Capítulo 1

Primeiro ato

Imagine uma pessoa que tenha sido avisada de um programa interessante que acontecerá naquele dia às sete e meia da noite. Agora suponha que se trate de uma mãe que não tenha conseguido almoçar com a família e que, para chegar a tempo, tenha que ir direto, sem aquela passadinha clássica para ver se está tudo em ordem no lar. Acrescente o compromisso anteriormente assumido de ir buscar o filho numa festinha. Para piorar, considere que a filha vai viajar justamente no dia seguinte. “E se por acaso a menina precisar de alguma coisa?” Por último, introduza uns toques de marido provedor de mais de metade do orçamento, avaliando a si próprio como importante demais para assumir tarefas da infeliz, cuja hora de trabalho vale menos.

Essa pessoa sou eu. Logo de manhã, sou avisada da palestra e resisto a pedir para a outra metade do casal desempenhar minha função de motorista, postergando o telefonema. Final da tarde, saída do trabalho, não consigo vencer a inércia: “Melhor ir para casa, estou fora desde cedo”. Não paro para pensar se é cansaço físico o que me impele a voltar ou algum outro tipo de questão mental. Seja qual for a opção correta, o conforto do endereço e da companhia certos costuma ter efeitos reparadores. Saber o que se vai encontrar de certa maneira já significa um descanso.

Segundo ato

Ao entrar em casa, vou logo avisando:

– Cheguei!

– …

– Tem alguém em casa?

– …

Sem resposta alguma, abro a porta do quarto da filha – felizmente não está trancada – e vejo que está pendurada no telefone, entretida em uma de suas longas conversas de pré-adolescente. Mal fala comigo. “Com licença, mãe”, é a única esmola verbal que recebo, acompanhada de um sinal com as mãos que quer dizer “Me deixe em paz” ou “não vê que estou ocupada?”

Fico na “minha”, como convém a uma mãe “moderna”, vou para a sala – território neutro – e procuro refúgio na leitura do jornal. Dali a pouco, a jovem vem me dar o recado do irmão: “Arranjou outra carona. Você está dispensada”. E volta para seus aposentos.

Ainda dou um movimento em falso e bato na porta:

– Tudo bem com você?

– Ahã.

– Precisa de alguma coisa?

– Hm hm.

Para que tanto cuidado com a privacidade? Para fazer as malas, se trocar, ouvir música ou falar ao telefone? Ou simplesmente para delimitar espaço?

Entre inquieta e irritada, percebo meu erro de cálculo em optar pela alternativa incorreta de não fazer meu programa. A irritação vai aumentando e fica mais difícil de controlar. Quando o relógio passa das dez horas e já tomei um lanche sozinha, virei o jornal de cima para baixo, nem sei quantas vezes chequei minha correspondência virtual, recebo um telefonema a cobrar do filhão. Meio sem graça, me pede para resgatá-lo.

– Mãe, você pode vir me buscar?

– O que aconteceu?

– A mãe que vinha buscar a gente deu cano.

– Entendi.

– Você quebra essa?

– Claro! – para alguma coisa ainda sirvo, eu penso. Mas não falo.

Obediente e disponível, tiro o carro da garagem para fazer o carreto. Muito embora o emprego de chofer não seja minha maior ambição na vida.

Do pai das crianças, não recebo notícia alguma até que lá pelas tantas, ouço o carro entrando na garagem, pouco depois da hora em que eu, espumando de raiva, já tinha me recolhido.

– Oi, querida.

– …

– Você já está dormindo?

– … (Finjo que estou. Não quero mais falar com ninguém hoje. Raiva de tudo, raiva de todos, raiva de mim mesma. Porém, como sempre, em estado de ebulição, sempre fico quieta.)

Conclusão

Não sou ansiosamente aguardada por ninguém. Se a maldita fantasia de mãe imprescindível não tivesse prejudicado o andar da minha carruagem, daria com folga para eu ter me divertido e ainda voltado para casa antes do marido e do filho, bem antes de a filha terminar seu período diário de reflexão com as amigas.

