor

Seu pau tá com gosto de buceta. Ela disse isso, se levantou e foi para o chuveiro. Nesse exato instante percebi que o amor, verdadeiro e incondicional, nasce das pequenas coisas, como quando ela amarra o cabelo com a calcinha num vistoso rabo de cavalo para não molhar no banho. O amor nasce da esfregação que começa nas costas e escorrega por entre as nádegas macias. O amor nasce da pressão que ela faz com os dedos para ensaboar as minhas têmporas. O amor nasce da vontade com que ela brinca com as minhas bolas de sabão. O amor nasce do choque térmico entre o corpo quente e o azulejo frio. O amor nasce, brota, jorra, escorre e se perde na espuma dos sonhos de nós dois.

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Estrela

Depois de anos de trabalho e dedicação em busca de grana, sucesso e fama, ganhei apenas limitações. As minhas falas se limitam a trinta segundos, as minhas cartas, a cinco linhas, as minhas promessas, a algumas ressacas, e os meus amores, a no máximo alguns meses. Só as lembranças amargas, essas sim, duram muito mais tempo que o necessário.

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Língua de fora e outros mistérios da Física

Por que fomos nascer tão longe um do outro? Vou abandonar os anúncios, as preces, as rezas, as macumbas, os vícios e as orgias. Vou largar tudo para me dedicar à invenção de uma máquina de teletransporte. Não sei quanto tempo as minhas pesquisas e testes vão demorar para alcançar o sucesso de apertar um botão e chegar até ela no meio da noite. Se um dia tiver êxito, vou colocar rapidamente nessa máquina tudo o que a gente precisa para ser feliz: um alfinete, uma mesa de sinuca verde, alguns pacotes de pingo de ouro para as horas de larica, um sol bem amarelo, uma camisola de seda branca e um cartório de papéis igualmente brancos. Vou pesquisar as fórmulas inexatas do amor, os átomos agitados do corpo dela e os mistérios que a cercam. Vou fazer por merecer. Merece-la no tapete verde, a camisola branca largada num buraco qualquer, o sabor do pingo de ouro na boca dela, os papéis passados amassados e o sol, o sol que eu vou pendurar na janela do quarto todas as manhãs com o alfinete.

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Para os dias de chuva

ela nua é nuvem

com um sopro deságua

ela nua é linda

quando ferve, evapora

ela nua é vertigem

nuvem de leite condensado

ela nua é lençol

quando chove dissipa-me

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Os últimos segundos da espera

Aqui em casa a saudade já deixou forma no travesseiro. Enquanto caminho dentro do minúsculo apartamento, milhões de ideias grandiosas atravessam a minha cabeça sem nenhum objetivo claro. Mesmo assim, anoto todas elas no papel de rascunho que é a minha vida usando o garrancho que são as minhas faculdades mentais. Ouço passos pelo corredor. A campainha toca. Desesperadamente encaixo a chave na fechadura e giro. Não sei dizer qual sentido desperta primeiro, se o meu olfato ou a minha visão. Apenas salivo. Talvez a física e a química ainda não tenham descoberto a substância que me atrai nela. Esqueço as boas-vindas, a chave, a porta, a respiração. Levo alguns segundos para sair do transe inicial e carimbo a boca os olhos as maçãs do rosto o nariz as orelhas o pescoço dela com beijos sustenidos. Também uso o tato para reconhecer a minha posse sobre o corpo que se encaixa tão perfeitamente no meu colchão surrado. Enfim, já recomposto, convido-a para entrar, tranco a porta e nenhuma ideia me perturba mais.

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Palavras cortantes

Cuidado que tenho as unhas afiadas. Essa frase arranhou o meu córtex cerebral e o que sangrou foi o meu céu da boca. Ela me desdenha, mas escorre pelos meus lábios e se veste com muito pouco pano para quem quer disfarçar tanta timidez. Só conheço algumas partes do corpo dela: fragmentos de ombros que tenho vontade de morder, lapsos de um pescoço que vou marcar com os dentes e o pé esquerdo que afunda no meu subconsciente de mornas águas. Pela letra de uma carta amassada que achei no seu diário, ela se refere a mim apenas como sujeito. Ela não gosta tanto de mim porque não tenho os braços morenos. No primeiro encontro ela falou em casamento e em ciúme, disse que pode me esganar com as próprias mãos e que o gosto que tanto procuro está na boca dela. Me diz, então, qual é o gosto da tua boca? Ela me provoca dizendo que nunca vou encontrar o caminho que leva até o que existe atrás daquele decote absurdo. Concordei e respondi que não mesmo, nunca vou encontrar esse caminho. Eu vou inventar um.

