Glaesum

Meu passado deixou de existir quando decifrei a melodia, Âmbar, a única música que combinava com a voz de Maria Bethânia, eu detestava tudo o que a irmã de Caetano Veloso interpretava, mas admitia, só na voz dela a música era saudade eletrizada, e quando eu escutava “morar nos seus olhos” a imagem angariava meu ouvido, parecia irresistível, mais que se descobrir herdeiro de um apartamento em Ipanema, casa em Ibiza, ou mesmo uma luxuosa tenda no Marrocos. E quando surpreendi você murmurando a letra – foi na segunda aula do curso de tipografia cursiva – omitindo algumas palavras – sua pena de madeira fazia a tinta vermelha gozar, bordando o papel que recobria a mesa com pingos colorados – trocando outras, iluminado por arrepiado, claro se confundiu com raro – meu calendário passou a marcar 1 d.C.

Os amores passados, a porra do casamento que acabou, meu lance com a Diana, tudo foi fragmentado a zero quando sua voz no tom errado irrompeu meu ouvido, dique rompido sem chance de conserto, e se por acaso o sabor da buceta de uma ou o som da gozada de outra imergia do hipocampo, dos lobos temporais, das sinapses, seja qual fosse o local em que o nosso passado amoroso-sexual-emocional se instala, parecia que eu havia emprestado as recordações de outra pessoa, nada desses flashes em preto e branco eram meus, porque daquele instante em diante meu passado era um recém-nascido, pra quem a vida se contabiliza a partir do momento em os pulmões gritam, um minuto, dois, três, quatro minutos no novo mundo, e o novo mundo era você, Carmela.

Na aula seguinte nosso futuro já estava escrito mesmo sem ter consultado astróloga, numeróloga e todos essas lógas que buscamos quando não queremos assumir a responsabilidade pelas nossas vidas, essa viagem estourou meu cartão de crédito, culpa dos búzios, disseram que eu ia conhecer outro país este ano, e sequer percebemos que o místico é maturidade querendo se agarrar à infância, substituindo Papai Noel e Coelhinho da Páscoa por outras crenças que fazem mais sentido.

Nosso futuro era a casa com cerquinha branca, dois cães correndo pelo quintal, o bebê ensaindo seus primeiros passos, e você sussurrando MPB enquanto o tomilho e a carne se assanhavam no forno, essas imagens que a paixão fabrica quando é acionada, Carmela, e você apertou fundo o botão enter, ele não voltava a si, igual quando o pulsar três do liquidificador é emperrado e ficamos dez, quinze segundos experimentando a plena incapacidade de tomar uma decisão, arrancamos o fio da tomada, tornamos a pressionar, ou simplesmente fechamos a porta e vamos embora, a mistura liquefeita arrasando a vida inteira?

Então na terceira aula, nos quarenta e dois minutos do percurso da minha casa até o curso, antes do meu ouvido recolher a informação de que seu nome já não constava da turma de alunos, morte de um parente, foi o que ouvi no café do intervalo, é que percebi a paixão cristalizando, elétrico fóssil vivo consumindo cada vogal de teu nome, cada fio de cabelo escapando do coque imperfeito, e o que eu queria era envolver espessamente tua existência, abelha aprisionada eternamente, pra sempre eletrizada minha serenidade âmbar, deixando tudo assim, brilhando em mim.

***

Periastro

Te ver depois de tanto tempo devia ser proibido pela lei-natural-das-coisas, S., aquela entidade que prega “filhos não deveriam morrer antes dos pais” ou “mulheres devem engravidar até os trinta”, era impossível esconder o MMA que virou meu estômago, e quando teu rabo de olho encontrou o meu rabo de olho, S., o desejo frustrado que a gente nem admite, nem pode irrompeu, bolha de lava vulcânica, vinte e três segundos de expectativa, estoura-não-estoura, crescendo cada vez mais, mais, mais, e mais, até explodir, floco de erupção corroendo suave a certeza de que tudo que existia entre nós havia definhado seis anos antes.

Sabe aqueles locais que a gente frequenta com a possibilidade calculada de vislumbrar o passado, o perigo de rever o sorriso que se conhece tão bem sempre à espreita, tropeçar e ser amparada não pela mão gentil de um desconhecido, mas risco de emplacar cena de cinema, encontrar a mão que já percorreu seu corpo com sede e bebeu você inteira, sem gota no fundo da lata, Coca-cola consumida às pressas na manhã de ressaca?

