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Somos cordas paralelas que, por algum milagre indecifrável, resolveram se tocar. Toque é encontro e também é som. Por que tocar? Por que fazer vibrar uma corda se, no instante seguinte, o som cessará? Porque tudo é passageiro.

Tudo é passageiro; logo, eu viajo. A viagem é um presente. A vida é uma sucessão ininterrupta de presentes. O presente vibra, ressoa, toca. Qual sentido há em não vibrar com o presente? Vibrar é comemorar. Vibro a sua existência finita em minha existência finita.

Infinito é um dos deuses mais lindos. Talvez, por ser perfeito. Talvez, com todo o tempo do mundo, seja possível chegar à perfeição.  Mas o perfeito e o infinito são sonhos que todos sonhamos, são o horizonte que, por mais que seja buscado, está sempre à mesma distancia.

E, ainda assim, navegamos. Compomos uma musica de onda em onda, de silencio em som, de som em silêncio. A onda é o impulso, o som é o encontro, o silêncio, o desencontro. A musica é a história.

Com som, nos encontramos. Com som, você me toca. Gosto do jeito que você toca. Você me pega pela cintura, se debruça sobre o meu corpo e eu te deixo com um vergão no peito. Você abraça tudo, envolve tampo e fundo, quase me engole. Ou é engolido por mim. Seus desejos deslizam por todo o braço, deslizam da pestana a boca. Respondo com a boca aberta ressoando o que você provoca. Aperta combinações de casas, dedilha com precisão. Seu toque me faz gemer. Minha mão mantém tudo afinado. Você penetra fundo. Fechamos os olhos.

Ouço seu coração, sua respiração, seu ritmo. O som que vibra no meu corpo vem de um lugar longínquo no espaço-tempo, alguém tocou para alguém, que tocou para alguém e foi se transformando, você guardou na sua cabeça, deu seu tom e trouxe ao mundo para mim.

Ouvir algo ao vivo é como assistir a um parto com muito carinho gestado. Nasce ali a experiência singular, única, um presente no presente. A musica só transcorre no presente. Escorre e me leva para onde quiser. Corre um rio de tristezas, alegrias, tensões e tesões. De alguma forma, arranca algo de mim, me perco, eu não consigo evitar, desço corredeira abaixo, me arremesso da cachoeira, mergulho! Imersa, tremo inteira de prazer e de espanto.

Agora, sou mais sua do que antes, encharcada da cabeça aos pés. Você fez meu corpo de violão, fez musica em meu corpo. Eu gosto de como cada músico impregna sua musica de si mesmo. O si mesmo me interessa mais do que as notas. Principalmente, quando a pessoa é difícil de acessar.

Mas você não é inacessível, é sutil. É imensidão com uma porta muito pequena. Eu me sinto desafiada a me afinar e a lidar com a incerteza, com a impermanência. Sempre acho que você passou, mas, depois de um ano, nos reencontramos. Ano após ano. Talvez, você nunca tenha ido, apenas a nossa música seja composta por longos silêncios.

A minha musica é composta de vários instrumentos. Isso não o torna menos importante. Eu me pergunto que musica é essa e como você participa dela. Eu, que sigo um caminho tão diferente do seu e que comecei tantos anos antes. Intensa, grossa, agressiva e também doce, sensível e espontânea. Perto de você não sei se devo ser assim.

A dor de outra pessoa me deu a resposta. Sim é isso que eu devo ser. Cuidado! Eu sou louca, grudenta e intensa. Quero comer seu corpo e sua alma. Eu quero tudo e quero agora. O que é sabotador, pois não existe musica sem silêncios, ou relacionamento sem distâncias ou pausas. Eu tenho 30 anos e ainda não sei cantar. Todos os meus sons gritam ao mesmo tempo. Explodem, mas não há explosão que dure. No entanto, seus efeitos ecoam por muito tempo, um eco alimentando o outro, se desvanecendo aos poucos, se espaçando, se esticando, sumindo, sumindo, sumindo… silêncio.

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