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Há séculos sucedem-se os inseparáveis pares – cálamo e pergaminho, pena e papel, teclado e monitor… –, mas o desafio do entremeio continua o mesmo. O que falta ao homem para o ato de escrever? E o que é preciso perder?

Tudo parece impreciso.

No versículo 116 do instigante Livro do Desassossego, Fernando Pessoa dispara e sentencia, livre de hesitações e imune a qualquer senda ilusória, que “escrever é esquecer”, complanando os atos nos umbrais da literatura.

Antes de pensarmos Pessoa, voltemos alguns milênios até o Egito antigo, cuja Mitologia nos conta que Thoth, Deus dos escribas, inventou os hieróglifos. Espécie de mística e sagrada escrita, os hieróglifos e sua arte atraíram e fascinaram muitos, de forasteiros a estudiosos, mas foram decifrados pela Linguística somente no Séc. XIX, quando Champollion conseguiu identificar a ideogramática associação existente entre os valores simbólicos e fonéticos dessa escrita.

Hoje, milênios depois, apesar do empenho detrativo do terrorismo e de todas as mazelas do caótico mundo pós-moderno, muito se admira ainda a cultura do Egito antigo. Espanta-se com a grandiosidade das maravilhosas e enigmáticas pirâmides e com a riqueza das técnicas e dos costumes dos reinados dos Faraós. Fala-se muito em seus deuses mitológicos, inclusive Thoth. Mas e os escribas?

Há um texto famoso, de domínio público, que a História convencionou chamar de “Texto aos Escribas”, provavelmente escrito durante o Império Novo egípcio (1550 a.C. – 1070 a.C.) e utilizado na tradição do ensino e instrução dos escribas, que já recomendava: “Seja um escriba. Isso lhe salvará da labuta e lhe protegerá de todo tipo de trabalho. Você será poupado de enfrentar a enxada e o alvião, de forma que não terá que carregar cestas. Você ficará livre de manipular o remo e será poupado de todo tipo de sofrimento”.

E olha que escrever naquela época dava era trabalho! Sentava-se com as pernas cruzadas (posição a que hoje chamaríamos de algo como “pernas em borboleta”), utilizava-se o esticado saiote, geralmente de linho, como apoio para a paleta e o pergaminho e escrevia-se de cima para baixo, ou da direita para a esquerda, ou tudo em vice-e-versa de acordo com o texto a ser escrito, molhando-se o cálamo de junco na tinta (geralmente preta ou vermelha, entre outras cores cuja obtenção na natureza era mais difícil àquela época) e não deixando a mão que escreve tocar o papiro. Definitivamente, escrever já nasceu fazer artístico.

Na verdade, por dominarem a técnica ou a arte da escrita, os escribas desempenhavam múltiplas funções na sociedade egípcia, desde a redação de leis e normas evidentemente ditadas pelos Faraós, até atividades administrativas e econômicas, documentando ainda as tradições da religião e dos contos populares falados. Em suma, eram capazes de transplantar para a escrita o complexo universo da Linguística. E a tradição escriba, que era hereditária e templária, ainda lhes reservava status social diferenciado e regalias conferidas somente a integrantes da corte, tais como a isenção de impostos! Ah, se ainda fosse assim a vida de um escriba…

Mas por que essa pequena viagem tri-milenar de volta ao mundo dos escribas?

Porque Pessoa, meus amigos e amigas, até isso faz com a gente. Quando deparo-me com seu “escrever é esquecer”, penso o quanto já foi esquecido pela humanidade para ser escrito e o quanto só pode ser lembrado pela escrita. Por isso minha busca pelos seus primórdios, ao que então me pergunto: quando (e quanto) o diletantismo dos primeiros escribas se tornou negócio, interesse, ainda que inconsciente ou inexoravelmente? E será que houve uma parte deles que de fato se esquecia da vida, como sugere Pessoa, e se constituía, assim, no prófugo espírito da Literatura?

Pois retornando ao desassossego pessoano, vemos que este vai além: no mesmo versículo 116, há o complemento de que “a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida” e que “essa (a literatura) simula a vida”. Eis aqui em Pessoa, e em avanço, o que ora nos impõe a pós-modernidade: os romances tendem ao infinito das histórias que nunca existiram e os poemas precisam versar sobre o que ninguém diz, como se a palavra escrita fosse uma loucura.

Sigamos com essa loucura! O ato de escrever sempre foi deliberado. A inspiração só vem da vontade de escrever e da transpiração, as mesmas desde os escribas, os primeiros loucos, os prógonos militantes do pecado original da escrita.

Subscrevamo-nos nesse papel de escrever e nos outros fujamos de nós! Ignoremos essa vida, que nada mais é que o começo da morte. Neste ponto, sem esquecer Pessoa, parto para Borges: “Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros, o que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação”.

Escrever não é ganhar a vida, mas sim dela perder-se – em termos. É um esquecimento pessoalmente ou “pessoanamente” calculado. A vida de quem escreve é vivida nos livros. Creio que é disso que estamos falando: é necessário perder (ou ganhar?) tempo inventando-o nos livros, na Literatura. Assim, como uma doença crônica, a vida na escrita perdurará, reencarnada cada vez que um livro for aberto e lido, real ou virtualmente.

E o que nos resta, depois de todos esses milênios? Os escribas antigos tinham algo que não o temos os pós-modernos? Temos Word em todas as línguas. Falamos em páginas e escrevemos em telefones, óstraco de nosso tempo que em breve cairá no ostracismo, onde até eletronicamente já vivem as cartas. Produzimos textos em telas líquidas, nas quais operam como cálamos os nossos próprios dedos. Dos livros são também agora estantes, em Página | 4 instantes, as nuvens.

Temos o mundo em 3D na palma da mão. O que não temos? A quarta dimensão? O tempo que tinham os escribas, mesmo que vivamos o dobro, o triplo?

Talvez esperemos muito, inclusive viver mais cada vez menos. Ou talvez Bauman esteja impiedosamente certo: os tempos líquidos da modernidade realmente escorrem pelos dedos. Evaporam. A pósmodernidade precisa chover, com riscos de relâmpagos e trovoadas. O Século XXI ainda carece, e muito, dos escribas; mas também precisa de sorte.

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