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Brando

No primeiro fim de semana que passou em casa, ela trouxe duas malas: uma de roupas e uma de cremes. Ingênuo, perguntei se aquilo tudo era realmente necessário. Ela respondeu com outra pergunta: como você acha que me mantenho gostosa, cheirosa e linda. Para um cara cujos únicos luxos são pasta de dente, desodorante, xampu e um sabonete qualquer, não fazia sentido. Para que serve esse. Para os cabelos. E esse. Também, mas após o banho. E esse aqui. É para o rosto. E esse. Para os olhos. O do rosto não serve. Não, esse é específico para as olheiras. E esse. Para os pés. E aquele ali. Mãos. E para a buceta, o que temos. Só um sabonete íntimo e o meu cheiro, que você se lambuza. Certo. Como ainda estávamos nos conhecendo, perguntei com a delicadeza que me é peculiar: e na bunda. Ela disse que só uma vez e que doeu, mas como queria me fazer feliz, se eu quisesse muito, tudo bem. No entanto, não tinha nenhum creme para tal fim e morria de vergonha de comprar. Pedi para ela se vestir e a levei até a locadora. Ingênua, ela perguntou o que estávamos fazendo ali. Respondi com outra pergunta: já viu o Último Tango em Paris?

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Pelos, bocas e noites de cão

Toda vez que faço algo que agrade a moça ela me dá um beijo de prêmio, passa a mão atrás das minhas orelhas ou aperta o meu queixo com as pontas dos dedos. Tenho treinado as minhas células olfativas para reconhecer lá da rua o cheiro que ela tem. Mas às vezes eu ainda apronto e corro atrás de outras pernas. Aí, quando vem a tempestade eu me mijo de medo a cada trovão mais forte que sai da boca dela. No outro dia fica tudo bem, então pulo, deito, rolo de um lado para o outro, largo o osso duro da vida, beijo e lambo. A alegria maior começa na hora em que ela abana o rabo. Assim, ficamos horas presos um ao outro, atraindo olhares nada pudicos, ladrando nossos próprios corações e mordendo ombros, pernas, bocas e línguas um do outro.

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Trapaça

No amor, ganha quem se perde.

Perde quem se vicia.

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Sinestesia

Rimbaud fez um poema sobre as cores do alfabeto. Nabokov percebia as letras em cores. “Avista-se o grito das araras”, escreveu Guimarães Rosa. Kandinsky também era bem pirado. Na sopa de letrinhas que é a minha rala vida, sinto um gosto bom no céu da boca ao ouvir o nome dela. Assim que a minha pobre e míope retina avista aquela voz de longe, a vista clareia, colore o ambiente, muda de tom e afina os meus sentidos. Fico rindo à toa, curtindo um formigamento lesado nas mãos só de ver aquele cheiro. Isso me dá sede. A garganta trava, as pupilas dilatam, as pernas amolecem e fico duro. E quando o sorriso quente e doce dela me toca sinto o paraíso tremer.

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Incongruências (ou Sobre a capacidade humana de adaptação)

Ela, que nada é para mim e para quem nada sou, me toca com suavidade. Parece que não estou em pé, sentado nem deitado. É simplesmente como flutuar no espaço vermelho, semeado de manchas, ouvindo uma música desconhecida. Então penso que talvez eu sofra da síndrome de Estocolmo; estou totalmente entregue à mulher que abriu a minha caixa de desejos. E como o meu corpo se dissolve no espaço e sinto apenas a cabeça pesada, imagino sem dificuldades que aquelas mãos suaves seguram a minha cabeça como se não a associasse a nenhum corpo, apenas a uma ideia do que sou agora e, talvez, do que poderei vir a ser. E aí entendo que as pequenas coisas são as únicas que o amor não conseguiu levar: aquela música desconhecida que grudou na memória, um livro pequeno com grandes poemas e um coração perdido, apertado, que para ela nada é nem nunca será.

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Promessa

Um dia, quando estiver bem velhinha e quase cega como um vagalume, e eu já me tiver ido, ao caminhar pelo Campo de Santana, com algum esforço ela poderá ver uma placa de mármore com esses dizeres: Obrigado, Dr. Tomas Sousa Martins, por estar comigo nos momentos mais difíceis e por me ter ajudado a alcançar a mulher da minha vida.

