Cabeça pesada, olhos remelentos. Duas olheiras negras, tarantulares, saem da toca escondida no crânio, se apoderando da minha pele.

“Que cara é essa, Ricardo? Lava o rosto no cursinho.”

Me remexo na poltrona, desconfortável de tudo. O ar condicionado até tenta mas não esconde o mormaço que o dia já assume como seu.

Aumento do nível um para o três. As ventoinhas começam a se esgoelar. Coloco meu pen drive com as quinhentas melhores do Rock, de Chuck Berry a Linkin Park.

Mal recolhendo meu braço, meu pai, previsível que é, radicaliza. Desliga a porra toda, som e ar.

“Ô, quê isso?”, reclamo, inconformado, como se realmente pudesse ter alguma opinião sobre os andamentos existenciais do percurso.

“Que isso o quê, Ricardo?”, meu pai responde e no grunhido, no refúgio do subconsciente eu saco. Fodeu. Acabou. Ou melhor, começou. Estado-Bronca-Pai-ativado.

“Esse daqui é o meu carro, que eu paguei com o meu dinheiro e eu faço dele o que eu quiser”, gesticula, italianão, as veias do pescoço se esticando contra a gola da gravata vermelha; a barriga de chopp, lamarckianamente adquirida após a faculdade, chopp após chopp, balançando contra a camisa branca num terno escuro.

Preguiça. Não puxo esse gatilho. Não vale a pena. Sério. Espero o assunto morrer. O silêncio reina por alguns segundos. Mas o meu pai já estava pronto. Conheço o bacana. Faz essas coisas de propósito. Lançou a droga do gatilho pra ser puxada por ele mesmo. Qualquer coisa seria a desculpa perfeita, até o silêncio de uma não-resposta.

“E aí, cara, como vai ser nesse ano? Vai estudar ou vai ficar desperdiçando meu dinheiro de novo?”

Cri-cri-cri absoluto. Meus olhos lacrimejam de sono. Ficar estudando até as três da manhã não foi lá uma ideia muito inteligente. Convenhamos.

Meu pai para o carro. Sinal vermelho. Seu perfume de macho alfa é uma afronta à minha consciência entorpecida de sono. Trinta e cinco segundos para o sinal abrir. Uma eternidade.

Ele se vira pra mim, me encarando, firme. Exige uma resposta, agora. Como se fosse um recibo de garantia de uma compra cara e arriscada. Mesmo que a resposta, por si só, seja vazia de significado. Crua, impossível. Que saco!

“Eu já to dando uma estudada já. Desde o ano novo”, acabo soltando, encurralado.

Meu pai gargalha até não poder mais, bêbado, inebriado com as minhas palavras.

“Cara”, ele fala, enquanto acelera o carro novamente, “você tem noção que pra passar em Medicina dar uma estudadinha de férias não é o suficiente. Nem perto disso”

Engulo a seco. Odeio a verdade assim, dita sem devaneios. Puta saco.

“Refiz todas as apostilas de física do ano passado”. Física é o meu ponto fraco. Cinemática em específico.

“É bom que tenha feito mesmo porque essa é a sua última chance.”

Estou todo alerta agora, o sono e o cansaço a ocupar as cadeiras de trás do carro das minhas preocupações.

“Final do ano você completa vinte e um. Não vai ser mais minha responsa bancar seus luxos se você não passar em nenhuma facul. Acabou, fião.”

O ar do carro, estático. Suo pra cacete. Arranco a minha blusa do Barça. Meu suor se espalha sem pedir licença. Caralho.

“Porra, Ricardo, você tá fedendo. Esqueceu de passar desodorante, meu?”

Esqueci. Na pressa de me arrumar, acabei esquecendo desse detalhe básico da existência contemporânea.

“Na minha bolsa aí atrás tem um. Passa lá no cursinho. Mas vê se me devolve, que me custou uns duzentos reais.”

Com muito esforço, acho um tubo por entre as múltiplas repartições da mochila, mas é inútil. O carro dá um tranco de susto e o tubo é arremessado pra longe, se infiltrando na parte de baixo do banco, território de ninguém.

“Mas o quê é isso, meu?”

Um barulho de multidão enche os vidros do carro.

Viramos a esquina. Placas, cartazes, pessoas emaranhadas. Fila gigantesca de carros parada. A rua está entupida de gente e impede o fluxo físico do trânsito.

“Puta que o pariu, era só o que me faltava.”

Meu pai se torna o maestro imaginário da galera. Tenta parar a orquestra da revolta gesticulando as mãos. Inefetivo. Permanecemos parados.

Abro a janela. O ar quente bate de frente na minha cara. Abafado da porra.

“Moça, sabe o que tá rolando?”

Uma loira deliciosa responde de um Honda Fit.

“Greve dos professores estaduais. Parece que tá começando hoje.”

Sorrio pra ela e ela sorri de volta, lindinha, mas meu pai fecha o vidro no meio do meu sorriso. Um bostão.

“Pô, aí é complicado, hein”, ‘ô se é, uma loira delícia dessas e o sr. me fecha o vidro bem no meio da conversa’. “Gente de bem sustentando vagabundo que faz grevinha por qualquer coisa.”

Sorrio internamente, agradecendo ao bando de vagabundos por parar a bronca corrupta do meu pai. Conheço o adultão aqui do meu lado. Quando uns caras o enchem o saco, moscavareijeiros, ele não pensa em mais nada além de tentar esmagá-los. Com o seu carro, dinheiro, status social ou qualquer instrumento que tenha em mãos.

“Pode deixar que daqui eu vou a pé”.

“Então vai logo que tô atrasado.”

Saio voando do carro e, sem nem olhar pra trás uma única vez, me jogo contra o som de apitos e sirenes.

(este texto é um trecho de um romance do autor – continua)

Comentários
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