Eu demorei mais dias do que eu podia pra escrever esse texto e achei bem pertinente, pois desde o começo eu decidi escrever sobre procrastinação. Pra quem não sabe, procrastinação é um nome complexo pro bom e velho “não deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã”.

Eu tinha um prazo de 15 dias, e decidi prestar atenção nos meus mecanismos de procrastinação pra escrever um texto bem engraçado, mostrando toda minha capacidade procrastinadora, minha lista insana de prioridades (eu posso resolver aprender a costurar no meio de um texto com o prazo de quinze dias) e dando dicas de programas como o selfcontrol ou concentrate – que bloqueiam sites por um tempo determinado evitando que você acesse o facebook a cada 30 segundos, por exemplo.

Só que acontece que antes mesmo do momento crucial de “sentar a bunda na cadeira e encarar a majestosa página em branco” – momento que todo procrastinador evita ao máximo – eu comecei a ficar muito incomodada com a minha abordagem, e não sabia direito o que era.

É que algo meio institucional pairava sobre meus pensamentos. Eu tinha planejado escrever um texto sobre procrastinação, mas no fundo, eu estava falando sobre produtividade – uma coisa que eu tenho ojeriza. Meu texto – que ainda estava só na minha cabeça – tinha algo que beirava essas frases bunda-mole como “você tem que ser seu próprio chefe”, “administrar bem seu tempo”. Eu estava vendo dali a pouco eu escrever “agregar valor”, “otimizar”, “conteúdo diferenciado”, “pensar fora da caixa”: esses jargões de empresário e marketeiro frustrado que tem que compensar sua miséria poética com passeios no shopping. Justo eu, que larguei emprego fixo pra viver de brisa?

Aí eu lembrei do bom e velho Marx, de Walter Benjamin, e fiquei pensando no tempo, na mais valia, no lucro, no capitalismo… eu também lembrei de um TED do Jason Fried que chama “por que o trabalho não se faz no trabalho”. Isso enquanto eu cuidava da minha horta, e descobria como fazer cava pra manga de camisa… e aí eu já estava procrastinando tudo de novo. Eu não vou esmiuçar todos esses assuntos aqui, nem Marx, nem Benjamin, nem o TED do Fried, e nem a cava da camisa por que não tenho tempo nem espaço pra isso.

Mas basicamente, depois de flanar por essas referências, eu comecei a achar a procrastinação um ato de rebeldia saudável e parte fundamental do meu processo criativo. E o que estava me incomodando é que eu estava planejando – ainda que de forma engraçadinha e inconsciente – escrever um manualzinho pra você conseguir ser super pró ativo e otimizar sua escrita, agregando valor ao seu tempo. E na verdade, eu não acho que você – nem eu, nem ninguém – tenha que ser produtivo, pró ativo, nem agregar porra nenhuma. Eu não acredito que criatividade se produz com hora marcada. Eu não acho que tem coisas que são úteis e inúteis de se ler, de se sentir, de pensar. Eu prefiro mesmo que as pessoas escrevam UM texto maravilhoso, um texto só na vida do que 400 textos bunda-mole que ajude pessoas escreverem mais 400 textos bunda-mole.

Reflexões profundas se fazem em horas inúteis. A imaginação não vem com hora marcada, de segunda a sexta das 8 as 18h. Tudo o que eu li de mais interessante – e tudo que eu ainda vou ler – não foi pra produzir nada, foi numa hora inútil, procrastinando um dever. E não é por que eu não estou sentada na frente do computador com cara de coerência que eu não estou fazendo o pensamento girar. Eu tenho lindas ideias enquanto cozinho, enquanto costuro, enquanto desenho. Meu pensamento tem que decantar. Toda reflexão precisa de tempo jogado fora, improdutivo. Toda criatividade precisa de ócio. Por que o nosso tempo é o da utilidade, da produtividade, da otimização – e a arte tem que garantir seu direito de ser bela e inútil. Não servir pra nada faz um bem danado à poesia.

Eu queria que você soubesse que eu não estou fazendo um discurso hippie-marxista de “fodam-se os prazos e o capital”, e nem acho que todo mundo tem que abandonar seus empregos pra viver de artesanato das coisas que a natureza oferece – até por que alguém precisa comprar nosso artesanato. Eu estou dizendo assim: conheça o seu processo criativo, saiba o que te alimenta, o que te suga, que horas sua cabeça está funcionando bem – pode ser madrugada, pode ser manhãzinha, pode ser quando o sol está se pondo (essa hora que o cinema chama de hora mágica, quando o sol resolve pintar tudo de alaranjado). Use esse horário e esse tempo para sua criatividade, e – se precisar – tenha um emprego naquela hora que te dá sono, que a preguiça bate. Aí, no seu emprego, você usa todos os manuais de produtividade, pra ser bem útil e otimizado, baixa o selfcontrol e resolve tudo. Sim, eu estou dizendo que ninguém vai te achar menor por que você tem um emprego e não trabalha com o que ama, não vive de poesia: o Fernando Pessoa tinha um emprego merda.

Saiba como é seu mecanismo de criar – isso não tem manual mesmo, isso é com você. Eu descobri que penso muito bem fazendo atividades manuais, e isso recontextualiza minha necessidade de costurar, pintar santos de gesso, cozinhar, entrelaçar a sete-léguas do meu quintal, bordar, desenhar, tecer. Eu penso e crio em movimento. Minhas mãos ocupadas, minha cabeça em voo livre. Mas isso sou eu. E você, como faz?

E nesses dias, enquanto parecia que eu não estava escrevendo esse texto, percebi que passei uns anos dando tudo de mim em empregos que me sugavam a criatividade e as melhores coisas que li, fiz, escrevi, foram feitas nas horinhas de descuido. Fugindo pro cinema. Fingindo trabalhar. Afagando meus cachorros. Cozinhando. Entendendo o manual de corte costura. Enquanto eu procrastinava.

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  • http://www./

    Ecoute Tiuscha, je croyais moi aussi qu'elle ne gelait pas, mais j'ai peur que la température de ces derniers jours lui ait été fatale, elle fait une drôle de tête ma sauge…

  • http://www./

    Just cause it’s simple doesn’t mean it’s not super helpful.

  • http://www./

    Thr Failure tribute album was “Fantastic” as well. Yes, believe it or not it is a solid tribute by their fans and bands that were heavily influenced by them. lets face it, its not failure, but you can hear the love the bands on the tribute have for failure. and thank you Failure, for everything you ever recorded. i still go straight to the F’s at the record store, just to see if there is anything there, wishful thinking +1Was this answer helpful?

  • ny points on license

    Oh, elles sont chouettes tes cartes ! Moi aussi quand j’habitais au Canada j’aimais bien envoyer des cartes maison pour les vÅ“ux. Depuis que nous sommes rentrés en France je le fais moins, mais je prendrais beaucoup de plaisir à écrire sur de belles cartes comme les tiennes, c’est sûr !Biz

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