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Havia tanta ternura em seu olhar, você insistia que era triste. Não era. Quando eu mirava no fundo deles, invadia ousadamente e penetrava com sutileza em lugares onde jamais alguém tinha desbravado. Ali eu ficava, me aconchegava e poderia sempre viver. Você sorria lindamente todas as vezes que eu voltava de lá; talvez por isso, eu nunca tenha percebido a tristeza de que você tanto falava.

Eu nunca cogitei morrer de amores por você, mas somente para ti eu entregaria todas as chaves que eu colecionava. Afinal, eu nunca consegui abrir a porta certa. Se você tivesse me convidado para o baile da escola, eu teria aceitado. Não colocaria o vestido mais bonito, mas a minha velha camiseta de banda, pois você sempre mereceu todas as minhas verdades. Pediria que nos levasse onde sua música toca mais intimamente, não ao baile.

Você mordeu minha boca e disse que queria guardá-la numa caixinha. Eu pensei que cultivaria aquele machucado para que essa lembrança nunca me escapasse. Lembra quando você me largou quase no chão, enquanto nos beijávamos, para ir dançar Clash com seus amigos na pista? Eu achei aquilo a coisa mais íntima e linda.

A vida era doce como cassis, as lembranças ficam mais melosas com o tempo. O melaço endurece e comê-lo em forma de lembranças nunca deixa de ser gostoso. A velha camiseta furada do The Cure permanece em meu armário, as traças teimam em comê-la todinha. Eu espanto as danadas. Não existem mais cheiros onde eu possa viajar e voltar naquele ponto, para descansar um pouquinho nos esconderijos do seu olhar. Eu te entreguei todas as minhas chaves, você sim era capaz de abrir as portas certas e ganhar o mundo todo sem mim. Você foi, mas sei que mesmo que nunca tenhamos morrido de amores, como prevíamos, você sorri com olhos ternos todas as vezes que percebe que ainda tento invadir seu olhar. Eu fui a única que nunca precisei de chaves para ali entrar. Você soube trancar direitinho e preservou nosso lindo amor juvenil.

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