São onze e meia da noite e você, finalmente, conseguiu parar. Isso depois de passar algo entre oito e doze horas trabalhando ou estudando (inclua o tempo gasto vegetando no trânsito). Deu a devida atenção a seus entes queridos, cuidou do que tem chamado de higiene pessoal básica, resolveu meia dúzia de problemas. Fato é que, enfim, chega o momento de puxar o freio. Seu corpo para, mas sua mente está a mil. escritores

Decide, então, planejar seus próximos dias para dar conta daquilo que mais gosta de/precisa/quer fazer: escrever. Sim, você teve um dia cheio e já ganhou o emblema de gente que faz. Mas, sim, você é um escritor ou escritora. Mesmo que só você acredite nisso. Mesmo que isso (ainda) não dê dinheiro. Mesmo que seu único certificado de concurso literário seja do ensino médio (e em terceiro lugar). Mesmo que não haja um volume em capa dura com seu nome na estante. E mesmo que haja uma pequena (?) questão num canto obscuro de sua mente que, de tempos em tempos, insiste em reaparecer: Como assim escritor(a) se você não escreve?

Escritores – Ainda – Anônimos

Uma coisa interessante é que mesmo escritores já publicados voltam a ser estranhamente anônimos entre trabalhos, já que não sabem se darão conta das expectativas que construíram anteriormente. E mesmo autores consagrados passam por períodos em que se desconhecem: viram divulgadores, palestrantes, promotores (contas a pagar!) e podem ir adiando o momento de, novamente, encarar a folha em branco. A seca criativa parece acometer todos aqueles que decidem dedicar tempo, esforço e concentração a algo que pode “não dar em nada”. Porque gostam. Porque sim. Porque são escritores ou escritoras (o que quer que isso signifique).

Para Elizabeth Gilbert, o que nos paralisa, em qualquer atividade criativa, pode ser resumido a medo: medo de não sermos bons o suficiente, medo de que essa atividade não nos leve a lugar algum (as outras, pelo menos, nos trazem ao final do dia) ou ________ (complete com seu medo). Para Natalie Goldberg, se não separarmos a persona do escritor/criador e a persona do editor (aquele que escreve já pensando em certo e errado), não há ideia genial que se sustente. Há espaço para os dois, mas o editor só pode dar o ar da graça depois que você já teve tempo de brincar um pouco. E, em relação a outras atividades, Stephen King chega mesmo a comentar que uma das profissões que teve quase fez com que desistisse de escrever (na época, ele era professor. Eu gosto de ensinar, mas eu sei bem como é).

Por isso, decidi escrever esta coluna. Digamos que ela seja nosso E.A.A particular: como escrever e ter uma vida ao mesmo tempo? Porque agora já é quase meia-noite e você está aí, com seu laptop ou caderno na mão, tentando encaixar em sua rotina frenética o momento de escrever. Se você já tentou se disciplinar dessa forma antes, talvez tenha tido uma experiência parecida com a minha. Por um tempo, minha missão era escrever de oito e meia às nove da manhã. Às oito e trinta e um, pontualmente, minha cabeça disparava em mil direções. Às oito e trinta e cinco, minha mão direita começava a tremer incontrolavelmente (sou destra). Às oito e quarenta, meus intestinos se reviravam, doíam e eu tinha de, literalmente, correr para o banheiro (patético, eu sei!). Na volta, respirava fundo e tentava me lembrar de todos os conselhos anteriormente mencionados: não se julgue, separe o editor do autor, seja zen, curta, isso é só medo, medo, medo… Enfim, a tortura se repetia até que eu, efetivamente, começava a conseguir escrever alguma coisa (digam-me se isso não é algum tipo de crise de abstinência ao revés).

