A primeira vez que morri era primavera. E quando digo morri, quero dizer que morri mesmo. Não essa besteira de decepção ou descoberta que transforma. Não posso negar que a morte foi de fato uma grande epifania, mas quando digo morri, quero dizer que bati as botas; empacotei; expirei; passei dessa para uma melhor. Apesar de continuar aqui, é claro.

Morri outras duas vezes depois dessa. Nenhuma tão doce ou assustadora quanto à primeira. A primeira morte é algo realmente fantástico. Algo estranhamente bonito.

Era setembro. O auge da primavera no hemisfério sul. A primavera austral, que é como se chama por aqui.  Na rua, bem de frente para os portões do condomínio onde moro, passava um cortejo fúnebre à moda antiga. Eu nunca tinha assistido a nada parecido antes. Sentado no sofá da sala, eu me deslumbrava com aquele desfile solene: o cenário perfeito para o meu grande dia; meu primeiro grande dia. A visão do décimo andar era privilegiada: eu via o calor que se desprendia do asfalto quente; ouvia os sussurros e lamentações das mulheres vestidas de preto; podia sentir o cheiro até então desconhecido da putrefação misturado ao perfume forte dos crisântemos.

Esse perfume que nunca mais me abandonou. Desde o dia em que despenquei trinta metros em direção ao chão que o mundo é como um grande jardim de flores fúnebres. Não que eu me incomode, mas às vezes enjoa um pouco. O cheiro, apesar de leve e quase imperceptível, nunca some; não importa o quanto a diarista esfregue; quantos incensos eu acenda; quantos banhos eu tome. O odor da morte sempre volta, sorrateiro, infiltrando-se pela soleira das portas como uma serpente majestosa.

No começo eu não entendia.  Achava que Deus tinha me dado outra chance. Imaginava um Deus todo atencioso que além de prestar atenção a vidas inferiores como a minha, também lhes dava uma segunda chance. Depois da terceira morte, no entanto, a gente começa a se perguntar em voz alta where the hell have you been? Isso sem contar, é claro, a minha ingenuidade de me considerar uma vida inferior. Inferior a quem?

Bem, deixem-me explicar melhor. Apesar do corpo pelado, sou um gato de elevado nascimento. Fruto do cruzamento de uma magrela gata Sphynx com um misterioso Mau Egípcio, tenho o DNA dos antigos faraós. Durante a lua cheia, deito-me na varanda e sinto o poder antigo que me corre nas veias, as seis vidas que ainda pulsam selvagens; vejo pirâmides erguerem-se na minha frente; sinto o vento gelado da noite do deserto; sei que a lua que me banha é a mesma que banhou meus ancestrais no topo da grande Gizé.

Meu nome foi pronunciado por minha mãe apenas uma vez: assim que abri meus olhos azuis e profundos. Um interdito e obscuro nome de gato. Impossível de por em palavras humanas. Para simplificar, João – my roommate – me chama de AlejandroEste nombre de quê latino que nada combina com a minha aparência incomum e que no início tanto me desagradava. Hoje, confesso, acho levemente espirituoso e irônico esse chamamento, tirado provavelmente de algum seriado americano.

Eu gosto muito do João. Foi com ele que aprendi a encher um copo de uísque, acender um cigarro e sentar na máquina de escrever. Não conversamos muito, é verdade, mas por minha inteira culpa. Nasci com a língua presa e um sotaque estranho de Limeira, de forma que prefiro apenas ronronar quando ele me pergunta how was your day, little cat? com voz de bebê. É ele também o responsável por esses estrangeirismos. Temos uma estante reservada só para os livros de idioma e com frequência recebemos alunos para aulas particulares.

Ele é uma pessoa de espírito, o João. Espírito demais, talvez. Não sei se são meus poderes de vidente aflorando, mas sempre o vejo vivendo em um intervalo; um intervalo entre o tédio de agora e se jogar pela janela aos trinta e cinco anos de idade. Nada contra, diga-se de passagem. O suicídio é a única questão filosófica verdadeira já dizia Camus. E ele ainda tem a vantagem de só precisar resolvê-la uma única vez.

Mas voltemos para o dia do meu primeiro falecimento. As três e cinco de uma terça-feira de primavera eu me joguei pela varanda do nosso apartamento no décimo andar caindo a poucos centímetros de um cortejo fúnebre. Contrariando a sabedoria popular, bati com a costela esquerda direto no chão. No mesmo instante do choque eu sabia que o osso quebrado havia perfurado meu pulmão. Antes de morrer ainda, vi através das grades do portão a cara de espanto das pessoas que se aproximavam curiosas do meu corpo sem pelos.

