Ler ficção é um exercício de viver muitas vidas. Por algum tempo, podemos ver pelos olhos de outro alguém. Existe um curioso equilíbrio nisso que é preciso ter em mente quando escrevemos. Por um lado, o que encanta é ser alguém que você não é. Por outro, é poder ver alguém com quem nos identificamos vivendo uma vida que não é a nossa. O conceito de pluralidade que deveria estar na natureza da ficção mora nesse espaço: o leitor quer um personagem com quem ele possa desenvolver uma relação de empatia, quer poder andar nos sapatos daquela criação ficcional para ter acesso a novas e diversas experiências.

Quando entrei em contato com os dados da pesquisa de Regina Dalcastagné, que deram origem ao livro Literatura Contemporânea – Um Território Contestado, eu comecei a me questionar sobre um aspecto pouco explorado daquela velha ideia de que “o brasileiro lê pouco”. Nessa análise, a pesquisadora buscou observar os romances brasileiros publicados por grandes editoras entre 1990 e 2004. O resultado mostrou uma discrepância absurda entre quem eram os escritores e os seus personagens e a realidade do país. Dos 258 romances analisados, mais de 70% foi escritos por homens. E mais de 90%, brancos. Embora isso em si já seja um dado complicado, o mais assustador para mim foi perceber sobre quem esses autores estavam dispostos a escrever.

Quem eram os personagens desses romances? Menos de 40% dos personagens importantes nessas narrativas eram mulheres. Em 15% dos livros, não havia nenhuma personagem feminina. Menos de 4% de homossexuais e menos de 3% de bissexuais. Em quase 57% dos romances, não existem personagens importantes que não sejam brancos. Perto de 85% dos protagonistas são brancos. E mesmo entre os coadjuvantes importantes, menos de 9% são negros.

pluralidade

Literatura Brasileira Contemporânea – um território contestado

De repente, o quadro que descrevia quem eram os personagens do romances da literatura brasileira contemporânea era bem visível: homens brancos, heterossexuais, de meia idade, moradores de grandes metrópoles.

Pluralidade e Verossimilhança

Vamos pensar em uma questão básica que discutimos a exaustão na ficção: verossimilhança. Como uma história que se passa em um país onde metade da população é negra ter mais da metade dos romances, que se dizem realistas, sem um único personagem dessas etnias?

E aí vem a grande pergunta: então, o brasileiro não lê. Mas se a maior parte das histórias se concentra em falar de personagens que são sempre o mesmo personagem no final, o cara branco hétero de meia idade, porque eu vou querer ler essas histórias? Onde está a pluralidade que a ficção promete? Como leitor, quero viver muitas vidas, mas só me oferecem uma opção.

Não vou discutir as questões éticas e sociais pertinentes ao tema. Ao menos não nesta coluna de hoje. Hoje, meu foco vai ser mais prático e pragmático.

O que os leitores buscam na ficção é a pluralidade de experiências. Como vou conquistar meu leitor se ele não puder se enxergar naquilo que eu escrevo e se vou oferecer variações de uma mesma experiência ad nauseam?

Hollywood não ficou boazinha e fofa de uma hora para a outra. O motivo para que haja mais protagonistas femininas nos blockbusters recentes é simples: isso vende, porque as mulheres estão conquistando espaço na sociedade sem parar no último século, e nossas experiências ficcionais precisam acompanhar isso ou perdem público. No mercado dos games, mais de metade dos consumidores são mulheres, e devagar (mais devagar do que eu gostaria) isso tem mudado a forma como as questões de gênero são colocadas nos jogos. As agências de publicidade começaram a utilizar imagens de casais homossexuais porque eles são parte considerável do público consumidor.

Então, como escritores, é importante a gente pensar: porque continuamos tratando nosso público como se fosse composto só de homens brancos hétero, quando nosso público é muito mais amplo do que isso? E mesmo essa parcela do público, não é para viver experiências diferentes que ele se volta para a literatura?

Para que as pessoas leiam mais, é preciso encontrar naquilo que está escrito pontos de identificação.   Aquele momento mágico em que algo dá um clique dentro de você, e uma voz interna diz que sim, você está presente naquele personagem.

Nós crescemos, na maioria das vezes, tendo acesso apenas a esses heróis de base europeia. Fomos treinados desde a infância a enxergar como natural uma determinada forma de contar histórias e de enxergar o mundo. Quando começamos a imaginar uma história, nossa mente busca como recurso todo o arsenal de histórias e vivências narrativas a que fomos expostos na vida. Não é por maldade, não é de propósito. É uma questão da estrutura social e nós somos reflexos disso, ainda mais quando não estamos atentos.

Muitas vezes é preciso um esforço consciente para romper com isso. Quando eu decidi pela primeira vez tentar escrever um romance, terminei com uma história onde os personagens principais  eram descritos tendo uma beleza tradicional europeia e mesmo tendo personagens femininas interessantes, elas eram uma minoria. Aquilo me deixou mortificada. Primeiro, que eu só tivesse percebido isso com a primeira escrita terminada. Segundo, que eu me achava super desconstruída nos meus preconceitos, eu que escrevo contos onde fujo desse padrão, tivesse caído igual uma pata nessas armadilhas tão velhas.

Foi um choque que me fez buscar não só repensar o texto que eu tinha escrito mas também aquilo que eu consumia como leitora e que influenciava minha escrita. Procurei mais autoras e menos autores. Procurei livros que fugiam do eixo anglófono EUA – Reino Unido. Comecei a buscar autores e autoras que fugiam dos tropos mais uniformes onde eu estava na minha zona de conforto como leitora, para que eu tivesse na mente outras referências, mais variadas.

E meu texto passou uma ampliação de significado. Ficou mais verossímil. Saiu do óbvio, porque comecei a pensar meus protagonistas de forma muito mais “fora da caixinha”. As tramas ganharam aspectos e ideias, e os cenários passaram a ser mais interessantes.

Então, pense bem. Você quer conquistar seus leitores. E dar para eles a possibilidade de viverem experiências mais amplas e diferentes daquilo que estão cansados de ver repetido é uma boa forma de conseguir isso. Observe seu texto. Observe o que lê. E pense: o que posso oferecer para quem me lê?

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Referências: pluralidade

Dalgastagné, Regina. Literatura brasileira contemporânea – um território conquistado. Ed. Horizonte.

Sobre o assunto, consulte também artigo da autora na revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da UnB, disponível em http://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/2123/1687.

Comentários
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