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É no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada:

não pela mensagem de que ela é instrumento,

mas pelo jogo de palavras de que ela é o teatro.

Roland Barthes

Não gosto de cozinhar. Nunca gostei. A alquimia, a mistura dos elementos, sempre me interessou, mas o “antes” e o “depois” me desestimula. Um trabalhão para o que precisa acontecer todos os dias, se alimentar. Planejar, comprar, lavar, acondicionar, cortar… E depois as panelas e os pratos. Um saco. Tá, torna-se mais divertido quando se tem companhia no empreendimento. Mas na minha vida quase nunca foi assim, é algo que eu sempre tive e tenho que resolver sozinha. Até que, em priscas eras e, com a despensa vazia, fui obrigada a inventar.

Lembro-me com se fosse hoje da noite em que meu ex e um amigo, depois de inúmeras cervejas, estavam mortos de fome, eu inclusive. Em casa, cebolas, shoyu e alface chinesa. Por sorte, um finalzinho de óleo de gergelim torrado. Talvez pelo grau da fome, a receita tenha permanecido inesquecível. Acertei a mão. O detalhe é que o nosso amigo se chamava Paulo Leminski que, a partir daí, passou a me considerar uma cozinheira de mão cheia. Tem até graça. Mas foi naquele gesto incontornável de carinho pelo estômago que percebi que a opulência, normalmente associada à liberdade, é o que realmente nos restringe. Paradoxo?

lettuce

Vejam: com a despensa cheia eu teria optado por um macarrão com molho qualquer, quem sabe  de  gorgonzola. Zilhões de pessoas poderiam fazer essa receita melhor do que eu. Ou uma carne pré- assada, forno e pimba. Normal. Mas quem faria com a geladeira vazia uma alface chinesa refogada com cebola e um fio de óleo de gergelim? Só eu. Só eu naquela noite, com companhias inesquecíveis. Jamais teria inventado a tal receita na fartura. A falta me fez inventar.

Merleau-Ponty, disse que a liberdade é que nos faz ver uma montanha como obstáculo. Se tornará uma dificuldade se você tentar transpô-la, porque até então é só uma montanha. É a liberdade que faz aparecer obstáculos à liberdade, só para complicar um pouquinho mais.

A sensação de que a restrição é um gatilho para o processo criativo se transportou para a Literatura quando descobri a Oficina de Literatura em Potencial, OuLiPo, movimento criado em 1960 por Raymond Queneau e Fraçois Le Lionnais, que brincavam, matematicamente, com princípios combinatórios na estrutura textual a partir de restrições – em francês contrainte, constrangimento.

Para o OuLiPo a limitação liberta a criatividade, cria um estímulo que obriga a inovar. O estabelecimento de uma regra funciona então como um modelo, um ponto de partida que nos tira do caos e substitui, idealmente, a musa pela técnica – eu diria que, depois de reconhecida a regra, a musa aparece. Georges Perec escreveu um romance inteiro sem a letra “e”, a vogal mais comum em francês, La dispartion. Queneau, em Exercícios de estilo, uma história simples contada de 99 formas diferentes. Os princípios do OuLiPo inspiraram Jorge Luís Borges em o Jardim dos caminhos que se bifurcam e Julio Cortázar em O Jogo da amarelinha.

georges perec

Há muitos anos utilizo um sistema de linguagem imagética chamado Tarô, figuras com significados potenciais. Dado meus estudos literários e a prática de leitura, bem anterior ao Tarô, logo percebi que estava frente a uma máquina narrativa. Temas, cenários, objetos, situações, personagens e… ação! E que o baralho poderia funcionar com um gatilho para a criação literária, respeitada a linha tênue entre o discurso da imaginação e a regra que irá amarrar a trama: a pergunta e a disposição escolhida para deitar as cartas. O Tarô é um sistema de linguagem aberto aos inúmeros  estímulos de interpretação, mas é restrito. Obedece a uma estrutura e a um cardápio iconográfico.

Italo Calvino, também oulipiano, percebeu antes e muito mais. E criou uma obra literária sofisticada: O Castelo dos destinos cruzados. O livro trata de um grupo de pessoas que magicamente perdem o dom da fala em uma viagem pela floresta e chegam a um castelo vazio. Apenas a mesa e um maço de cartas de Tarô. E, incitados pelo desejo de contar suas histórias, dispõe sobre a mesa os acontecimentos, vitórias, amores, desditas. Mas Calvino vai além da criação de historietas incitadas por uma sequência de imagens: os acidentes se cruzam, assim como as cartas, criando uma espécie de quadrado mágico, um jogo de xadrez. Logicamente, na medida que o trabalho de criação avançava, a dificuldade em manter uma lógica narrativa aumentava também. Calvino sofreu. Vale a pena ler mais sobre o Castelo – que inclui uma Taverna, segunda parte do livro e que tirou o sono do escritor.

castle_calvinoNas minhas oficinas de criação literária, lançando mão de fórmulas oulipianas (receitas inconcebíveis, tautogramas, pastiches e outros exercícios de escrita combinatória específicos como o S+7 e a bola de neve), obtive mais resultados do que quando incitei meus alunos a trabalharem com a escrita automática dos surrealistas, por exemplo, onde a escuta do inconsciente é o ponto de partida e a liberdade é total.

Obviamente, sei que a que a receita de alface chinesa não me tornaria uma chef, assim como não acredito que os recursos oulipianos sejam infalíveis para transformar um aspirante num escritor. Mas inaugura de forma divertida uma necessidade, essa sim, indiscutível: sem disciplina e  sem um trabalho corpo a corpo com a linguagem, não há escrita literária.

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