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Minha última experiência com o fenômeno que estou chamando de Fluxo foi há seis meses. Desde então, já escrevi um roteiro de curta-metragem, alguns roteiros de vídeos, alguns artigos e terminei minha tese, mas nada se comparou à experiência que vou compartilhar com vocês. Devo confessar que ela não ocorre sempre. Quando, de fato, acontece, tem o poder de inspirar-me por muito tempo, suspendendo a ação de neuroses de todo tipo. Há apenas um pequeno problema: o tal do Fluxo não respeita relógios!

Sei bem que, em minha primeira coluna, comentei que o escrever compulsivamente podia levar à desistência, a longos períodos de seca ou à apresentação de textos que deixam a desejar, impulsionados por pressão externa. No entanto, para mim, o Fluxo é uma conexão de outra ordem. Não é apenas compulsão pela compulsão. Trata-se de um momento em que me sinto, realmente, um canal para o que quer que esteja querendo se manifestar a partir da obra à qual estou me dedicando. Nesses momentos, a vida fica em suspenso e eu, simplesmente, escrevo sem parar. Não porque preciso ou devo, mas porque sei o que escrever. Não me sinto cansada, durmo e como apenas o necessário, não me deixo levar por nenhum critério do que seria a rotina normal que me ampara. Por mais que o processo de cada escritor seja pessoal e intransferível, vou tentar mapear, aqui, como chego a esse lugar. Ou, pelo menos, como foi dessa vez.

Tudo começou quando me tranquei em um quarto de motel por 36 horas, levando meu laptop, livros inspiradores, revistas, cadernos e canetas. Por quê? Bem, houve um chamado. Um chamado interno. Comecei a sentir que aquilo que eu estava prestes a escrever precisava de um tempo de incubação. Em casa, havia contas a pagar, comida a fazer, interfone, telefone, roupas para lavar e um sem-número de coisas às quais eu poderia me apegar em vez de alimentar minha concentração. Hoje, com uma filha de 17 anos, é bem mais fácil decidir esse tipo de coisa. Quando ela era menor, a solução foi, algumas vezes, contar com família e amigos para poder me afastar.

Durante essas 36 horas, eu não escrevi. Apenas me preparei. Como? Lendo, escrevendo sobre minha vida, organizando minha cabeça – nada remotamente relacionado ao livro que estava finalizando. Estranho? Eu sei! Mais estranha foi a reação da equipe do motel que passou a cobrar os períodos adiantados, achando, no mínimo, peculiar que eu estivesse sozinha ali por tanto tempo e pedindo pouquíssima comida, no melhor estilo “urso polar na caverna”.

Teria ficado mais tempo, não fosse o orçamento apertado. Chegando em casa, passei as 36 horas seguintes escrevendo. De vez em quando, orientava minha filha em relação a coisas que podia comprar para comer. Ou mandava mensagens a entes queridos dizendo que ainda estava viva. Eu mesma não comi muito. Nem dormi muito. Fluxo. A sensação era a de que as palavras estavam chegando e eu não podia perdê-las. Às vezes, parava para reler o que havia escrito. Produzi 40 páginas nesse período e revisei algumas outras cenas do livro. Quando relia, sentia-me mais tomada de um certo tipo de espanto do que de orgulho por ter completado uma tarefa. As soluções que surgiam eram testemunhadas, mais do que confeccionadas, como se não fosse eu quem as estivesse escrevendo. Por outro lado, sabia que aquela história não poderia ter sido escrita por mais ninguém. Encontrava recursos muito particulares em temas, crenças e conflitos íntimos acessados pela experiência à qual me entregava.

Difícil de explicar: não foi a primeira vez e não acredito que tenha sido a última! Mas, depois desse período altamente produtivo, senti que não havia mais nada a ser feito. Quase como se tivesse ouvido um apito interno de fim de jogo. Voltei satisfeita às horas, aos dias, aos tempos das mulheres e homens que me cercam e aos planejamentos mundanos de escrita picotada pelos afazeres de sempre.
De fato, acredito que a escrita disciplinada, encaixada no dia a dia, é uma prática saudável e algo a ser constantemente refinado, uma espécie de equilíbrio em dinâmica que vamos aprendendo a alcançar. Mas não seria possível, para mim, imaginar o escrever sem esses momentos em que a relação de espaço-tempo parece se romper, não por pressão externa, mas por necessidade interna. Sempre acreditei que qualquer atividade humana pode ser tratada como um ofício: um trabalho que nos permite a conexão com algo maior do que nós mesmos, transcendendo sua mecânica. Ouso dizer que, na experiência de Fluxo, estou perto do conceito sugerido pela palavra religião, em seu sentido original de religare, religar. Minha prática se converte em pretexto para uma conexão com algo sagrado.

Escrever e ter uma vida ao mesmo tempo passa, algumas vezes, por esse processo de permitir-se enxergar a vida de outra maneira. Permitir-se uma entrega à preparação, à confiança em vozes que não sabemos exatamente de onde vêm e à organização de toda burocracia cotidiana de forma a abrir espaço para uma criação de outra ordem. E pode ser difícil, se vocês forem parecidos comigo em algum nível, imaginar que vale a pena cancelar compromissos, reorganizar rotinas, correr para dar conta de questões urgentes apenas para abrir esse espaço. Isso sem contar com o fato de que as pessoas a seu redor podem não entender muito bem o que está acontecendo.

Por outro lado, já quase matei experiências de Fluxo simplesmente por acreditar que elas eram a única forma de escrever. Conheço escritores que passam a se comportar como verdadeiras divas, defendendo uma eterna não rotina, isolando-se à espera de um chamado que, talvez acanhado, nunca venha. Se estamos mesmo falando de algo retomamente transcendente e sagrado, penso que é importante aproximar-se dele com suavidade, atitude lúdica e carinho, sem querer aprisioná-lo. Se estamos falando de magia, ela, provavelmente, não vai comparecer batendo ponto porque você tem uma data de entrega a cumprir, porque precisa de dinheiro ou porque se isolou completamente do mesmo mundo que alimenta todas as nossas experiências. Acontece quando não há tensão.

Assim como no amor, acontece quando já nem queremos mais. E me parece que nossa tarefa é a de mantermos a rotina disciplinada de contato com a prática até o dia em que ouvirmos o tal chamado. Sentindo que algo precisa ser escrito, basta com que confiemos o suficiente para cavarmos nossa saída do dia a dia, sabendo que não vai ser para sempre.

Mesmo que pareça que foi.

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