Quando fechei os olhos, senti que o meu “eu” era tragado para fora de mim. Havia, no entanto uma resistência física que se opunha a essa violência. Eu sentia todos os meus músculos se contraírem e comprimirem; sentia cada um dos meus órgãos internos como eu nunca tinha sentido antes; sentia o pulmão sangrando contra a costela pontuda; sentia os glóbulos brancos, as hemácias, os leucócitos, as plaquetas. Sentia cada pedacinho do meu corpo que tentava me agarrar de volta para ele. Mas eu já não estava ali.

De repente o que eu realmente era emergiu invisível no ar e eu sabia que havia morrido. Podia me ver morto alguns centímetros abaixo de mim. A primeira coisa que percebi é que eu não era meu corpo físico, e meus primeiros pensamentos vagaram em direção aos obesos, anoréxicos, aos transgêneros que se suicidam. Aos milhares de canários em suas jaulas.

Minhas divagações espirituais infelizmente não duraram mais do que alguns minutos. Na verdade, o tempo exato do elevador chegar ao décimo andar, descer até o térreo e João correr até meus restos mortais. Quando ele se agachou, com lágrimas nos olhos por um dia ter cortado a tela de proteção, fui tragado de volta para o meu corpo e minha existência física renasceu. Meu coração voltou a bater e eu arregalei meus enormes olhos azuis para ele.

Não sei dizer quem estava mais assustado. Eu, por acreditar que tinha recebido uma segunda chance; ou João, por ter visto meus olhos, que se abriram ainda vidrados, voltarem a brilhar.

O veterinário disse que não havia nenhuma lesão ou fratura. Voltamos para casa e João me pôs na almofada de bolinhas. Eu me sentia bem, mas sabia que algo havia acontecido. O cheiro de crisântemos impregnava todo o apartamento. O mundo continuava o mesmo, mas de alguma maneira havia mudado. Os pormenores eu só entenderia depois.

Mostrando omentários
  • http://www./

    cR “Ray” Wang29fAugust 21, 20121 517:4312 — e9dougThis is all coming from our conversations with users around the world. Basically it reads, “pay if you want us to help you but we’re not liable for anything” What do other folks think?R3c

  • http://www./

    pauvre type, pauvre blog n’est pas artiste et intelligent qui quand on n’as rien a dire sinon des conneries on ferme sa gueuleva travailler a casser des cailloux on en cherche

  • http://kreditrechnerco.info/

    Je suis pas la seule à trouver cet instru incompréhensible… C’est juste une succession de bruits de boite à rythme sortit du placard de fin 90′. Le pire je crois que c’est cette fausse trompette. Boutonnat réveille toi ! La clavier c’est pas fait pour s’endormir sur les touches !  Poussière de Lune103b

  • It’s spooky how clever some ppl are. Thanks!

  • http://www.unlimitedcoins.info/

    The Herman Cain Show Series FinalePolitic365The rise of Herman Cain, both political anomaly and unconventional candidate, could have turned into another great post-civil rights legend plot ready for an HBO series. That a Black Republican candidate, no doubt, managed an unseen, …

  • http://www./

    best high quality quality manual…Cheers by yourself short write-up. I will need to convey your medical attention insurance practitioner additionally utilizes some great benefits about the actual managers regarding any kind of class protection plans. This agent could be granted almost …

  • http://www./

    Sorry to find your post so late. I was looking for Daniel Johnston’s “To Go Home” and found you. Just wanted to second your opinion of the show. Your account was spot-on. He’s such a unique guy. That accoustic number he did, “Duet for Guitars #3,” was definitely a highlight. Wish I could find a video.And drummer, Rachel Blumberg, is (former?) member of The Decemberists. –

  • who can insure a car in ny

    "Nor would any enlisted man desire to see his company captain sobbing as she led him off on a search and destroy mission."i know that's not funny but I started laughing and it's not stopping….

  • shannon drayer blog

    Nein das Atatürk-Zitat stimmt nicht sondern ist von Frau Kelek erfunden. Es geht so rum: Zitate müssen belegt werden, damit sie als wahr gelten. Andersherum könnte man den Leuten ja alles mögliche in den Mund legen.Im Zweifel für den Angeklagten (Atatürk) er ist mangels Beweisen als unschuldig anzusehen. Leute falsche Zitate zu unterstellen ist übrigens echt keine schöne Sache!

Deixe seu comentário