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I.

Ia começar de novo. As primeiras porções de terra já estavam sendo retiradas e a cova ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória seria enterrada viva. E o que mais a sufocava era saber. Sábios são os que ignoram ou os que preferem não saber. Mas ela sabia, sentada que estava diante do homem que lhe moldava a cova. Não estava presa a nada. Nada lhe obstruía a passagem, nada lhe atava os pés ou as mãos, mas não conseguia fugir. Algo lhe fazia assistir, de forma quase condescendente e sem ao menos desviar o olhar, aquele espetáculo macabro. Grãos de terra seca, restos de raízes e animais decompositores. Glória pensava – porque ainda conseguia pensar – em quem seriam suas companhias quando ao homem lhe ocorresse, por fim, depositar-lhe na cova. Qual seria a sensação da terra a lhe cobrir o rosto? Por quanto tempo suportaria a comichão dos microscópicos animais a lhe devorar a carne? E ainda havia o escuro. E ar… por quanto tempo teria ar? O buraco estava quase pronto. Tinha exatamente o seu tamanho. O homem parou de cavar. Pela primeira vez, desviou o olhar da cova e virou-se para Glória. Pânico. Glória libertou da alma o maior de todos os gritos, mas a este não lhe apetecia a liberdade. Glória abriu a boca, esbugalhou os olhos, mas o grito não saía. Era um gritar sem grito. Gritar-silêncio. E Glória não sabia fugir.

Glória transpirava.

Foi quando sentiu o toque daquelas mãos.

Súbito, homem e buraco desaparecem. Desta vez o grito deixou-se libertar. As macias mãos da avó paterna, mãos de liberdade.

Sim, aconteceu de novo. Por mais aquela vez Glória deixara acontecer, mas estava decidida. Não dormiria mais. Quando chegasse a hora e todos fossem para seus quartos, Glória apenas fingiria fazer o mesmo. Iria para a cama, mas por nada no mundo fecharia os olhos. Isso seria admitir a passagem para aquele outro mundo, o mundo do buraco e do homem que lhe enterrava viva. Até quando teria a mão da avó para lhe trazer de volta? Até quando não conseguiria fugir? Por que sempre se via diante daquele buraco que ia tomando forma para lhe servir de cova? Por que toda noite… toda noite… noite… noite…

***

Ia começar de novo. As primeiras porções de terra já estavam sendo retiradas e a cova ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória seria enterrada viva.

II

Ia começar de novo. Os primeiros minutos depois das oito já haviam sido transcorridos e a vontade de ser enterrada viva ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória não dormiria. Nas noites do sexto dia, conforme era o costume, o Marido não voltava para casa. Dormiria em camas alheias com mulheres de todos os nomes e nenhuma seria Glória. Apenas na manhã seguinte retornaria, com olhos de ontem e as palavras de sempre. Lhe cobraria o café no ponto e o pão passado na chapa. E que depois lhe acordasse ao meio-dia, com almoço pronto e bem feito, porque agora dormiria o sono dos justos, que era como ele era. E o que mais a sufocava era saber. Sábios são os que ignoram ou os que preferem não saber. Mas ela sabia, casada que era com o homem que lhe moldava a cova. Não estava presa a nada. Nada lhe obstruía a passagem, nada lhe atava os pés ou as mãos, mas não conseguia fugir. Algo lhe fazia assistir, de forma quase condescendente e sem ao menos desviar o olhar, aquele espetáculo macabro.

Um lugar vazio na cama, dias solitários e olhares reprovadores. Glória pensava – ainda conseguia pensar? – em quem seriam suas companhias quando ao homem lhe ocorresse, por fim, não voltar na manhã seguinte. Lembrou-se dos filhos. O que contaria para os filhos? Como convencê-los de que ela não tinha culpa (ou será que tinha?).  Por quanto tempo suportaria a comichão de microscópicas indagações a lhe devorar a alma? E como seria com os amigos? Decerto que lhe abandonariam – eles eram amigos dela ou eram amigos do marido? Qual seria a sensação quando todos lhe virassem o rosto? E ainda havia o escuro. E ar… por quanto tempo teria ar? O relógio passou rápido pelas onze e célere chegou na fronteira com o sétimo dia. O homem novamente não. Pela primeira vez, desviou o olhar do relógio e ateve-se ao buraco. Ao buraco que trazia dentro de si. Pânico. Glória libertou da alma o maior de todos os gritos, mas a este não lhe apetecia a liberdade. Glória abriu a boca, esbugalhou os olhos, mas o grito não saía. Era um gritar sem grito. Gritar-silêncio. E Glória não sabia fugir.

Glória estava seca.

Foi quando se lembrou do toque daquelas mãos.

Por um segundo esqueceu do homem e do buraco. Daquela vez não quis gritar, apenas deixar que caíssem lágrimas de quem daria tudo por aquelas mãos macias da avó paterna, mãos de liberdade.

Sim, aconteceu de novo. Por mais aquela vez Glória deixara acontecer, mas estava decidida. Não esperaria mais. Quando o fim do sexto dia novamente chegasse e os filhos fossem para seus quartos, Glória faria o mesmo. Trancaria todas as portas e cerraria as janelas. Não desviraria uma só vez o olhar para a fechadura. Não, não aconteceria mais. E se porventura a Ele ocorresse voltar, não se levantaria para esquentar o jantar. Sim, da próxima vez não esperaria. Fecharia as cortinas da sala e do quarto. Apagaria, uma a uma, todas as luzes.

(…)

Exceto a da entrada.

(…)

Que era para o caso de…

***

Ia começar de novo. Os primeiros minutos depois das oito já haviam sido transcorridos e a vontade de ser enterrada viva ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória não dormiria.

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