Pois é, foi assim, com o crime em mente que aceitei o convite para encontrar a turma na praça do bairro, centro nervoso do fim de semana, fazia verão inclemente a Deus e qualquer santo, a cidade fervilhava ali, logo anunciariam a escola campeã do Carnaval de rua do ano, e topar com você, S., fazia parte da fantasia alá-lá-Ô-ô-ô-Ô-ô-ô-Ô que eu havia costurado ao longo do trajeto ônibus-São-Paulo-Curitiba, os últimos arremates executados nos três dias percorrendo locais comuns à nossa história, o botequinho em que empanturrávamos a fome com caipirinha, pastel e confidências, o café onde o projeto comum de salvar o mundo por meio da arte era elaborado a quatro mãos, as ruas e mais ruas onde meu amor por ti havia crescido sem limites, ignorando sarjeta, pedras e bitucas de cigarro, erva-daninha invadindo qualquer vão de pedra.

Já era a quarta rodada de uma cerveja com temperatura Saara comprada de um ambulante, e a conversa brincava de bola de cristal de vidente charlatã, não, a escola Y não seria a campeã, sim, a escola x seria desclassificada, não, fulana não tinha peito nem bunda pra ser madrinha de bateria, sim, ainda faltavam uns 200 anos para as calotas polares finalmente derreterem, não, o futuro da indústria cinematográfica não seria negro, apenas cinza-claro, não, não estou a fim de conhecer seu apartamento novo e abrir uma champanhe esta noite, sim, é exatamente isso que você ouviu.

Quando eu dava o quinto despiste na mão boba que conheci através dos meus amigos, a cerveja descendo preguiçosa pela situação bêbada de irrealidade, meu olho pescou tua presença serpenteando entre foliões eufóricos, “Mocidade/Agora eu sou feliz/Mocidade/Você fez por mim/Agora é por você”, Mocidade bicampeã, eu não tinha acompanhado o resultado, a praça mar azul de uma só voz, tua camiseta vermelha um holofote gritando olha pra mim, e foi impossível fingir cegueira, ou focar a atenção no idiota que me cercava a noite inteira, ou procurar um fiapo de cutícula imaginário nas unhas, ou qualquer outra das numerosas possibilidades que nos impedem de enxergar aquilo que a razão já havia enterrado com pompa e circunstância, mas que a emoção teimva em ressuscitar com reza brava.

Também impossível não perceber a presença morena com você, fazer as indevidas comparações, mais baixa que eu, cabelo menos curto, sem bunda-com-peito, o que ele-viu-nela, o que-ela-viu-nele, viu o que eu vi, mais do que eu vi, ou nem viu, vontade de trocar figurinha, ele também fala em correr o mundo com você, já curou a crença de acreditar que pepino e chocolate combinam, continua dormindo de conchinha, a noite inteira agarrado como se o mundo fosse acabar sem dar tempo dos corpos se despedirem, descobrir se alguma mania mudou, ainda guarda o chinelo debaixo da cama, continua sem deixar louça na pia, saber se os sonhos e projetos em comum eram exclusividade de vocês, ou simplesmente foram transmitidos, via contágio, ou forma hereditária, à paixão da ocasião.

Então nesses vinte e três segundos em que o crime de rever você se materializa, S., em que cada movimento teu recuperava alguma lembrança da época das cavernas, sim, milhares de anos separavam nosso fim deste momento-agora, eu percebia tarde, demasiadamente atrasada, o quanto havia sido enganada, a paixão por ti sendo preservada à minha revelia, arte rupestre protegida sem pistas por esta ciência tosca que é o amor, e o que parecia feito da brevidade do confete pingado no chão, o que eu sentia por ti, S., havia se metamorfoseado em cometa, Halley, sim, novamente riscando o céu, imergindo, emergindo, órbita intermediária, de tempos em tempos, seis em seis anos, dez em dez, fosse lá o tempo que eu levaria para te rever, o fato é que havia impregnado ad eternum minha existência.

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Kitsching

O destino da humanidade é morrer amando, trepando e mandando rosa vermelha pra destravar paixão ou curar briga, minha filha, o que eu faço não tem prazo de validade, não, graças a Deus que amar é feito gripe, dá mais que uma vez, deixa o nariz escorrendo, é sempre choro quando ele acaba.

Nem lembro como começou, sabe, acho que foi na escola, a professora mandando fazer versinho, coração rima com paixão, amor com dor, carinho e beijinho, e vai lá, tomei gosto, fiz comunhão, crisma, entrei em grupo de jovens, lá descobri a música, descobri Cirlene, descobri a paixão, ela não queria nada comigo, eu era feio, um bicho envergonhado, e amor não-correspondido é carro desgovernado descendo ladeira levando tudo o que encontra no caminho, não é, vai muro, parede, mãe e dois filhos dormindo, cachorro latindo, sofá velho.

