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Você já acumulou alguma experiência e conseguiu entender como funciona seu corpo ao escrever, aprendeu a lidar com os horários em que funciona melhor (ou a funcionar quando precisa funcionar) e a tornar-se, efetivamente, um escritor que escreve. Quem leu minha primeira coluna sabe que não há nada de redundante nisso. Fato é que você não é mais uma daquelas pessoas que, há algum tempo, redigiu lindas redações na escola, teve uma ideia para um conto ou chegou a desenvolver um romance (revolucionário!), mas teima em mantê-lo engavetado, à espera de um contrato para começar a escrever a sequência – já toda esquematizada em sua cabeça, é claro. Não, você é um escritor e, portanto, escreve. Regularmente. Mesmo que a atividade não dê dinheiro ainda, equilibra seus afazeres cotidianos com uma disciplina (ainda que muito particular) que permite a produção de uma certa quantidade de laudas. Muito bem!

Mas a vida, como diria Joseph Climber, é uma caixinha de surpresas. Posso dizer que, descontando os anos de alfabetização, escrever faz parte de minha vida há trinta anos. Ao longo dessa jornada, houve fases em que me percebia tomada por uma estranha síndrome. Nesses momentos, eu me pegava escrevendo, mas nunca para mim, ou melhor, nunca parecia estar escrevendo o que eu queria estar escrevendo. Aquilo que sentia, em meu íntimo, que devia estar escrevendo. Dei a esse sentimento o carinhoso apelido de “síndrome do escritor-fantasma”.
Tratava-se de um fenômeno estranho. Tinha várias obras na cabeça – poemas, músicas, roteiros e romances (em geral, de ficção científica, minha área favorita). No entanto, fiquei conhecida, muito cedo, como alguém que sabia escrever, no sentido de ter um Dom inalcançável destinado a poucos ou uma bizarra facilidade geneticamente programada. Claro que eu gostava disso. Logo, os pedidos se acumularam. No período escolar, eram cartas e poemas. Houve a fase Cyrano de “Escreve uma carta para o meu namorado?” e “Se você tivesse que se declarar nesse papelzinho, como faria?”, seguida pela fase dos poemas a partir de qualquer deixa: “Disseram que, se eu te der uma palavra, você faz um poema, verdade?” E lá ia eu, feliz, demonstrar carinho e virtuose em dois ou três movimentos certeiros de combinação de palavras.

Mais tarde, houve a fase do “me ajuda aí” em trabalhos escolares e universitários, roteiros, projetos, entre outros. Claro que a prática era bem-vinda e eu não trocaria a experiência por nada. Além do mais, nem tudo se enquadrava na imagem que associamos ao ghost writer ou escritor fantasma tradicional: um sujeito que sempre escreve para que outros assinem. Complicado mesmo foi quando a coisa se institucionalizou: primeiro, comecei a ganhar dinheiro para escrever coisas sob demanda e, logo depois, comecei a gostar um pouco demais de provar a tal virtuose anteriormente mencionada. Fiquei meio viciada nisso para falar a verdade.

À princípio, foi um processo sutil: meus “horários para escrever” eram dedicados apenas àquilo que eu estivesse desenvolvendo como arte, livre de amarras, àquilo que sentia que precisava plasmar no mundo. Então, numa noite qualquer, decidi substituir a escrita livre pela redação de um relatório, projeto ou de qualquer escrita “sob demanda” de que tinha de dar conta, sob a desculpa de que era apenas por uma noite. Depois, eu compensaria. Afinal, os prazos estavam apertados! Quando vi, já estava dedicando semanas a redações como aquelas e dizendo a mim mesma que, afinal de contas, estava escrevendo e era isso o que importava. Então, qual era o problema?

Bem, o problema era um ressentimento que, depois de alguns meses, brotou no fundo do meu peito, à medida que meu projeto mais autoral foi ficando perdido como sonho distante no fundo de uma gaveta virtual do computador. Eis a síndrome. Foi bem difícil diagnosticá-la e compreendê-la. E ela se manifestou não uma, mas várias vezes. Em resumo, podia dizer que, se eu não era uma escritora fantasma porque assinava minhas produções (fossem elas relatórios, projetos ou contos), sentia-me como uma espécie de fantasma na máquina cartesiano. Minha mente gostava de se exibir em trabalhos de escrita mecânicos e de enganar meu coração dizendo que dava no mesmo, mas meu coração seguia querendo ganhar espaço, por mais que a rotina parecesse indicar que não havia motivo para fazê-lo (já que, além de tudo, ser maquinal gerava grana).

Todo esse papo me faz lembrar de um livro bem bacana da Laura Esquivel, autora do delicioso Como Água para Chocolate, chamado Escrevendo a Nova História, em que ela, basicamente, apresenta ferramentas para que pensemos sobre quem anda escrevendo nossa história de vida. Recomendo. Levou-me a ter de pensar sobre quem andava escrevendo minha história como escritora. Eu sei: é bem metarreflexivo! Será que eu escrevia, ainda, para provar para todo mundo que sabia escrever (e, nisso, acabava me convertendo na escritora fantasma das encomendas e anseios de outros) ou escrevia construindo meus caminhos artísticos no mundo? É claro que dá para fazer as duas coisas, mas o equilíbrio é uma busca constante.

Existe uma coisa muito particular em relação à virtuose. Acho até que se aplica a outras artes. Quando escrevo para provar que sei, demonstrar preciosismo, perco alguma coisa no caminho. Ganho, no máximo, a satisfação de ajudar alguém ou contribuir com algum processo coletivo e, no mínimo, a gratificação por uma tarefa eficientemente ticada da lista do dia. Mas a coisa toda não deixa de ser cansativamente maquinal… Quando escrevo aquilo que sinto que devo escrever, quando exploro o manancial de ideias criativas que pulam com urgência em minha mente entre meus afazeres cotidianos – às vezes, ainda tão incipientes que nem sei em que vão dar – sinto-me uma aventureira, alguém que precisa de coragem, sabedoria e bondade para lidar consigo mesma com carinho, pelo tempo que for necessário, até que mais esse filho nasça, sem saber qual será seu destino, apenas porque ele já foi fecundado.

Se eu posso deixar uma sugestão, então, é essa: perguntem-se, de tempos em tempos, estou escrevendo o que sinto que devo escrever? Se preciso escrever sob demanda, como abrir tempo para minhas próprias demandas? Ou, caso prefiram a versão de Esquivel, quem anda escrevendo sua história de escritor? Porque há muitas maneiras de se tornar um artista fantasma. Com ou sem a possibilidade de assinar as próprias obras.


Referências:

Escrevendo a nova história – como deixar de ser vítima em doze sessões – Laura Esquivel, Editora Bertrand Brasil, 2014.

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