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Formigas

As formigas chegaram em casa de mansinho logo depois que ela saiu pela última vez da minha vida. Eram poucas no começo, três ou quatro aqui ou ali, reconhecendo o terreno. Em vez de se concentrarem na cozinha, onde era suposto procurarem restos de comida, as formigas fizeram ninho no quarto. Em semanas creio que já eram milhares. Gosto de me deitar no chão e deixá-las percorrerem o meu corpo. Com o tempo aprendi a admirar a organização e o ritmo de trabalho desse seres fantásticos. Elas me distraem nesses tempos difíceis. Nas raras vezes em que tenho a sorte de adormecer, desperto com a boca e com os olhos cheios de formigas. Por alguns segundos fico imaginando que são os beijos de bom dia aos quais eu estava acostumado antes de ela sair da minha vida escandalosamente calada. Mais que tristeza, sinto formigamento. Não penso em me livrar das formigas como ela se livrou de mim. Ao contrário do amor, as formigas nunca vão me abandonar, nem que eu pise em algumas delas.

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Cenoura & Bronze

Diante da insistência úmida do lado de fora, me distraio untando as costas dela com autobronzeador. Enquanto isso, reclama sem parar do frio de São Paulo e exalta o clima privilegiado da cidade dela. Como não precisa trabalhar, lá ela passa horas na piscina do prédio, lendo, escrevendo e, jura, pensando em mim. Por isso, quando vem passar quinze dias seguidos ela sofre bastante, ainda mais nesse tempo e no apartamento gelado. Por isso ela me pede para passar autobronzeador nas costas dela. Para mim é ao mesmo tempo um prazer e um sofrimento. Prazer porque amo deslizar as mãos sobre aquelas costas, sentir cada costela, colocar os dedos nas covinhas, escorregar as mãos pela bunda com marca permanente de biquíni. Sofrimento porque padeço de ansiedade aguda e o autobronzeador exige que fique-se vinte minutos sem se mexer, sem tocar, sem tirar a química e eu não suporto ficar tanto tempo sem tocá-la. O produto deixa um cheiro estranho no ar, a pele das minhas mãos laranja e os cantos das unhas pretos. O processo todo é lento como a chuva lá fora, mas é para o meu próprio bem, ela jura.

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Musil

Falando com uma certa mulher sobre a minha desistência de comprar O homem sem qualidades, de Musil, porque é um catatau de mais de duas mil e cacetadas páginas, ela manda essa: se fosse O homem com qualidades seriam só duas linhas. É por essa e outras que tenho certeza de que essa é a mulher certa para mim.

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Miopia

Ler tem sido um sacrifício. Os olhos ardem, caminham lesados pelas letras e quase estacionam nas lombadas dos livros. Por menores e mais leves que sejam, os livros pesam muito sobre o meu corpo e cansam os meus braços. Leio como que por obrigação. Não tenho mais prazer nenhum na leitura. Leio e imediatamente esqueço o que acabei de ler. A minha memória congelou na imagem dela indo embora. Pior que o fracasso na leitura é a catástrofe na escrita. Ensaio, poema, conto, história, tento tanto, rabisco, apago, desisto. Quando me dou conta, estou brincando de forca com o nome dela. Um resumo da história: leio o que aguento e escrevo o que não suporto.

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Bem de manhã

Com seu amarelo bem peculiar, o dia entra sorrateiramente pela janela entreaberta do quarto. Pisando macio para não acordá-la, ele se aproxima pouco a pouco. O dia e eu não sabemos se ela sonha, o que sonha, nem se dorme ou se finge. Com o dia cada vez mais perto, cubro o corpo dela: primeiro as pernas, depois a bunda e um pouco das costas. Ela reage se encostando um pouco mais em mim. Abusado, o dia sobe no colchão, se espalha pelo lençol surrado e tenta se aninhar por ali. Como tenho ciúme até do ar que ela respira e sofro mais que o jovem Werther, me levanto devagar, fecho bem a persiana e desço a cortina empoeirada. Agora quem finge dormir sou eu, enquanto o dia fica batendo desesperadamente do lado de fora da janela.

***

Drosophilas

Mato o tempo tentando matar as moscas que rondam o meu copo pela metade. Antes de ir embora para sempre ela me disse que as moscas só vivem por vinte e quatro horas. Não foi um “fica bem”, “você vai sair dessa” ou “se cuida”. Não. Antes de partir ela me disse isso, que as moscas vivem por apenas vinte e quatro horas. O cinzeiro está carburado. A mesa está cheia de restos de comida, lembranças líquidas e outros detritos venosos. As moscas são insistentes e não tenho força para afastá-las com safanões, por isso entre um gole e outro derramo uísque vagabundo sobre as feridas. Mato o tempo tentando matar as moscas que rondam o meu corpo pela metade.