Medo, sem dúvida! Mas foi mais ou menos nessa época que descobri a incrível Dorothea Brande e o que eu entendi como uma visão mais física do processo de escrever (Ronald Claver segue uma linha parecida). Alguns de vocês podem estar pensando: “Essa pobre mulher tem problemas! Fica tentando fazer uma atividade que depende de inspiração caber em planejamentos e rotinas”. Pois bem. Para Brande, antes mesmo de falarmos sobre técnicas, estilo ou sobre o encontro com nossa voz autoral, é preciso praticar ser um escritor.

escritores

A primeira capa de Becoming a Writer

Fazendo seus exercícios (que, por sinal, recomendo), descobri que escrever é, também, uma atividade física. Não é porque você não vai correr uma meia-maratona que não precisa se preparar. Por que tendemos a acreditar que, ao escrevermos, os músculos da mente carregarão o resto do corpo sem que tenhamos de treiná-lo? Da mesma forma que um bailarino precisa de uma série de perna específica para uma coreografia que exige força, um escritor precisa descobrir as melhores maneiras de mover seus dedos, posicionar seu corpo, nutri-lo e lidar com seus limites.

Minha primeira proposta para vocês, então, é super simples: não se esqueçam de seu corpo ao escrever. Enquanto eu me esquecia do meu, minha produção tendia a dois extremos: ou zerava e eu amaldiçoava minha falta de tempo, de talento, de inspiração, de contato com as Musas, de _________ (preencha com sua própria falta) ou frutificava sob o efeito de uma estranha compulsão que me deixava imprestável para qualquer outra tarefa, quando uma de minhas ideias ganhava urgência. Passava, então, por cima de minha mão trêmula e de meus intestinos, ficando dias sem quase comer, dormir ou ___________ (preencha com sua própria autotortura). Gilbert relaciona esse tipo de comportamento à imagem de artistas como seres instáveis e sensíveis que se maltratam como se isso fosse uma espécie de sacrifício mínimo em prol da Arte.

Com o tempo, percebi que esses arroubos compulsivos geravam trabalhos incompletos. Terminá-los acabava sendo atrelado a necessidades de publicação (ou seja, colocava minha criatividade nas mãos de editores e à mercê de oportunidades que eu não controlava). Quantitativamente, eu passava menos tempo escrevendo e mais tempo me martirizando.

Por isso, apaixonei-me por Dorothea. Que tal escrever meia hora todo dia, encarar seus medos, descobrir onde se manifestam e ir vendo como seu corpo se comporta? Quase como se fosse um início de dieta, que você sabe que será difícil, mas vai melhorar sua qualidade de vida? E que tal tratar bem esse seu corpo, perceber como ele produz melhor e anotar temas recorrentes em sua escrita livre, locais e materiais com os quais você se sente mais à vontade, velocidades de digitação/escrita à mão com as quais você se sente bem e ir programando sua prática a partir disso? Que tal experimentar escrever de manhã, à tarde e à noite, vendo o que rende mais e desenvolver suas próprias estratégias para render nos horários difíceis? Se você pretende ganhar dinheiro com isso um dia, pode ser útil, não?

Assim, encerramos nossa primeira reunião. Claro que, se tudo estiver muito difícil, pode ser que você não tenha mesmo nascido para isso. Mas, às vezes, como Gilbert também menciona, você desiste de escrever e, tempos depois, começa a ficar rabugento, sentir a vida mais cinzenta do que de costume, enfim, percebe que cortou o mal pela raiz e, com a raiz, foi-se a essência. Amig@, o primeiro passo para a recuperação é admitir que você tem um problema e que sempre terá um problema, por mais que esteja em remissão.

Meu nome é Sabine. Sou escritora. E, só por hoje, escrevi (um pouco mais de) uma lauda. Depois me contem como foi o dia de vocês…

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Referências: escritores

“Sobre a Escrita” de Stephen King, Editora Objetiva (2015)

“Escrevendo com a alma” de Nathalie Goldberg, Editora Martins Fontes (2008)

“Grande Magia: vida criativa sem medo” de Elizabeth Gilbert, Editora Objetiva (2015)

“A arte de escrever com arte” de Ronald Claver, Editora Autêntica (2007)

“Becoming a Writer” de Dorothea Brande, Penguin Books (1981)

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  • Anelize

    Sabine, apesar de parecer batido esse tema (conflito) tão recorrente para quem quer se dedicar a escrita é sempre bom ler e reler de outras perspectivas, com dicas de quem já sentiu na pele isso, para enfim, descobrirmos o nosso próprio modo de enfrentar nossos demônios e praticar a escrita para encontrar a verdadeira essência daquilo que queremos fazer. E se não partimos para o exercício ficamos só com a frustração de não ter tentado ao menos uma lauda só por hoje. Valeu pelo texto!

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