Quarto de dormir

O todo se manifesta no fragmento ordinário de vida. Retalho incompleto que carece de costura, remendo. Vai-se desse jeito, o tempo todo; se tivermos a coragem de olhar, saberemos. Pedaços disformes de tecidos, cada um à sua maneira; a linha rústica a postos, esperando por onde será possível atuar. Quem se habilita a fazer com que a linha cruze o buraco da agulha? Pode-se, umedecida a cabeça da linha com saliva, dirigir a haste para o canal minúsculo. Mais fácil não sei o quê passar pelo buraco de uma agulha, do que alguma coisa que também não me lembro bem o nome chegar aonde mesmo? Minha queda por ditos populares. Sem saber de onde vem, mas feliz pelo que desenham de cores, pelo que trazem de ritmos faceiros à conversa comum, roliço colar de pérolas no falar do dia a dia. Sempre se pode respirar fundo, correr a língua pelos lábios ressequidos e declarar cheia de certezas: mais vale um tonto girando na praça do que uma ponta de lápis quebrada.

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Verão

Houve um espelho convenientemente instalado, ou coisa que o valha, olhando de soslaio para uma janela por onde entrava um sol vespertino incendiando o vidro e a argamassa das paredes. Tanto calor e as meninas buscando um sono de silêncios. Pela mesma janela entra uma lua, ou na falta dela, uns ventos coalhados de latidos de cachorro e ruídos de cigarras.

Não me lembro de destemperos incômodos no frio. Cobertores feios mas eficientes, faziam o seu trabalho de maneira eficaz. O calor sim, uma matula com pedaços de insônia, toalhas cuidadosamente molhadas na pia, que seguiam pingando até o quarto, onde serviam de manto para corpos pouco mais do que infantis.

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Noir

Mais longe, os sonhos de onde se foge. Sonhos em queda livre, sonhos quentes, xixi na cama, pesadelo em preto e branco. A sombra de um frio escuro que não tem nome. Persegue-me até hoje, vindo de corredores sem luz, o gelo inominável. Vento que arrepia o corpo despido e acelera memórias do nada. Cheira a enxofre, o desconhecido. Olhando, assim de longe, ninguém adivinharia tantos terrores enfileirados sob os olhos castanhos.

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Oração

A doutrina católica incentivou às negociações filosófico-manipuladoras. Não há o que fazer, na bagagem, esse pacote de consistência complexa e incoerente faz volume. Amado à moda de herói, o professor de literatura do cursinho forneceu os álibis gloriosos. Porque também os parnasianos assim o faziam. O truque ainda hoje funciona.

“Se Deus existe, há de gostar de mim, visto que não sou uma transgressora contumaz de suas leis; ao menos as universais, já que não estamos aqui falando de fofocas ou pequenezas.”
Ou ainda, “o investimento em um arrependimento que valha a pena, deveria automaticamente dispensar a submissão a penitências e coisas assim?” Penso que penso mas acho que faço tudo errado.

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Submissão

Daqui debaixo (faz muito, muito tempo, que não olho de baixo para cima. Isso muda muita coisa, acho), olho para aqueles olhos verdes emoldurados por sobrancelhas severas: eles estão furiosos! Quando menina, a cada embate com os olhos furiosos eu fazia uma promessa. Não me lembro de ter cumprido nenhuma, mas de cada uma delas saí com uma desculpa cada vez mais esperta.

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Purgatório

Existe aquele pedaço de vida, aquele a que nunca sei ao certo como me referir. Nem sei bem aonde fui, porquê ou como. Sei apenas que um dia me dei conta e precisei voltar. Voltei.

Qualquer distração pode me levar a veredas obscuras. Desde sempre. Mas cá estou de volta numa sessão vespertina no Cinesesc. De volta numa caminhada em que os pés mergulhem em poças e dancem sobre folhas secas. Abrindo o forno, eu volto, a baforada me embaça os óculos e convoca uma gargalhada.

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Submissão – ainda uma vez

Um filme publicitário convenceu a menina, olhos estatelados em frente à TV. Em tempos de publicidade selvagem, uma bebida à base de alcachofra se vangloriava de dar contas de acessos raivosos e de sobrancelhas ríspidas sobre olhos verdes nervosos.

De quando em quando, acreditava em fórmulas mágicas.

Eu tenho um pensamento que se encharca facilmente de inocência; acredito de novo, de novo e de novo.

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É só um tijolo no muro

Devoro a enorme tela negra. A tela enorme de cinema me devora. Meus olhos esbugalhados agora, úmidos daqui a pouco, inchados e quentes ao final da sessão. É só mais uma sessão das dezenas às quais me submeti. A rua destruída, as cores sequestradas, a rua fria. Por mais que eu pratique a empatia, realmente não consigo saber que frio é esse. O inominável. Que mundo é, eu adivinho; que tristeza é, posso sentir, solidária. Mas esse frio, não sei, não conheço.