***

Subterfúgios

Eu a vi pela primeira e última vez no palco de um teatro decadente no centro da cidade. Não era bem um teatro, não era bem um palco, não era bem ela. Quando a apresentação chegou ao fim e as cortinas tornaram a se abrir para os agradecimentos, ela me cortejou e disse que da próxima vez os meus olhos seriam lindamente engolidos e que eu não precisaria de mais nada além da sua voz. Em troca, ela falou que precisava de um homem que a calasse. Nunca mais enxerguei e até hoje estou aqui, perambulando pelo teatro e ouvindo as vozes presas na minha cabeça.

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Fisiologia do orgulho

Apesar de não ter emprego fixo, ela nunca me deixa pagar nada. Uma roupa nova, uma tatuagem, um vinho que custe mais do que cinco pratas, um algodão doce na matinê de domingo. Nada. Ela sempre repete: não gosto de depender de quem quer que seja, não quero que você me sustente, eu sei me virar. O que ela chama de independência eu chamo de teimosia. As únicas coisas que ela aceita de bom grado são os meus cigarros, uma camiseta velha e a insônia dos dias mal vividos. Ela não tem frescuras: bebe água da torneira, passa longe de manicures, vai aos compromissos a pé para economizar o bilhete único e quando está com fome se ajoelha e satisfaz todas as nossas necessidades.

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Versículo

São oito tatuagens estrategicamente espalhadas pelo corpo: atrás da orelha, nos ombros, no pulso, no antebraço, no pé, na costela e uma em especial que me chama muito a atenção, marcada para sempre em seu quadril esquerdo, e que traz uma mensagem bíblica. Não tenho a mais pálida ideia a qual livro, capítulo ou versículo pertence aquela sentença. Eu penso que é uma boa sacada para a boleia de um caminhão. Eu penso na bíblia que a minha mãe me deu quando eu era criança e que nunca abri. Eu penso que esse corpo é um altar e que toda a minha devoção, todo o meu sacrifício e toda a minha fé nesse momento se resumem a apenas uma certeza: tudo posso entre esses quadris.

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Cão

Hoje ela voltou para casa trazendo companhia: um cachorro. Disse que andava pela rua quando o encontrou, fez um carinho atrás de suas orelhas e pronto, bastou para o bicho seguir seu cheiro até aqui. Como ela não resistiu àquela cara de coitado que só os vira-latas sabemos fazer, trouxe o animal para cima. Depois de descarregar impropérios e chama-la de irresponsável, me acalmei e tampouco eu resisti. Também não resisti quando ela se sentou à mesa, cruzou as pernas, acendeu um cigarro e pediu um café. Para ela, tudo deve ser intenso, forte, quente e sem açúcar. Enquanto a água fervia, o cachorro se animou com a possibilidade de ganhar alguma comida assim que abri o armário para pegar o pó e o filtro de papel. Falei para ela se virar, que o problema era dela. Concentrado em colocar a quantidade exata do pó que ela gosta, não percebi quando ela abriu a geladeira. Infestado de pulgas, o cão só parou de se coçar enquanto comia. Lambeu alegremente as mãos dela após devorar o bife gelado que ela deu. O meu bife. Senti um pouco de ciúme. Lamber os ossinhos daqueles dedos é uma das experiências mais agradáveis que existem para o meu paladar. Quando enfim a coceira deu um tempo, o cachorro achou que era uma boa hora para dormir e, de barriga cheia, se deitou aos pés dela. Ficamos sentados na cozinha, tomando café e pensando em que nome dar ao novo morador.

***

Romance

Sem disfarçar a empolgação e o prazer, mostro um pequeno e adorável livro que estou lendo. Sem demonstrar o mínimo interesse, ela me lembra que não gosta de contos nem de poemas porque quase nunca prendem a sua atenção e, quando prendem, logo se acabam. Ela prefere os romances, mas ao se deitar para ler ao meu lado, o que é raro, dorme logo na segunda página, o que é comum. É a conta de um conto, digo. E digo ainda que eu mesmo só consigo escrever contos. Para ser sincero, minicontos, coisa de oito ou nove linhas, não mais que isso. Mas dos meus pequenos textos ela adora, afirma. Os meus contos cabem em qualquer lugar, são fáceis de carregar por aí, apresentam-se concisos e muito precisos, ela diz, didática, molhando o dedo na língua, virando a página e prendendo muito mais que a minha atenção.

