Se era 1971 eu não me lembro 

segunda, terça, quarta, quinta,

sexta e sábado eram domingos

só não havia missa, o filé que tinha de ser

mignon, o molho de tomate elefante

na minha macarronada e o lá-lá-ra-lá do programa do Silvio Santos,

então tinha escola, uniforme, lição de casa e lanche de ovo com pão

além das brincadeiras e a preguiça do tempo, que morava dentro do calendário

da nossa casa, que era meu labirinto e ela talvez fosse cor de rosa igual ao

algodão doce ou azul, anil e celeste, a mesma cor da bola de gude mesclada do

meu irmão,

na janela milhões de estrelas se escondiam atrás da cortina

e quase tudo dentro da casa era vermelha ou vermelho:

o sofá, a sandália da minha mãe, a maçã do amor e meu vestido,

o suco de groselha, as bochechas da minha avó no porta-retrato

e o batom que eu usava escondida,

também me escondia atrás da cortina quando o Zé do Caixão ameaçava sair da

tevê

ou se minha mãe conversava com as amigas assuntos que eu não entendia, e

hoje lembro de palavras que elas cochichavam: amante, aborto, desquite

e de como fiquei desapontada feito um lápis sem cor e sem ponta

quando joguei uma lata velha de sardinha dentro do poço

e a água teimava e saía enferrujada

meu pai então chamou um super-homem de botas e depois de uns mil dias a água

ficou transparente e eu nunca contei que a culpada fui eu

eu de mini-saia e cabelo curtinho, tinha um boneco chamado Jorginho

que eu alimentava com comidinha de biscoito de polvilho esfarelado e uma pitada

de sal,

já que de doce já bastava a vida e do meu peito de 7 anos não saia gotas de leite

eu cresci, o tempo passou e aquele boneco foi o meu único filho

***

Grécia

era Grécia

sol outubro calor

nós dois

eros

e amor

de brindisi

a patras

cheguei de navio

ele

de boston

pousou

em athenas

viajamos

kilometros

ele eu e a moto

foram milhas,

mil ilhas

da fantasia:

de mikonos

a kós

coroas de louros

garrafas de vinhos

e frutos do mar

– afrodisíacos –

e teve corinthos

e a carta a são paulo

ele ruivo

de um povo hebreu

meio rabino

puro judeu

em plaka

dançamos

diante de

uma sinagoga;

na ilha deserta

templo pagão

rolamos no chão

ciclopes gaia ludus pragma ou philia?

e houve

a fuga

redescobrimos

as américas

ele a do norte

eu a do sul

***

Anjo

quando eu nasci

um anjo gordo

barroco

desses de gesso

barato

e olhos safados

me disse

— vai ser doce na vida!

minha raiz é profunda

da itália ao piauí

corro quilometros

corregando

a estrela da vida inteira

manuel bandeira

se eu me chamasse

clarice não seria uma rima,

talvez eu fosse poeta,

ou sacerdotisa de tarot

adélia hilda ana cristina

virgínia

em vez disso

sou só

otacilia, de freitas

esse sol

essa caipirinha

romã

agridoce

melancolia

Mostrando omentários
  • Ricardo Pontoglio

    Gostei dessa viagem pelo amor e pela Grécia contada no poema. Gostei do poema também!

  • Amir

    Delícia de poemas! Amei Grécia! Talvez, pelo amor desejado! Abraços.

  • Maria Regina Tadea Gulla

    Otacília, amei seus textos! O do Anjo é demais! Lindos. Beijo

  • Maria Luiza Fontenelle

    palavra tempo gosto passando por todos os corpos físico etéreo anímico emoção. muito bom de ler, vai continuando! parabéns!

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