Um frio coalhado de neblina e névoas me acompanhava até o ponto de ônibus, no caminho para a escola, nas manhãs invernais de uma São Paulo que não mais há. Ainda hoje o prazer, se viesse de novo essa manhã gélida, se de novo eu pudesse ter o vento ríspido na nuca, o arrepio assoprando o couro cabeludo.

Na tela, a menina de cabelos crespos e desalinhados empilha pedras, vagarosa e calma. Na rua destruída, sonolenta e fria. A voz pergunta: há alguém aí? Calafrio, não consigo ouvir o que você diz. Talvez esteja confortavelmente anestesiada, mas essa é a décima ou sétima ou vigésima vez que me torturo vendo esse filme e chorando na mesma cena, empilhando tijolos de um muro que acabou de ruir e não deixou em seu lugar nada que seja visível, nada que possa se ver claro, é só o pó que sobe e pousa nas pestanas negras e nos cabelos negros e crespos da menina que empurra um carrinho tosco de madeira e empilha tijolos. A música gigantesca toma meu corpo. O cenário é só ruína, embora haja comemoração de alguém por alguma coisa. Pedras caídas do muro, pedras arrancadas do muro. Essa menina sou eu, afinal?

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Guarda-chuvas

Absurda pequena e tola. Definição mais insatisfatória, o que é isso? Menina, mas nunca tão pequena assim. Pensa em voz alta pra si mesma, declamativa. Acredita que pode voar e o acreditar tem cores fortes e teimosas. O pensamento se repete e de novo se repete. Acredita no que acredita, só isso. Que se pular de uma janela alta com os olhos fechados e bem apertados, descerá pousando leve, solista em desenho animado, folha seca despencando em câmera lenta e paisagem sépia. Pensa e pensa, mas nunca pulou. Pensa e pensa, o ardido na mente é coceira convidativa, é prazer.

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Garota Rainbow

Adolescente, nunca frequentei domingueiras, o nome já era porre suficiente. Ouvia dizer o que eram, mas nunca testemunhei. Um pouco de desprezo, um monte de timidez. Alguns anos depois, dancei tudo o que havia para dançar em todas as boates gays da cidade. Todas mesmo. Escoltada pelo amigo, no começo; dali a pouco não precisava de guia ou companhia. Domingo à tarde, juntava a fome com a vontade de comer, me livrava dos depressivos programas na TV, rumava para a Nostromondo, pegava fila, carimbo no pulso, e subia poderosa a podre escadaria da entrada, pra me acabar na pista, ao lado de todos os meninos mais lindos da cidade. Meu baile perfeito de debutante.

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Segredo

Uma pulseira de ouro com bolotas a cada um tanto da corrente. Joia comum, recorrente de um certo tempo, assim como os dentinhos de leite incrustados em suportes do metal precioso e os solitários diamantes magros engastados no ouro branco. A menina está sentada, ensimesmada, girando a corrente no pulso magro, uma das poucas preciosidades que teve. Tenta, mas é inevitável, tão desastrada. Eu queria tanto que você tivesse algum cuidado com as coisas, você estraga tudo em que põe a mão, tem ideia do tanto que seu pai trabalhou pra lhe dar essa pulseira? Eu não sei o que aconteceu, eu estava só mexendo e daí não sei. Olha sua irmã, uma princesa! Você parece uma escrava desengonçada. Não fala assim com ela, é só uma criança. A sua criança querida, por isso ela se comporta desse jeito.
Ela tenta terrivelmente, mas acaba mordendo distraída as bolinhas de ouro, elas agora agora não passam de passas amarrotadas. Pensa que pensa mas o fato é que é muito difícil controlar as coisas que seguem acontecendo. Pensa que pensa e gostaria de fazer as coisas certas, receber aprovação, mas tudo desanda, foge ao controle.

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Rolê

Faz contas de todas as maneiras mas o dinheiro é parco de um jeito tal que quase nem existe. É preciso mais do que escolhas sábias, mais do que cálculos precisos. Necessária é a ousadia em destempero, improviso total, vida em ritmo de jazz. Uma passagem de ônibus pode comprar uma cerveja. Uma entrada de cinema pode comprar um lanche. Decisão primeira: ir e voltar de carona. Decisão segunda: se alguma coisa der errado, voltar a pé. Decisão terceira: depois se decidem as questões aleatórias
Cenas centrais do filme/cena/vida – há personagens terrosos que sorvem cervejas não necessariamente geladas, ninfas profundamente sedutoras e azuis, almas agitadas de respiração pesada- filósofos amadores e gente a ponto de cruzar a faixa amarela.
A vida é um sanduíche do “eu decido aqui” com o “eu posso alguma coisa ali”, mais um recheio farto e improvável de pastas de nome e gosto indefiníveis. O vento frio invade avassalador a sala pela janela larga escancarada, mas não é suficiente ar, a respiração persiste ofegante.

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Bruma

Dormiu no taxi, completamente abandonada. Temo por essa menina que não se convence de que é perigoso flanar assim leve pela vida. Eu temo? Acorda com a voz monocórdica já um tanto irritada do taxista: e agora, pra onde?