Bom, daí em diante foi sempre paixão que não acontece em minha vida, amor platônico, dá pra dizer que sou PhD nisso, sabe, no meu caso as letras deviam ser tudo maiúscula, PHD, porque meu conhecimento no assunto ganha fermento todo dia, cresce cada vez mais. Sempre o sujeito imaginando o beijo que não acaba, a mãozinha que sonha em ganhar vida no cinema, homenagear primeiro com punheta, depois com carro de som e outdoor, essa coisas que o povo fala que é vergonhoso, mas se pega fazendo quando a alma gêmea verdadeira, a univitelina, surge faiscando no metrô, na internet, corridinha pela praia, ou trazida pelos amigos em comum, não é?

De rima em rima fui musicando os sentimentos, primeiro a Edislaine, nessa época eu já animava festinha da turma na escola, ela troçava da minha paixão e agarrava o Tonhão na minha frente, o olho me chamava de pateta, a boca invadia ele, o olho me buscava de novo, sabe, jogava na minha cara um você-me-qué-sei-disso-mas-não-vai-tê é, isso doía, e os versinhos que eu criava davam nisso, ela-não-gosta-de-mim-mas-não-tem-fim-o-meu-jeito-de-amar.

Depois dela teve a Lisete, ela namorava o Duval, Duval galinha, amava qualquer perna que passava, e Lisete nada, confiava até a última espinha do rosto, se enganava, a bichinha, até descobrir tudo. Então era choro no meu ombro, cabelo dela embaixo do meu nariz faminto, é, e eu querendo aquele riacho de lágrima só pra mim, abraçava, consolava, tirava casquinha, discreto feito viúva grã-fina no velório do finado, na cabeça dançava a musiquinha esquece-dele-olha-pro-lado-olha-pro-outro-dos-dois-tem-eu-pra-ti, assim surgiu Dois Lados, meu primeiro sucesso, tocava em bailão, depois foi pra AM da cidade, depois pegou o mundo.

Em seguida a Lisete vieram todas, minha filha, cada chaga uma música, o sorriso de Jussara que guardei no bolso, era um talismã batendo contra as moedas, riqueza de Deus!, então o cheiro de Fábia, ô mulher-perfume-de-excesso, rendeu versos com memória de goiaba, Lindalva, Rogéria, Anastácia, Teresa, Maninha, Berenice, Loreta, Gilvanete, Cassiane, dezenas, talvez até mil com todos esses shows que já fiz, cada amor uma vela para acender em forma de ritmo, som, versinho safado ou melodramático.

Todos esses meus sucessos vieram assim, desse partido político que é o amor, filiados espalhados pelo mundo inteiro, em qualquer ponto do planeta você encontra um levantando a bandeira, não é? Claro que sempre existem os descornados, aqueles que acreditaram e beberam desilusão, nesses amor é óleo de rícino, não é, desce a garganta, promete cura, mas o que faz é destruir fígado, rim e aquele tiquinho de esperança que o programa do partido prometia.

Uma mensagem final, deixa eu pensar, podia dizer que todo amor é eterno, afirmar Vinícius, eterno enquanto dure, ou melhor, melhor, encerrar com trechinho da minha nova música, certeza que entra em abertura de novela, hein minha filha, anota aí, vamos terminar essa entrevista com algo que essa gente de nariz torcido não gosta, jeito kitsch, brega, eles falam, não é, escreve aí, se amar fosse um pirulito eu chupava devagar pra nunca acabar.

Mostrando omentários
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    That was never his goal.He wants government control of health care.He’s a Fascist at heart.Remember this if you remember nothing else.It’s the government that wants this health care bill, not the public. The public is very much against it.

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    Hi Cat,My heart is with you. I have felt only a little bit of that pain of not being heard, of being ignored and marginalized and that was still an awful lot of pain. And I know that this was the pain that Christ bore as well when he was executed. One of the reasons I try to be faithful to the leadings of Christ is to rescue the name of Christ from the Christians. What do you do with salt when it has lost its savor? It is only good to be thrown out. What good is Christianity when it has lost the love that is the core of Christianity?Will T

  • aaa car insurence

    Jag läste just en rätt bra deckare, Tretton timmar av Deon Meyer. Annars All My friends are superheroes eller Kaufmanns andra som jag inte kommer ihåg vad den heter? Eller Extremely loud and incredible close?

  • http://www.crystallakecameraclub.org/

    I’ll try to put this to good use immediately.

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