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Todo mundo já está mais ou menos cansado de saber que um texto é uma obra meio coletiva, né? Afinal, ao escrevermos, referimo-nos, direta ou indiretamente, a todas as nossas influências de vida, àquelas crenças com as quais aprendemos a ser quem somos, a ideias, concepções, estilos e mesmo trechos de frase de outras pessoas. Tudo já foi dito, certo? Inclusive o que estou prestes a dizer. Por isso, quis trazer para nossa coluna de gramática in natura comentários sobre esse estranho fenômeno conhecido como polifonia e, mais especificamente, sobre como a autoridade que construimos ao escrever – em nossos argumentos, descrições ou por meio de personagens – pode ser polifônica.

Polifonia é uma palavra de origem grega que, geralmente, é traduzida como “muitas vozes”. Mikhail Bakhtin foi um dos autores que contribuiu para os estudos que temos sobre o assunto, no que diz respeito a textos, embora também haja aplicações na música. O título desta coluna já fazia referência a uma outra voz, um filme a que vocês devem ter assistido ou de que, pelo menos, devem ter ouvido falar. E se vocês derem outra olhada no primeiro parágrafo que eu escrevi aqui, acho que vão perceber quanta gente eu trouxe para falar comigo (se é que já não perceberam). Escrevi coisas como: “Todo mundo já está cansado de saber”; “ao escrevermos, referimo-nos a todas as nossas crenças” e “Tudo já foi dito, certo?”. Mas, calma lá… Quem é esse “todo mundo”? E quem faz parte desse “nós” a que estou me referindo, assim, tão tranquilamente? E esse “tudo”? Afinal de contas, tudo é muita coisa!

É aí que entra a questão da autoridade. Quando escrevo um texto, quero, em geral, contar uma história, defender um argumento ou explicar alguma coisa. Então, quando as vozes de outras pessoas entram, isso ocorre porque me apóio no que dizem para construir meu texto. Como diria a linguista Ingedore Villaça Koch, polifonia é adesão ao discurso de outra pessoa para dar conta do que quer que eu queira fazer naquele momento. Em meu primeiro parágrafo, queria apresentar o tema polifonia e, ao mesmo tempo, convencer vocês a lerem um texto sobre isso. Então, quando eu digo “Todo mundo já está cansado de saber”, trata-se de uma estratégia muito, muito antiga, que poderia levar alguém a pensar: “sim, sim, é verdade” ou “puxa, eu nem sabia disso, mas se todo mundo já sabe, talvez eu devesse saber também”. Esse argumento me dá autoridade. Uma autoridade baseada em um “todo mundo” que ninguém sabe exatamente quem é. Nem eu, por sinal.

Ingedore tem um exemplo bacana. Ela diz que, em uma conversa, alguém poderia lançar a frase: “Pedro disse que o tempo vai melhorar”. É claro que eu posso dizer isso apenas para relatar a fala de Pedro. Mas também posso trazer a voz dele, para, logo depois, propôr uma ida à praia. “Pedro disse que o tempo vai melhorar. Então, poderemos ir à praia”. Nesse caso, aderi ao que ele disse para ganhar alguma autoridade e, em seguida, fazer minha proposta. A isso, em linguística textual, dá-se o nome de autoridade polifônica. Não é muito diferente da criação daquele “nós” no meu parágrafo inicial, para dar apoio ao que eu queria defender, ou de quando assumimos um “nós” institucional em “Infelizmente, não poderemos publicar seu artigo”. Também já vi casos em que, quando uma história fica muito pesada, em termos emocionais, ou gera vergonha, mudamos de “eu” para “nós”, em busca de uma autoridade que nos ampare discursivamente. Lembro-me de uma pesquisa que fiz em que uma jovem narrava algo de que não se orgulhava muito e, logo, começava a dizer como parentes, amigos, irmãos, todos, concordavam com ela quanto à decisão… Parecia estar tentando se livrar do peso da escolha com suas palavras. Eu mesma já fiz isso inúmeras vezes, compartilhando culpas nos textos que produzia, já que, na vida, parecia-me mais difícil fazê-lo.

