[responsivevoice_button voice=”Brazilian Portuguese Female” buttontext=”Ouça o texto”]

Naquele dia, o ano era 1971, a neblina descia espessa, enquanto o último lampião era apagado. A cidade de Osasco despertava de uma noite fria e longa. O guarda da rua sorria feliz, pois logo surgiria o sol de inverno, conseguindo dissipar o resto do fog, e assim, começariam a aparecer as casas, as pessoas, os cães e os gatos que ali vivam soltos.

Ouvia-se o chilrear dos pássaros, o cantar dos galos e as pessoas se movimentando em suas casas precariamente iluminadas. Na casa de Dona Princesa, havia a agitação costumeira, onde a alegria acordava primeiro. A fila para o banheiro era sempre a mesma coisa, pois naquela pequena casa, moravam sete pessoas. E assim, alguns acomodavam a bacia no tanque para lavar o rosto ainda sonolento. Havia um chuveiro muito interessante naquela casa, por isso a grande disputa: Quem tomaria banho primeiro?! Tal chuveiro fora feito com um grande balde de alumínio, caprichosamente furado em sua superfície, se tornando uma incrível cachoeira quando puxada sua alavanca, pois despencava um deliciosa quantidade de água nos ombros, garantindo um dia de muita disposição e refrescância.

Emília só lavava o rosto, bem ligeiro, e já corria para a cozinha tomar o café que sua mãe havia preparado. O cheiro bom do café já atordoava a vizinhança, além disso, havia também um aroma inconfundível saindo do forno, e a menina gritava:

– Obaaaa! Hoje tem bolo de fubá!!!

Dona Princesa sorria satisfeita e dizia à menina que a tarde iria fazer bolinho pingado, sabendo que Emilia os adorava. Mas alertou a filha para não se demorar mais, pois o seu pai já estava pegando a bicicleta no quintal, muito apressado, afinal, hoje iriam montar a barraca numa feira que ficava um pouco longe dali. Eles eram feirantes, vendiam de tudo na pequena e próspera barraca. Nela havia artigos de bazar, meias, lenços e fitas, e vendiam muitos metros de fita por dia, pois naquele tempo as meninas e as jovens iam adornadas com fitas no cabelo, tanto para a escola, como também às festas que eram oferecidas na casa de um ou de outro amigo, onde se dançava ao som de uma vitrola, encantadoras músicas dos anos 60 e 70. Naqueles anos os feirantes eram bem sucedidos, afinal, não existiam shoppings nem supermercados… Existia a Feira, a Padaria, o Açougue, um pequeno Bazar e a Vendinha do bairro. Seu Natal e Dona Princesa criaram todos os filhos e deu estudos a todos eles com o lucro da banca na feira. Eles vendiam também bijuterias, esmaltes, creme Nívea, xampu e creme rinse, esses últimos, em saquinhos com doses únicas. Havia também artigos para maquiagem, além de uma variedade enorme de brinquedos. Quando chegava o carnaval, vendia-se uma imensidão de bisnagas de plástico, os queridos e saudosos espirradores, lindos e coloridos, os quais faziam a festa da criançada e da juventude. Era comum o povo sair às ruas, na época de carnaval, e chegar a suas casas molhados e achando tudo engraçado… Ninguém levava a mal. Tudo isso era normal, pois fazia parte da festa e do verão, afinal!

E assim a família de feirantes ia vivendo.

Seu Natal ia contente, pedalando a bicicleta, na garupa ia a Emília, fazendo seus planos futuros… Sonhava ser aeromoça, ou professora de Educação Física, no dia ainda escuro… Quando o pai começa a cantar, ela para de pensar. Os dois vão cantando contentes e logo avistam a feira… A barraca já está presente, pois o carreteiro não falha e jamais se atrasa, faça chuva ou sol quente! O Pai grita animado:

– Olhe que dia ensolarado!!! Vamos lá Emilia, precisamos montar logo essa barraca! Hoje o sol está bonito demais!!! Vem comprar Dona Maria, traga a sacola e a bacia! Chega freguesa! Chega rapaz! Moça bonita não paga, mas também não leva! Faz fila, mas não empurra!!! E logo todos os feirantes aderem ao animado e alegre coro, chamando os que passavam pra olhar seus belos tesouros! Naquela alegria toda, desaba uma bela chuva e os dois muito molhados riem dessa aventura!

Mas a chuva continua… Alguns desistem do dia, da alegria, desmontando suas barracas…

A lona do seu Natal começa a ficar pesada…

Erguendo a teimosa lona com uma longa madeira, Emília consegue jogar fora toda a água que se acumulava envergando toda a beira… Enquanto a esvaziava a boa menina pensava: Tanta água assim, vai derrubar nossa barraca… Mas Emília muito esperta, sabia como acalmar seu Natal:

– Sabe pai, eu gosto muito de chuva e de esvaziar a lona da nossa barraca… Não há de ser nada… Acredite, daqui a pouco, aparece a mulherada!!!

O pai, pensativo responde:

– Enquanto a chuva não passa e as freguesas não vêm… Que tal um cachorro quente?!

E ela responde contente:

– Compro pro senhor também?!

– Só se for um queijo quente… E um pingado bem forte! Sabe Emilia?! Se nós não ficarmos doentes será mesmo muita sorte!!!

E voltavam felizes pra casa, quem sabe, sem terem vendido nada…

Deixe seu comentário