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Olhar de assassino

Flertei seu olhar de assassino. Estive a poucos metros de suas mãos de esganador. A imagem de seu semblante era como uma guinada panorâmica em uma cena de guerra. Havia corpos, aos montes, espalhados na grama. Eu disse que o momento é de redenção. Mas ele deu de ombros e refugiou-se como qualquer outra besta-fera. Os assassinos raramente têm o que dizer. E quando dizem são tão incompreendidos quanto os poetas. A principal diferença é que os assassinos ceifam vidas, gratuitamente. Enquanto para o poeta cada lance gratuito de vida é uma oração de perpetuidade.

O radinho

Mamãe onde está nossa memória. Mamãe há uma montanha de lama lá fora. Não sei de nossa casa.  Mamãe meu quarto desapareceu. Não sei onde estão minhas filhas. Minhas filhas miúdas de cabelos coloridos. Não sei onde está meu pônei. Meus jogos minhas bijus, meus vestidos.  Mamãe não sei onde estão nossas fotos.  Minha crisma, a viagem da escola, nós na praia.  Mamãe vi o carro de papai no jornal fincado no chão, só dava pra ver a parte de trás.  Parecia uma lagartixa morta na boca de um bicho enorme e gosmento. Mamãe a terra comeu nossa vida. Não sei onde estão nossos vizinhos, onde estão meus avós, meus tios, não sei de papai. Mamãe fiz algumas amigas aqui no ginásio. A gente brinca de qualquer coisa, temos poucas roupas, brincamos de bonecas imaginárias. Tem muita gente aqui o banheiro está sujo,  as pessoas dormem e cozinham no mesmo espaço. Se amontoam como coisas. Coisas abandonas ao relento. Mamãe eu tenho sentido sua falta.  Falta de nossas coisas divertidas, de ver novela e cantar junto do radinho.  Mamãe…o meu radinho… onde estará?

João Sabão

Canonizaram João-sabão como herói nacional. Puseram seu busto suspenso em arame sem reboque, sem retórica. Glorificaram sua capacidade não fazedora e sua fina tática de embuste.  João-sabão era, desde já, um mártir a ser seguido. Cantadores compunham líricas sobre sua história em frente ao corpo magro de metal. Crianças gazeteiras conduziam turistas em busca de tomar-lhes alguns trocados para ter o que comer. Nos autos do herói, configura-se como tal aquele que revela a fé de render-se pela pátria. João-sabão abriu mão de sua dignidade sem escrúpulos para defender a miséria local. Livrou seu corpo de sabão e encarou como nenhum outro o enigma de ser brasileiro. João-sabão não teve posses, não fez nenhum feito, só tomou no rabo na vida, morou na rua e foi morto sem ninguém saber como. Mesmo assim seu semblante perdura acima do oceano de fatalidades e imoralidades que inundam o cotidiano do reles mortal pátrio.

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