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E era sempre difícil para mim admitir certas coisas. Que precisava de uma raspa ao menos de felicidade para encaixar as peças com sentido. Mesmo reorganizando a memória a meu favor, saltavam como espinhos todos os meus enganos. Era custoso também mudar de ideia depois de ter ido embora e, ultimamente, tenho feito isso por muitas e muitas vezes. Agora mesmo, desço as escadas do apartamento dela, pronto para minha melhor falsa postura de “não me importo com a chuva a ensopar as roupas”. Mas me importo demais. Piso na calçada de lixo e água suja e o peso do que visto, agora molhado, faz o possível para competir com meu fracasso moral. Vou em frente, ignoro o olhar de quem passa me analisando dos pés à cabeça e caminho até o ponto de ônibus, insistindo em pousar os pés nas poças mais horrendas possíveis. Faço graça comigo, digo que minha ególatra punição é absolutamente válida, que não sou só mais um menino crescido à base de achocolatado e biscoito. Mas eu sei, ela sabe, e, provavelmente, o sorriso torto do motorista do ônibus também, o quanto de ensaio gastei na formulação da minha pose, do meu duplo que passa todos os dias tentando me convencer de que, verdade, sou eu.

“Não vou sentir sua falta… não vou te ligar” ou as dimensões castanhas dos olhos dela ou seus lábios entreabertos convidando a próxima frase, algo retalhava mais meu coração do que o que ouvia. “E nós dois sabemos o motivo. Tudo isso que nós temos feito, todo o tempo que eu passei livrando você das bobagens todas que você carregava… ah, sabe, nada mesmo vai importar mais, agora. Você continua decidido a ser o grande herói solitário, se esforça demais para ser o grande perdedor, o maior guerreiro”. Planejei tanto, mas tanto, minha cara de impassível segurança que esqueci de pô-la em prática agora. Provavelmente, me entreguei, pelo olhar ou algum tremor nas mãos. Porque ela percebeu e abaixou a cabeça e suspirou. Cansada. Eu também sentia cansaço, mas buscava esperança nos silêncios do que ela dizia. Cada hesitação me fazia enxergar cores diferentes na sala. Nas pausas, a mesa cinza. As palavras saltavam da cortina vermelha, repousavam no sofá verde. “Me desculpa, acho que cobro demais de você, às vezes…” e, assim, meus olhos buscaram, freneticamente, algo dourado no apartamento. Não havia. “Mas a verdade é que não consigo mais. Nunca vou ganhar essa luta com você. Acho que nem você vai ganhar isso… você sabe, né? Consegue ver como luta contra você o tempo inteiro?”.

Disse que sim com a cabeça na hora, mas não sabia. Ainda não sei, neste banco de ônibus molhado. Molhado por minhas roupas sem marca, meu casaco preto. Minhas calças puídas nos lugares certos para simular o uso constante. O caderno no bolso de trás, agora borrado pela chuva. Tentei ler mesmo assim. Ler minhas anotações dos últimos dois anos, meu amor por ela guardado no único lugar onde me permitia ser sincero. Eu. Páginas e páginas com a descrição da sua pele, o inventário dos objetos na minha casa que guardavam a memória do toque dela a cada vez que ia embora. Minhas confissões de amor, minha torre infinita de admiração por seus dedos, sua voz, cabelo molhado pela manhã. O registro do que talvez fosse tudo que ela esperava de mim, tudo que ainda pudesse fazê-la acreditar que eu não estava distante, nunca estive. Sempre fui fraco demais para abandonar a imagem que elaborei de mim para mim. Sentia agora minha queda, agarrado ao duplo, ao meu fracasso, que passei a vida construindo cuidadosamente. Achava bonita a imagem, trágica, heroica. Deixei o caderno borrado se apagando no banco. Saltei no meu ponto. Não havia mais nada a registrar.

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