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Se você é o que o chamam de nativo digital, provavelmente publica, várias vezes por dia, textos em redes sociais, checa e-mails, tem um blog, um site ou uma página no Face para cada projeto novo que acredita que merece divulgação e compartilha conteúdos semi-lidos a partir de suas indicações temáticas (dá uma olhada nos títulos, nas fotos, nas hashtags, nas palavras-chave e manda ver). Além disso, interage com os textos publicados e compartilhados por outras pessoas, co-construindo um gigantesco livro virtual de sua passagem por esta terrinha sobre o qual não tem muito controle. Imagine todas as ações textuais de apenas uma semana de trabalho virtual organizadas em uma publicação linear, encadernada, minimamente revisada e coerente, e, talvez, você consiga ver uma romance bastante interessante de sua vida. Em dois ou três volumes. Com apêndices e notas de rodapé.

Mas se você é, como eu, um imigrante digital – alguém que cresceu em uma era pré-Internet – pode estar tentando entender como se posicionar diante de toda essa nova organização espaço-temporal da produção de conteúdo, em que existe um público macarrão instântaneo potencial para absolutamente qualquer coisa que você publique virtualmente. Pronto em menos de 3 minutos. Esse mundo em que escritos como “curtindo o findi” podem gerar ansiedade caso não sejam curtidos em menos de 3 minutos. Talvez, você já esteja agindo como um nativo, talvez não, mas sua relação com o território não tem como ser a mesma. Pelo menos, eu acho que não.

Uma das coisas mais interessantes, a meu ver, nesse admirável mundo novo, é que se trata de um mundo de escritores. Estou acostumada a ouvir professores de diferentes áreas dizendo coisas como “os jovens não escrevem mais” ou “as pessoas não sabem mais escrever” e, no entanto, nunca se escreveu tanto. Se suspendermos, por um instante, os julgamentos acerca do que seja a boa ou má escrita, percebemos que quase todas as nossas formas de interação, hoje, passam pela escrita. E se ampliarmos o conceito de texto para além do escrito, incluindo imagens e áudios, tornamo-nos, todos, roteiristas em eterno trabalho. Parece-me que a construção mesma de quem somos, socialmente, depende do trabalho de edição desses conteúdos que circulam por aí: algo que pode ser bastante difícil de entender para que imigrou no processo.

Nesse panorama, há aqueles que vão se preocupar em criar hierarquias. Diferenciar escritores – aqueles que usam a escrita como forma de realizar qualquer tipo de tarefa – de Escritores – os profissionais que estudam e se especializam em determinados gêneros artísticos fazendo deles o seu trabalho. Há, de fato, uma razão para essa preocupação, já que é preciso defender os direitos trabalhistas de nossa classe, em um cenário que parece dedicado a suprimi-los. No entanto, neste humilde texto, estou mais interessada no impacto que essa tecnologia digital pode ter nessa nossa tarefa de escrever, como profissionais da escrita, e ter uma vida ao mesmo tempo. A tecnologia ajuda? Atrapalha? O que podemos fazer a partir dela? Como não existem respostas prontas e únicas, vou compartilhar um caso, como de costume.

Meu primeiro livro publicado foi o romance By the way – havia um inglês no meio do caminho, em 2013. Foi também a primeira experiência que tive com como a internet poderia influenciar minha escrita. Antes disso, eu havia publicado um conto em uma coletânea de ficção científica (X – a última incógnita, em Solarium, vol. II, Editora Multifoco, 2009) e alguns textos acadêmicos. By the Way começou como um blog, criado em 2007, em que eu contava minhas experiências em sala de aula, como professora de língua inglesa. Na época, eu estava trabalhando em três outros livros e não tinha a intenção de transformar aquelas postagens, pensadas para serem inícios de conversa com outros professores, em uma obra linear. A motivação para escrever o blog também surgiu de uma oportunidade de interação on-line: o Portal da Educação Pública havia lançado um fórum chamado A Voz do Professor e uma colega da escola em que eu trabalhava sugeriu que eu escrevesse alguma coisa por lá. Como a contribuição fez sucesso, decidi ampliá-la.

Nos textos do blog, fui revisitando toda a minha trajetória de estudante e educadora, despretensiosamente. Sempre em entendi como escritora de ficção, em geral, e de ficção científica, em particular, mas os feedbacks que fui recebendo me encorajaram a seguir, ainda sem imaginar que aquele trabalho viria a se tornar meu primeiro livro. Tornei-me professora universitária, o blog ficou abandonado por quase cinco anos, mas, volta e meia, recorria às histórias contadas lá em minhas aulas de formação de professores. Foi quando a ficha caiu: se eu organizasse essas postagens e incluisse algumas de minhas experiências posteriores, teria um livro.

E foi o que fiz. Sem a resposta imediata de meu primeiro público, com seus comentários e indicações de interesse que foram, de muitas maneiras, co-editando o livro, ele não existiria. Na verdade, eu nem teria me enxergado como autora desse tipo de obra. Mas a influência 2.0 não terminou aí. Para a publicação, trabalhei com uma equipe de três pessoas, incluindo uma produtora que organizou o lançamento e as vendas on-line, criou meu site de autora e uma página no Face para divulgação. De repente, eu estava imersa em um mundo de criação de conteúdo, altamente exigente, para alimentar todas essas plataformas. O livro estava escrito – e eu já estava partindo para outras aventuras criativas – mas continuava me exigindo constantes (re)apresentações de conteúdo que precisavam ser dinâmicas, interessantes e diárias.

Logo, organizei uma agenda em que, para dar conta das postagens que precisava fornecer, sentava-me uma vez por mês e produzia tudo o que iria ao ar naquele período: um trabalho que levava algo entre cinco e oito horas. Era uma forma de preservar um espaço de escrita para novos projetos. Essa organização da cabeça em diferentes personas foi bastante trabalhosa e dependeu de muita disciplina. Havia a escritora do cotidiano, que responde a seus amigos nas redes e interage espontaneamente; a escritora-divulgadora, que alimenta a obra finalizada sendo vendida e a “escritora puramente criativa”, por falta de um nome melhor. Esta última era aquela que, em meio a toda confusão, precisava desligar-se de qualquer imagem de edição ou público para, simplesmente, desencavar, com cuidado e delicadeza, a nova ideia que estava desenvolvendo.

Aprendi bastante com o processo. É claro que sempre podemos nos recusar a participar dele, mas as vantagens de descobrir públicos, compartilhar e co-laborar na escrita parecem ser infinitas. O que fica, para mim, como lição é a necessidade de preservar espaços para os diferentes papeis que exerço como escritora, aprendendo a organizar os tempos em que atuam no cotidiano. Como não me tornar refém dos comentários, burocrata do marketing ou isolada em minha criação a ponto de que uma ou outra persona se ressinta com a outra? Eis o desafio.

E, nessa esquizofrenia de escritas, sigo produzindo…

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