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A sensação é de plenitude. Euforia. Um novo texto que se inicia, enquanto nos deliciamos com o sabor da própria imaginação. Cheios de entusiasmo, com um frágil fio pendendo entre os dedos, uma primeira intuição de que história estamos contando, adentramos no labirinto. Mas eis que, sem convite prévio, (será?) ela surge: a figura inimiga.

Nossas forças diminuem. A sensação de confusão aumenta. Não se sabe mais pra onde ir, tudo o que parecia bom começa a ser corroído. A vida pesa. A sensação de responsabilidade. Os cálculos. O tempo que não temos. O que aconteceu? Não estava tudo indo tão bem?

Pois bem, adentramos na floresta do imaginário, e a imaginação é algo vivo.

É claro que sim, você deve estar pensando.

Mas eu falo de algo tão vivo quanto o que vive fora. Passível de alegria, dor, vida e morte. E perigo. Um lugar não tão seguro como gostaríamos de acreditar ao acordarmos de um pesadelo.

Na palavras de Alan Moore, numa entrevista concedida para a revista Pagan Dawn, percebemos o quanto escritor, que também se dizia um mago, levava a sério as consequências de determinados percursos: “Aborde o seu trabalho com tanta reverência, compaixão, inteligência e precaução quanto você teria ao encontrar com um suposto anjo, deus ou demônio (…) e se você duvida disso, considere todos os artistas, poetas e atores que se suicidaram ou arruinaram suas vidas – aposto que a lista não será curta.”. O simples percorrer das narrativas internas gera na realidade externa uma nova organização, orientando o olhar de acordo a essa paisagem explorada. E então acontece algo realmente mágico: o “mundo interior” e o “mundo exterior” evidenciam sua simbiose, dando a impressão de estarmos realmente vivendo a própria história.

Enquanto está tudo claro, tudo lindo. Mas e quando a personagem se perde nas brumas do perigo?

Acidentes de todo tipo acontecem. Tudo para que nos afastemos da história. Mas há que se ter valentia, porque é justamente enfrentando esses desafios que iremos colher nosso ouro.

Gustavo Martin Garzo, no seu livro Uma Casa de Palavras, nos dá de presente um fio de coragem para atravessar esse vale de sombras: “O reino das bruxas, dos ogros e dos lobos devoradores simboliza, nos contos, algo mais que o primário e caótico mundo do instinto, é também o mundo das riquezas da infância. Nele estão guardados todos os tesouros do desejo, da fome de viver. (…) No bosque está a casa da vovozinha, mas também a obscuridade da noite, a ameaça dos animais, dos perigos do desconhecido. A casa é a parte habitável, a nossa razão, nosso pequeno eu; o bosque, essa desmedida onde habitam os deuses caprichosos e obscuros. O mundo de nossos instintos, de nossos apetites mais primários, de tudo o que somos mas não nos atrevemos a reconhecer, O lobo é parte desse coração desmedido”.

O lobo devora com seu grosseiro apetite insaciável. Há também inimigos menos óbvios, que nos circundam com sua atmosfera enevoada e nos tiram o chão. Há aqueles que nos guiam para caminhos de desvio. E mesmo que a sua história nada tenha de tão fantástica, que seja um simples e realista retrato do mais material cotidiano, essas paisagens atuam, emanando sinais lá de dentro. E para que servem, afinal, esses embates de percurso? Por que surgem inevitavelmente, às vezes sem convite prévio?

Porque são traduções do nosso próprio corpo, do percurso das energias – inclusive as materiais. Não é o alimento que ingerimos triturado e submetido a ácidos para que possa nos fornecer nutrição?

É no conflito que se forja o ouro da nossa jornada. As forças adversas oferecem essa resistência, oferecem essa batalha. Aceitar essa paisagem é abrir mão de um puritanismo rígido que divide o mundo em bem e mal, o que acaba gerando um total temor e desconhecimento desse universo obscuro. Claro, há que se ter cuidado, tais personagens são de fato perigosos. Há que se estar munido de potência, chamar as forças aliadas, retroceder se preciso, levar uma fonte de luz. Cuidar para que o nosso orgulho não subestime a empreita e nos coloque nus frente a uma força aterrorizante. Mas isso não quer dizer fugir. Correr pra trás numa limusine de desculpas é bem diferente de avançar com prudência e humildade, passo a passo, rodeando essas paisagens com astúcia, enfrentando o enigma de cada um desses personagens e percebendo, maravilhados, o tesouro que tais forças guardam: ancorar nossa potência. Ancoragem. Optar pela travessia dos temores, optar pelos tremores, porque onde há medo, há poder. Mas só o colhemos ao colocar o pé na trilha.

Então, não há outra opção, não há linhas retas e seguras para a casa da vovozinha. Não se o que se deseja é uma história. E deixar-se engolir por ela é assustador, mas a única saída é atravessar.

Atravessar.

Ou poderemos seguir com as desculpas de sempre, a falta de tempo, a falta de inspiração, a falta de talento, o excesso de sono, a falta de recursos, que em síntese quer dizer: a falta dessa capinha vermelha, essa pequena chaminha que a personagem leva na cabeça, segundo a linda interpretação de Martín Garzo. Esse entusiasmo pelas delícias da vida, pelo cheiro das flores na floresta escura, coisas tão preciosas que na “vida adulta” tantas vezes nos furtamos por assumirmos o prudente discurso da mãe que nos avisa dos perigos, da crise econômica, da vida séria e responsável, da linha reta e inflexível de algo seguro e sensato.

No fundo, bem no fundo, sabemos que frente ao frescor do espírito essas desculpas caem por terra: só congelamos nosso caminho por medo do lobo mau. O único jeito é tomar emprestada a pequena chama da menina e, munidos de capinha vermelha, adentrarmos a floresta escura em busca da nossa alegria.

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