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Não sou de ficar citando Raulzito, mas para a sociedade da informação não ter uma opinião formada sobre tudo é sinal de alienação, ficar “em cima do muro”, não ser pró-ativo e muitas outras coisas até necessárias, mas que justamente quando são vertidas em uma “opinião” acabam fechando o processo humano num bando. Em tempos de agitação política, de total descontrole, isso fica ainda mais forte. Quer saber como isso te afeta? Olhe sua timeline em redes sociais. Não participa de nenhuma? Uau! Você é praticamente um fora-da-lei, mas pode saber que não é herói.

Bom, essa é só mais uma opinião, você pode estar pensando. Então vou chamar pra essa conversa Jorge Larossa Bondía, professor de filosofia da Educação na Universidade de Barcelona. No seu delicioso ensaio [1] “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” (na íntegra: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf), o autor dá um passeio sobre os múltiplos significados da palavra “experiência” (em síntese, algo que nos atravessa, e para que isso ocorra devemos ser permeáveis a ela) e de diversos fatores que nos afastam do seu conceito: Entre eles, reinam duas colunas fundadoras do nosso universo pensante contemporâneo: a informação e a opinião.

Nas suas palavras: “E quando a informação e a opinião se sacralizam, quando ocupam todo o espaço do acontecer, então o sujeito individual não é outra coisa que o suporte informado da opinião individual, e o sujeito coletivo, esse que teria de fazer a história segundo os velhos marxistas, não é outra coisa que o suporte informado da opinião pública. Quer dizer, um sujeito fabricado e manipulado pelos aparatos da informação e da opinião, um sujeito incapaz de experiência.” (pág. 22)

E o que isso tem a ver com o ato de escrever? Mais precisamente, com o labor de criar histórias?

Não seriam essas narrativas justamente experiências, travessias? Algo que atravessa primeiro quem as escreve, gerando um impulso que depois é transposto para o universo alegórico do enredo e das personagens, para ser novamente decodificadas pelos leitores? E como um(a) escritor(a) pode ser afetado pelo seu universo – seja ele “real” ou imaginado – , se está pré-condicionado às suas preciosas opiniões, muitas vezes reflexo do espírito da época ou de algum bando eleito pel@ artista, dando-lhe a impressão de pertencimento a uma causa, mas tirando de sua obra o poder de perguntar. Investigar.

Novamente, experimentar. Jogar-se no fluxo.

O que seria de Otelo sem Iago? E o que seria de Iago sem a generosidade de Shakespeare de chafurdar nos sentimentos mais sombrios da alma humana? E Macbeth, então? Dostoievski escreveria o que escreveu se vivesse opinando a torto e a direito?

Você consegue escrever uma história quando coroa seu imaginário com uma cerca elétrica de fortes colocações onde não há espaço para dúvidas ou novas explorações? Coloca na boca de suas personagens um discurso seu disfarçado de diálogo? Odeia algumas figuras? Ama loucamente outras? Onde você coloca sua paixão?

Narrar a própria sombra, dar a volta nesse universo obscuro pode ser muito assustador, mas também nos liberta de viver esse lugar na “vida real cotidiana”, porque ele já foi vivido, experimentado e digerido na “vida real das histórias”. Nem por isso precisamos achar tais figuras simpáticas, tampouco glamourizá-las – tendência aparentemente oposta ao rechaço, mas que é só a outra face da moeda. Simplesmente escutar o que a personagem diz, dar asas a seu fluxo e ver onde ela vai, tentar entender as armadilhas dos condicionamentos humanos, os desvios, levar até as últimas consequências algumas escolhas – por mais equivocadas que lhe pareçam – pode te custar um teco do fígado, mas certamente irá te levar a um lugar novo e inexplorado. E isso não te fará uma pessoa sem convicções, ao contrário – essa postura nos brinda com um olhar muito mais compreensivo sobre os demais e sobre nós mesmos. E sabe o que ganhamos com isso? Liberdade.

Certa vez, mostrando alguns textos a um escritor já reconhecido (e muito generoso, porque se dispunha a ler meus rabiscos iniciantes e ainda me dar devolutivas), ele me presenteou com uma pérola. Estava justamente comparando um poema sobre o amor e um texto bem engajado, opinativo. Pois bem, ele me disse: “É engraçado, suas convicções políticas aparecem nos dois textos, mas esse aqui (o poema) é muito mais forte.”. E me mostrou onde ele “leu” ali, nos meus delírios amorosos, aquelas mesmas convicções, porém colocadas de uma forma absolutamente humana, de dentro. Do ponto de vista de quem é atravessado, de quem se jogou no rio de vida, e não de quem só fica à margem, só testando de vez em quando com a ponta do pé na água fria.

Aquilo marcou minha trajetória.

Desde aquele dia, eu nunca mais troquei a poesia das histórias pelo meu baú mofado de opiniões.

(E espero, sinceramente, que esse texto não seja mais uma delas disfarçadas. Porque as bichinhas são tinhosas, e teimam sempre em sair)

[1] Aqui citando a tradução de João Wanderley Geraldi, publicado na Revista Brasileira de Educação.

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