***

Como fui me meter nessa enrascada de conferir tanta importância a um cargo com prazo determinado de validade? Muito simples. Resolvendo ter filhos e não resistindo à ilusão de se sentir indispensável. Adquirir tamanha importância, como não ficar viciada nessa experiência? Porque no começo, bem no comecinho, a mãe é realmente tão necessária que a vacância do cargo coloca em risco a preservação da espécie. Claro que, com o passar do tempo, as coisas mudam. E como mudam!… Acontece de forma gradativa: a relevância do cargo tende a diminuir conforme a idade da cria aumenta. Mas e a dificuldade para alguém, cuja presença foi vital, se acostumar a ser supérflua, se não indesejável, onde fica? Nessas horas não adianta nada vir com aquela conversa mole – argh! – de que esse é o natural curso da vida, que filhos são para o mundo etc. etc. etc. Duvideodó que alguma mãe leve essa diminuição de valor numa boa.

 ***

Capítulo 2

 Uma das maneiras mais usuais de se produzir filhos é fazer sexo. Porém, desde que o ato sexual e a procriação puderam ser separados (Viva!…), ninguém com um mínimo de controle da própria vida fica grávida por acaso. Muito menos uma pessoa obsessiva a ponto de marcar consulta no médico antes da primeira relação sexual, para se precaver contra gravidez indesejada. Essa sou eu. Para esse tipo de gente, a concepção envolve decisão prévia. E como quem pensa não casa, muito menos tem filhos, fiquei casada sete anos, pensando.

Até que um dia decido engravidar. Por causa de um sonho. Como assim, um sonho? Que bobagem! Alguém supostamente adulto resolve assunto assim sério de forma tão pouco racional? Sim, os fatos comprovam que sim. Pela primeira vez na minha vida, um suposto além interferiu em uma decisão minha. Confesso que ficou mais fácil assim. A dificuldade de tomar decisões é um dos meus pontos mais fracos.

Foi assim. Numa noite igual a qualquer outra, sonho que vou morrer. Até aí nada de mais. Quem já não passou por isso e no dia seguinte, acordou angustiado? Não fosse o seguinte detalhe: o mal estar, mais do que ligado à morte propriamente dita, tinha a ver com a sensação de finitude.

“Quer dizer que eu vou acabar?” é a pergunta que me aflige. “E… não vai sobrar nada?”

Por coincidência – se é que isso existe – o livro que estava na minha cabeceira é O homem e seus símbolos, de Carl Gustav Jung. Dentre as diversas interpretações possíveis, sonhar com queda, por exemplo, seria uma espécie de advertência para alguém voando alto demais. A associação com o fato de eu não ter filhos é imediata. Entrando nessa viagem, fantasio que a sensação ruim passará se os tiver ou pelo menos tentar tê-los.

Resultado: deixo de evitá-los.

Consequência: emprenho.

Alguém pode perguntar:

– Mas você nunca tinha conversado sobre isso com quem de direito?

E eu responderia:

– Talvez soubéssemos que um dia teríamos. Um dia… Mas ninguém tinha tido a coragem de estabelecer quando. Muito menos de discutir o assunto. Como se pode observar, arrojo não é a característica principal do casal.

***

Capítulo 3

Da gravidez, uma das melhores partes é a fome. Depois de passada a fase do enjôo, obviamente. Tão grande é o apetite que eu, desde sempre apavorada com peso, participo de um grupo de pessoas em dieta.

Grávida ou não, faço qualquer coisa para não evitar que meus piores pesadelos – pelo menos os controláveis – se transformem em realidade. Já que nada há a fazer com o que está fora do meu alcance – a saúde do bebê e o parto em si – razoável concentrar energias na luta contra moinhos de vento concretos. No caso, o aspecto físico.

