Imagine
Medelín, Cidade do Cabo, Moscou, Pequim, Diarbaquir, Cairo, Tunes, Nova Iorque, Paris, Belmopan, San Salvador, Kingston, Hermosillo, La Paz, São Paulo, Rio de Janeiro, João Pessoa e Recife. Ainda me lembro como se fosse hoje de manhã, eu, doutora Shiromi e nossa equipe seguindo por mais 24 horas as imagens e dados online reportados em tempo real dos presídios de segurança máxima nos quatro cantos do mundo.

Desde que a aplicação começara, dormíamos em turnos nas camas de campanha da sala de descanso do laboratório para acompanhar os resultados das primeiras 72 horas de tratamento-teste em 850 detentos de alta periculosidade em 23 países, a maioria entre os mais violentos do mundo. Depois de mais de seis anos de trabalho, estávamos ansiosos para comprovar os resultados na prática, em humanos voluntários. A barganha do contrato incluía desde a redução da pena à sua revogação. Aparentemente tudo corria bem, nenhum incidente fora reportado. As mudanças que observávamos no comportamento dos criminosos era absolutamente fantástica.

– Veja, doutor Lafite, – Junia me chamou – este é Joaquín Cruz, em Hermosillo, no México, está condenado à prisão perpétua por 27 homicídios qualificados. Estava em isolamento há seis meses por comportamento violento.

– Dá um F9.

A ficha do detento ocupou a tela. Entrada em 18/04/25. No dia seguinte, atacou o bedel do refeitório. Nas fotos, mal se definia o rosto inchado da vítima, coberto de sangue e sem a orelha direita, arrancada à mão. SOLITÁRIA.

15/07/26 – estrangulou um visitante de uma ONG em prol dos direitos humanos. Nas fotos, o corpo de um garoto magro, não mais de 25 anos, com o pescoço roxo por constrição. ISOLAMENTO PERMANENTE.

– Foi reintegrado à área de convívio depois do segundo dia com Abelin e esta é a primeira vez que vai ao pátio. Acaba de entrar no jogo.

– Qual foi a dose?

– A máxima. Ele pesa cento e doze quilos, índice de gordura 12%, o sujeito é massa pura. Foram dez mililitros três vezes ao dia; concentração de cem LD50 do B9. Sem reações adversas até o momento.

– Os outros sabem quem ele é?

– Sim. Por isso estão tensos, veja – Junia deu um zoom nos jogadores.

No campo desgramado, um tipo Garrincha cuspia compulsivamente, o juiz com uma mão no apito e outra enfiada no short ajeitava o pau de um lado, depois para o outro, um espectador de olhos esbugalhados roía as unhas, outro esfregava os cabelos, todos corriam com o cu apertado.

– Não sabem do tratamento. Mas Joaquín está se divertindo, mesmo quando erra a jogada.

– Incrível – o comentário sussurrado coletivamente atravessava a sala.

O foco está em Joaquín. Ele faz o passe errado, a bola zune além da linha de espectadores e o companheiro se descontrola, deixando escapar a ofensa.

– Ai, cabrón, ciego del carajo!

Silêncio abissal cai sobre o pátio de Hermosillo. Ninguém se move no corpo enrijecido, esperando o momento de correr ou dar porrada. Os guardas empunham o rifle com tranquilizantes. Joaquín caminha em direção ao pobre diabo, que olha para os guardas pedindo um socorro mudo.

– Perdón, Joaquín, no quise decir eso.

Joaquín sorri envergonhado, – Perdona-me, tú compadre. Yo juego muy mal el fútbol, – e dá uns tapinhas no ombro do colega que sua frio, paralisado na quadra, esperando a surra mortal que com certeza teria levado há quatro dias, antes do início do tratamento. Todos riem e Joaquín trota atrás da bola como um menino despreocupado. O zagueiro, no entanto, ainda espera o fim da farsa, quando Joaquín dará meia volta e investirá contra ele que nem touro atiçado. A Ave Maria move sua boca encomendando-lhe a alma – ahora y en la hora de nuestra muerte. O agudo do apito vibra nos tímpanos. Milagre da virgem, o jogo recomeça na santa paz.

(trecho de romance – segue)

Comentários
  • बहुत सुंदर।ठीक भी है, जिसे पढ़ा है उसीके बारे में राय व्यक्त की जा सकती है। इसमें कोई बुराई नहीं है।अच्छा लगा।

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