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Amo a voz que fala a minha língua

Michel Leris

Quando pequena, uns oito anos mais ou menos, curtia uma brincadeira que consistia em esvaziar as palavras do seu conteúdo. Repetia meu nome à exaustão até que nada restasse, apenas o som. As palavras iam se tornando incompreensíveis pela repetição excessiva e era surpreendente misturá-las a outras que eu inventava na hora. Bem mais tarde soube que esta fala se chama Glossolalia, a arte de proferir palavras que nada significam em uma sucessão que não obedece nenhuma sintaxe. No meu caso, salvo erro de auto-análise, era um ato lúdico. Mas é comum em pacientes psiquiátricos, em transes mágico-religiosos ou propositalmente provocada por artistas performáticos. À medida que minha destreza com a língua portuguesa crescia, devorava placas de rua, outdoors, razões sociais, mas sempre lidas ao contrário. Primeiro só invertendo as sílabas, depois a palavra inteira. Até hoje, quando me pego distante de mim e calha de estar próxima à uma janela de carro ou ônibus em movimento, acontece a mesma coisa. A língua do Oirartnoc.

Talvez minhas práticas estranhas tenham uma fonte facilmente detectável: minha ascendência paterna é russa-alemã. Meu pai raramente falava em russo mas quando o fazia era em um jorro prolixo, verborrágico. Quando terminava a lalação, ele sempre ria. Não demorou muito para que eu entendesse que de russo o ator não conhecia palavra e que brincar com o som da língua era só uma diversão. É possível que daí venha um pouco da minha paixão pela poesia.

Segundo Paul Valéry, a poesia é a permanente hesitação entre o som e o sentido. Para Décio Pignatari, a poesia estaria mais próxima da música e das artes plásticas do que da própria literatura. Me parece lógico que a experiência com os sons primários da língua facilite a vida de um poeta. E até mesmo, ouso arriscar, de qualquer escritor.

É curioso como um texto sem um sentido facilmente detectável tem o poder de perturbar certas pessoas. Sempre que posto um poema na rede social que priorize radicalmente a melopéia (a música das palavras – aqui, em detrimento do seu significado), uma determinada moça vem e me pergunta: “O que quer dizer? É bonito, mas não entendi nada”. E não compreender a incomoda. Diz Lacan que a insistência pelo sentido é uma recusa à castração… Faz sentido. O ininteligível inibe.

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A Glossolalia se caracteriza pela ausência de semântica. Sem sintaxe, sem morfologia. O que nos resta é um conjunto sonoro em ritmo cadenciado, uma não-língua. O que percebo, no entanto, é que o seu exercício pode ser de extrema valia quando buscamos a nossa Voz, a nossa única e intransferível “voz literária”. Se a poesia hoje não se pauta por métricas estritas ou rimas, se já não se satisfaz com o verso branco, se grita por novas formas e estruturas, não seria interessante o exercício de escrever palavras ou períodos onde se percebesse (ou não) um determinado compasso, como fizeram os dadaístas, Herberto Helder e Artaud? O inventário de novas palavras, o som associado à sensação surgindo como deuses momentâneos? E que o significado viesse, quem sabe, através de murmúrios, lapsos, suspiros, hesitações marcadas no texto que então revelariam o que realmente queremos dizer em um processo de puro paradoxo? A falta de sentido dos tiques sonoros, tão cheios de desejo, tão repletos de significados. As tatuagens vocais, a cucamonga do tatibitati.

Não há escrita original que não dialogue em algum grau com a língua primitiva, a nossa língua natural, a língua antes do Pai. Descobrir sua fala íntima, explorar o ritmo, brincar de glossomania, desconstruir, traz ao escritor uma cadência ímpar na hora em que ele coloca, finalmente, suas palavras sobre o papel. E revela ao leitor algo que ele mesmo não consegue detectar, mas que transmite uma informação que está muito além das palavras.

p.s.: Luigi Serafini, designer gráfico e arquiteto, criou, na década de 70, uma enciclopédia que ilustra um mundo perdido, um universo paralelo. Escrita em linguagem desconhecida, o “Codex Saraphinianus” é considerado “o livro mais estranho do mundo”. A ilustração que acompanha esse texto é de sua autoria.

Comentários
  • Mena

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