O que há entre a floresta e a língua?

Árvores, insetos, chuva, calor e as palavras

Verdes

Sombras

Raízes

Fungos

Galhos

Larvas

Brotos

Arrancadas, derrubadas, velhas, podres

 

Como não se perder

Onde é o abrigo, o nascer do sol, a noite

O parasita na palavra mais alta

O veneno e a cura

Silva, ruge, zumbe, encharcada escorre em sulcos pela terra

Que ruído é esse sem direção

Pasto, espinho, vento que ferve e esfria vertiginosamente?

 

Deixa pegadas, e falsas pegadas para proteger os filhotes

Grita ao perceber o que se aproxima do ninho

Passagem contra o temporal

Guardada numa noz,

Engolida, deglutida, defecada,

Germina e cresce sem nenhum ajuste

 

A flor intocada, bruta em equilíbrio, pode perecer num instante

Capaz do pior fedor e do melhor perfume atrai e assusta ao mesmo tempo

Tem apogeu e gozo rápidos

E depois morre para nutrir o próprio inimigo

Vegetais, selvagens, reis, soldados, prostitutas, pastores, línguas

Todos, absolutamente todos, igualmente sobreviventes daquilo que os devora

 

Manchas somem, caminhos inexistem, galhos se bifurcam,

Fios se entrelaçam de modo intransponível. Para onde ir?

Ou garantir um pedaço, uma treva

A luz esconde-se num átimo e o que fica é instinto

A preservação a qualquer custo

A condição de continuar respirando

Sobre o coberto, no oco, folha, asa

A fronteira entre o protetor e o perigo

Que é de todos e de cada um

 

Onde pisar?

O chão não é seguro, apoiar-se não é seguro, parar não é seguro.

Deixar-se conduzir é a única saída

A constelação ali está, bem ao alcance. Onde a língua quebra, umedece,

Cruza-se com outra, se estende, se encapuza. Sugar

 

Há rios, mas não há barcos; há comida, mas ela está viva

De qual caule se extrai o que beber?

Onde subir, esconder-se, afundar,

Guardar as sobras para encontrá-las

Junto ao alívio de saber que nada faltará

Ou abandoná-las à própria serventia

 

Um lugar para sentar, ainda que por segundos

Não há público, platéia ou ator principal: todos se percebem

Suicídios, soníferos, estudos, doenças, estrangeiros não são necessários.

Ali há mel e amargor na medida certa

Casais permanecem casais apenas em tempo útil.

Velocidade e lentidão andam lado a lado.

Colônias mexem-se exatas

E aquilo que se move já é passado

 

Seres solitários mantêm-se solitários sem sofrimento algum

Cada qual é o que é, mas só existe por estar junto

Quem mora com quem?

Ação e reação. O que interfere e o que acopla

 

A informação não vista, pressentida, inacabada, transcendente

Sem forma, pois contem todas as formas

O fruto é taça,

A cor é curva

O som igual vem sempre de dentro, e varia quando emitido

Todo silêncio é eco. Toda ausência é precisa, até a ausência de estrelas

O que está em cima está embaixo. O sertão que é mar

As pequenas lâmpadas no final da vida

 

A história dos troncos

A leitura e a obra: onde começa e onde termina?

Livro que é espaço, e o espaço-livro

Mato, pântano, animais peçonhentos, terra imunda, pedras, cascas, bulbos, cachos amontoados; submersos em entranhas, lama e vasilhas de todos os tipos

Tudo se escreve de modo fluido, com sentido, para atingir os céus

Sem rascunhos nem projeto tudo existe, funciona e ocupa o seu lugar

Nem melhor nem pior que o lugar alheio

Perfeitamente construído e desordenado, sem quinquilharias

 

Sem defeitos, só o precioso

Imanência, permanência, mudança

Expira-se

De repente, o cheiro de queimado avisa:

‘- o homem vem aí!’

Nessa hora, quando a sombra cresce

Entre a língua e a floresta

É que surge

O poema.

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