Que eu perca a forma dentro do programado para alguém com um nenê na barriga, tudo bem. Mas me ver metamorfoseada em algo que lembre a forma esférica – e role em vez de andar – é impensável. Nariz de batata, pés inchados e redondos, caminhar com ginga de pata? Jamais!… Em tempo algum!

Então, por que não participar das reuniões dos assim chamados Controladores do Peso? Qualquer sacrifício vale a pena para conseguir me olhar no espelho até o final do fatídico nono mês…

Bem, e o que difere essa proposta das outras? Espelhada em programas americanos de ajuda tipo alcoólatras anônimos e similares, espera-se a formação de algum tipo de apoio advindo do grupo. Donde se torna obrigatória a presença semanal a uma reunião conjunta de todos os participantes, onde além de uma pequena introdução teórica, em que uma orientadora fornece dicas e receitas, é aberto um espaço para testemunhos.

Eu queria dividir a minha história com vocês. Sempre fui gorda: tenho corpo e alma de gorda. Agora com problemas de pressão e diabetes, não posso fazer qualquer dieta. “Você é um caso perdido, disse meu médico.” Só de raiva vim conhecer o programa. No primeiro dia, recebi as tabelinhas para anotar o que como e me aconselharam a andar. Não que o médico já não tivesse dito, mas aqui me deu vontade de tentar. Como a orientadora é ex-gorda, senti que ela entendeu meu problema. Vir aqui às quartas funciona porque ajuda a me controlar no domingo. Penso assim: “Na quarta vou ter que me pesar… Então é melhor me comportar.” Também faço um diário de emoções. Estou começando a ter consciência do que me leva a perder o controle e descontar na comida. Outro detalhe tem me ajudado: passei a cozinhar e a pesquisar receitas saudáveis. Funciona como um substituto para comer. Pelo menos estou perto do que eu mais gosto. Já tirei 15 k, nesta semana foram 3 kg.

Salva de palmas. Quem perde mais peso durante a semana tem direito. E quem atinge sua meta – e nela permanece por oito semanas – tem direito a um chaveiro, ao título de sócio permanente e reuniões franqueadas em todo o mundo. Desde que cumpra o compromisso de não se afastar mais de dois quilos de seu peso ideal.

Entre patéticas e improváveis, as falas variam.

Minha patroa paga para eu estar aqui. Vim para aprender a cozinhar sem óleo. Ela diz que eu engordo o povo. São todos gordos, não param de comer. Tenho culpa se eles não param de comer? Ela diz que é a minha cozinha. Nunca vi cozinhar sem gordura. Mas se ela disse que é para eu aprender, eu vim.

Não pode faltar a arrependida.

Hoje estou muito chateada; engordei em vez de emagrecer. E discordo da colega sobre cozinhar. Fiz um bolo de cenoura com cobertura de chocolate para as crianças e acabei não resistindo. Se arrependimento matasse, eu teria morrido. Não consigo me controlar. Para mim, o pior problema de fazer dieta é a memória do sabor das comidas. Quando me lembro do gosto de chocolate, me dá uma vontade incontrolável de ter a mesma sensação de novo. Queria sofrer de amnésia. Se pelo menos eu esquecesse como é bom, quem sabe eu parasse de comer tudo quanto é chocolate para sentir de novo o mesmo sabor na boca. Já cheguei a pensar que sou viciada.

Contadinhas na minha caderneta de associada, constam vinte reuniões até o final da gravidez. Até concordo que tê-las frequentado colaborou para que eu me controlasse durante esse período. Meu objetivo inicial foi alcançado.

Ufa! Um a zero para mim. Se já seria difícil ser mãe, pior se fosse uma descontente com a própria embalagem.

O problema mesmo acontece depois: o retorno do reprimido. Batalha ganha, mas não a guerra. Assim que volto da maternidade, coloco tudo a perder durante os meses de licença, em casa. Descontrole total. Tudo sob a desculpa complacente de que amamentar dificulta o emagrecimento. Até hoje batalho contra os ataques de compulsividade. Mas essa é uma história que fica para outra vez.

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