***

Impermanência

Na época em que não tinha grana nem para livros usados, me consolava escrevendo em boletos vencidos, currículos não enviados, sacos de pão amanhecido. O resultado foram textos carregados de ressentimento, além de dezenas de cigarros e quatro ou cinco punhetas diárias. Essa foi a rotina durante meses. Quando consegui trabalho, arrumei um notebook e passei a escrever pequenos manuais de sobrevivência para mim mesmo, que para a minha surpresa conquistaram sucesso de público e crítica, proveito daquele tempo de escassez de recursos e excesso de ódio. Comprei muitos maços de cigarros, bebidas de todos os tipos e vários livros novíssimos da minha lista de favoritos. Para coroar essa brilhante fase, conheci o meu amuleto, o meu patuá, o meu trevo de quatro folhas. A minha sorte pesava menos de 50 kg e me levou a lançamentos, vernissages, banquetes e orgias. Publicaram os meus contos, pagavam as minhas contas e me ofereciam boquetes todas as noites. Eu já tinha quase me esquecido de como era a sensação de perda quando a minha sorte resolveu sorrir em outro lugar. Fechei esse período de sonhos e clichês sem chave de ouro, sem convites para festas, sem elogios, mas também sem nenhum desespero. A impermanência é a arte de dizer adeus com elegância.

***

Ausência

De tempos em tempos ela desaparece. Além de só, também me sinto culpado. Percorro aflito a cidade, vou a lugares que ela frequenta, procuro pessoas que a conhecem e imploro por qualquer informação. Quando enfim consigo completar uma chamada para o seu celular, uma voz muito parecida com a dela me informa que não sabe onde ela está, mas que devo ficar tranquilo e tentar me distrair, escrever, ir ao cinema ou dormir um pouco. Exausto, aguardo imóvel a longa escada rolante do metrô me levar para a superfície e me sento nas escadarias da Sé. Divido o espaço com gente que desapareceu de suas próprias vidas e busco inutilmente alguma razão naqueles rostos. Ao voltar para casa, já tarde da noite, reparo que um cômodo está aceso.

***

Asas

No meio da noite, desperto assustado com o barulho de asas batendo. Ainda no escuro, tateio a cama procurando por ela, mas só encontro a minha camiseta que ela usa como pijama. O meu coração dispara e bate no ritmo do som seco que ecoa pelo breu. Acendo o abajur, coloco os meus óculos e a vejo voando rente ao teto, procurando uma saída. Chamo o seu nome uma, duas, três vezes. Sei que qualquer tentativa de mantê-la aqui dentro é em vão, por isso me levanto e abro todas as janelas. Tenho a nítida impressão de que sou o único acordado em toda a cidade. Vou até a cozinha, me sirvo uma dose generosa, acendo um cigarro e começo a escrever: no meio da noite, desperto assustado com o barulho de asas batendo.

***

Acaso

Um dia, depois do amor, ela deslizou com ternura o dedo indicador pelo meu rosto, sorriu e disse que torcia muito para que os nossos filhos tivessem o meu nariz. Naquele momento, tive a mais absoluta certeza de que passaria o resto da vida com aquela mulher. Muitos anos depois, eu a reencontrei na rua, carregando um menino no colo e puxando outro pela mão, a caminho do carro. Eu me aproximei e disse oi. Surpresa, ela também disse oi, mas acho que não me reconheceu de imediato. Colocou as crianças nas respectivas cadeirinhas no banco traseiro, fechou a porta e me olhou dos pés à cabeça. Ficamos juntos durante quase cinco anos. Fizemos milhares de planos e promessas. Escolhemos os nomes dos nossos herdeiros. Perguntou dos meus pais, perguntei dos dela. Eu disse que ela continuava bonita, que morava ali perto e que as coisas iam bem. Ela não falou nada sobre as crianças nem eu quis saber. Nenhuma delas tinha o meu nariz e nunca mais voltei a vê-la.

***

Fato

Invento memórias e momentos para cada mulher que cruza o meu caminho. Na minha cabeça, para todas elas sou herói marido amante médico pai filho espírito santo. Esperançoso, imagino o meu túmulo coberto de flores, cartas, placas de agradecimento pela graça alcançada e garrafas para as muitas desgraças. Mas nesses enredos tudo sempre dá errado e acabo estragando tudo. No fim, amar é se esquecer de si mesmo.

Mostrando omentários
  • Lilly

    Ik blijf het toch zeggen: de 4×4 wagens zijn het mooiste. De rest is on.truualijknWel even het zout er van af wassen. Das dodelijk voor de wagens.

  • http://www./

    Quibble: that's A1FI, A1-Fossil Intensive. (I noticed Joe Romm making the same mistake – certain sans-serif typefaces are to blame, I guess.)I agree that changes in sea level don't constitute a global threat. I'm much more concerned about changes in ocean chemistry. That could have severely non-linear effects. The possibility of a "flip" to complete thermal stratification is also a worry.

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