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Garota Rainbow II

E agora, pra onde? O menino tinha os mais lindos olhos possíveis e um sorriso cristalino. Olhos, sorrisos, e canta Caetano, a lua está cheia, a gente se irmana e sempre há alguém que dedilha um violão. Almofadas macias, vozes macias, cores, muitas cores. Meninos assim tão bonitos não podem oferecer perigo, de jeito algum.
As pessoas todas que conheço, desde sempre, correm todos os riscos. Estéticos, poéticos, políticos, de saúde pública, morais. Por inocência ou absoluta ausência de medo da morte. Morte? Somos imortais! Talvez até atração pela morte, essa mulher sensual de olhos pestanudos. Saímos por uma porta desejando que o mundo fosse um arco íris ao final do qual encontraríamos o pote, e chegamos ao fim da estrada e nada havia, além de uma ponte destroçada.

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Anacronismo

1958
um objeto não identificado
e a menina em queda livre – Copacabana
JK inaugura o reator e muda para o Alvorada
(em tinta fresca)
João XXXIII entronado
Che e Fidel avançam para Havana
Meus pais se casam na Penha
1958
inventam o macarrão instantâneo
Mautner escreve Vampiro
A menina em queda livre? Copacabana
Isso não era liberdade, em Copacabana
2015
Meninas muitas em queda livre por aí
Copacabana, Madureira, Bangú,Campo Limpo, Jardim Angela, cidade Tiradentes.
Tiro livre nas comunidades cariocas, na Síria, Etiópia.
“Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder”

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Utopia

Demorei tanto a perceber o alívio que alguns escudos permitem. Demoro, hoje ainda, tanto para me defender. Quase não alcanço a lajota onde reluz a luz do sol, onde escuto uma nota sol, onde respiro feliz e só.
Como não perceber que a inocência não é mais possível?

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O anjo batizado

Cena I – Acorda mansa, os braços e pernas infinitamente longos desenhando espreguiçares felinos. A névoa abre espaços improvisados por onde a memória pesca um ou outro frame da noite. A cama macia, quente e limpa, não é suficiente para aliviar o ruído que ecoa do cérebro, formando perguntas com interrogação dupla. O que é que você está fazendo aqui? Como foi que chegou aqui?
Cena II: Desce em passadas etéreas e inspeciona a garagem. O velho fusca está lá, comportadamente instalado entre os carros da família, intacto. Sobe as escadas com passadas menos leves e decide: nunca mais vai dirigir desse jeito.
Cena III: Ela não fala sério. Mas não sabe, agora não.

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Sobre ou vivendo?

Além de outros poderes, costumo fazer mágicas. Não faço prova alguma dos meus feitiços, o que faz com que sejam apenas pedaços toscos do que vivo. Não sou mesmo muito boa em marketing pessoal. Sigo e faço o melhor possível do momento. Só. Canso de ver gente muito menos bem intencionada, menos comprometida, menos qualquer coisa, recebendo comendas de gratidão por um nada realizado. O mundo corporativo e seus códigos vazios. Coça por um momento um sentimento de insatisfação, falta persistência para tornar-se raiva.
Eu planejo: atacar com intensidade compatível à situação. Falho: acabo me esquecendo do inconformismo que me queimou. No final, afinal, importa?

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Promessas de Ano Novo

Meia calabresa, meia margarita. A vida segue alternando as cebolas um tanto murchas e chamuscadas da calabresa com as folhas picantes e frescas do manjericão. O que eu quero dizer? Impossível controlar o que há de ser.

Possível somente o balancete. Calmamente, a xícara de chá entre os dedos, a melodia incrível e perturbadora cimentando a cena. Fotografia, pra lembrar.

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    Brilliant post Vix. Lovely top. Will definitely be mindful of these tips next time I go, I'm very bad for not getting stuck in!And thank you for the very lovely comment you left me. That meant so much. It really love the topic and was hoping that would come across so your message made me smile. x

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    … and according to Pakistan is deporting 50,000 Afghan refugees.Quite right too. I mean, why should Pakistan have to put up with a load of Muslim refugees when there are plenty of Western countries who will take them?

  • http://www./

    :clap: hola bandera de 3 colores scribo para preguntar si de casualidad no saben cuando viene el tri a veracruz, xalapa u orizaba. si saben algo no sean crueles avisenme ahí les paso mi correo: florecita_rockera_83@hotmail.com

  • student advantage discounts

    Végre nyíltan is szó esett róla. A pár troll miatt sokan már nem is nézik műsor alatt a csetfalat, mert csak demoralizálja őket, pedig igen hasznos kommunikációs csatorna a műsorkészítőknek is.

  • 92 10-10-11 spune: 1. ce monitor e? daca e lcd, el trebuie sa fie pe rezolutia nativa.2. cand se vede in ceata? se vede tot ecranul in ceata? sau doar parti? incearca sa intri intr-un joc si vezi daca si acolo e in ceata. te rog raspunde la fiecare intrebare ca sa imi pot face o idee mai clara. +68

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