Porém, há muitas outras palavras a partir das quais construímos esse compartilhar de autoridade. Nem sempre é preciso mencionar outras pessoas, direta ou indiretamente. Negações e o complicadíssimo “mas” também vêm com seu coro grego particular. Pensem sobre o clássico do preconceito “Ele é pobre, mas é limpinho” ou, em versão 3.0, “Ele é pobre, mas não é sujo”. O “mas” parece indicar a leitura que seria mais comum e, por mais comum, quero dizer a leitura que “todos” fariam: “quem é pobre costuma ser sujo”. O problema é que continuamos sem saber quem são esses “todos”. Já o “não” parece indicar uma expectativa de que fosse _________ (complete com aquilo que está sendo negado). Talvez isso não fique tão claro no exemplo acima, mas pensem em “Ele não é feio”. Uma frase simples. Em que situações eu diria isso? Por que eu poderia querer dizer isso? Porque havia uma certa expectativa de que fosse feio ou porque era importante que ele não fosse feio na situação em que estou. Aí estão, de novo, as misteriosas “vozes” esperando e valorando coisas. Dá para perceber? Eu nego e isso já me traz uma pressuposição de que a afirmativa estava valendo na cabeça de alguém. Se não, não precisaria negar.

Também posso fazer isso com o futuro do pretérito. “O governo estaria propondo um corte radical no orçamento”. Pensem bem sobre essa frase. Não propôs, não está propondo, não vai propôr: estaria propondo… Hummm. É uma espécie de “ouvi dizer”. Devo ter mesmo ouvido vozes. Mas esse tipo de boato, institucionalizado em textos – às vezes, inclusive, em textos jornalísticos que podem se recusar a revelar suas fontes – pode gerar toda uma comoção e nunca sere esclarecido. Termino, embora esse, nem de longe, seja o último recurso, comentando acerca de algo que utilizei neste texto: o “parece que”. Se eu digo algo como “Parece que o custo de vida subirá menos no próximo ano”, exemplo proposto por Ingedore, o que quer dizer esse “parece” – que não me comprometo com o que digo? Que ouvi dizer? Que tenho informações que me levam a crer nisso? Vozes, sigo ouvindo vozes, sigo sem saber de quem, toda uma sinfonia de vozes…

Uma coisa interessante é que eu posso construir autoridade no meu texto de forma mais ditatorial, por assim dizer, referindo-me a pessoas ou instituições que são reconhecidas como conhecedoras de um determinado assunto, que têm prestígio (especialistas, órgãos governamentais, famosos, tudo depende da área). O problema é que, quando recorro a esse tipo de autoridade de prestígio – como os jornais fazem o tempo todo usando o FMI, o Banco Mundial, etc. – fica fácil ver que estou calçando meus argumentos ou me protegendo e, portanto, fica mais fácil, para qualquer um que me leia, contra-argumentar buscando fontes alternativas. Em meio à polifonia argumentativa cotidiana, “tudos”, “todos”, “nós”, “eles”, “mas”, “nãos” e “poderias” não se apresentam como tão autoritários. São quase uma representação dramática, uma ficção necessária para que o discurso possa prosseguir e, portanto, difíceis de rebater ou mesmo de perceber.

Penso que cabe a mim, como escritora, estar consciente desse fenômeno. E agir, não como polícia das vozes que perpassam e perpassarão meu texto, mas como regente do coro de intenções discursivas que ali convivem, à medida que manifesto Presenças de personagens, espaços e teias dramáticas, aumentando a possibilidade de inclusão de vozes periféricas, destituídas ou, quem sabe, mais tímidas, que, sem dúvida, também vivem em mim. E, quem sabe, em nós…


Referências:
KOCH, Ingedore Villaça. Argumentação e linguagem. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1993.

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