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Da janela embaçada, avistam-se três meninos que conversam, bebem e sussurram.

Júlio vira o caneco, gotas escapam de seu papo. Ele bate o copo na mesa. Encara, com seus olhos de tensão, os dois amigos e, depois, os esconde sob as pálpebras com força.  Ao abrir os olhos, ergue o queixo e levanta seu punho semifechado. Comprime o punho no alto, olhando para os dedos que força contra o nada. Como se fosse cerrar o punho, mas ficasse impedido por vontades incontroláveis e uma outra força tentasse, implacavelmente, fechar-lhe o punho. Com seu olhar tenso, ele fita o punho semifechado em conflito. E, numa voz grave, como se viesse anunciar o que não deve ser prenunciado, Júlio dos pés leves e mãos pesadas diz:

– Tempo!

O bar volta a atenção para o belo e alto bom tom da palavra: Tempo! Júlio finalmente fecha seu punho e encerra-se em si mesmo, numa vergonha vulgar, encolhendo-se a olhar os amigos com um pequeno fio de sorriso no canto da boca. Vermelho feito pimenta, passa as mãos na cabeça e sussurra novamente, mostrando os punhos fechados:

– Tempo…

O bar é um enorme retângulo. Grande para onze pessoas, pequeno para trinta. É vermelho, carmim aqui e ali, em seus detalhes e estofados, escarlate em sua ambiência imagética. O marrom avermelhado é o resto, amadeirado até no cheiro misturado com o aroma do álcool e da fritura cheirosa da gordura suína e bovina. À mesa, no extremo canto direito, senta-se um senhor enrugado lendo o jornal. Abre o jornal e se esconde por trás dele, enquanto sorve da cratera o café requentado. Faz uma careta debaixo dos óculos, quando sente o liquido negro encher sua boca, com o adocicado toque amargo; a língua se contorce de jeito simples e sutil. As rugas dizem a idade, a expressão em seu rosto, enquanto finge ler o jornal, dizem outras humanas.

Um casal modesto senta-se à mesa em frente à mesa do senhor. O casal se olha, ela olha para ele e ele finge olhar o alvo de dardos que serve como relógio. Ela bebe leite com sorvete de morango; ele, refrigerante negro adocicado. Ela olha para ele, ela sonha com o olhar. Ele olha para o abismo de sua vontade. Ele admira no calor de seu ego a vontade de fitar aqueles olhos. Enquanto vê os ponteiros se mexerem cronometradamente, tem uma visão idílica. Está num quarto, só de calças, sem a camisa, deitado numa cama de lençóis brancos, fita o teto como se encarasse o céu. Ela passa nua por ele, ora e outra, e traz um livro e recita, a cada vez que passa, uma palavra. Enquanto viaja em sua visão de um futuro limpo e agradável para os modestos sonhadores, ela o olha, enquanto toma seu leite com sorvete de morango. Olha como se ele fosse derreter, olha como se ela quisesse fazer daquela visão, a única a despedaçar todas as outras cópias que jazem na memória. Olha, querendo o toque da pele; olha, querendo o calor do corpo. Ela suspira enquanto olha, ele suspira enquanto sonha. São um casal, bem o sabem, bem o sonham na mesma cama, no mesmo suspiro e no mesmo amor, mas ainda há a modesta dúvida, a senhora perturbadora dos modestos, a semente humana que jaz na consciência dos inquietos curiosos. Bem o sabem, e admitem.

Não há muitas pessoas no bar retangularmente vermelho. Um outro senhor fica sentado ao balcão e discute com a jovem Mel sobre o clima seco.

– Um castigo de Deus, isso sim! – Fala com autoridade o senhor para a jovem Mel que pouco vê as mãos de Deus na desgraça alheia.

A jovem Mel é menina doce, por isso o apelido, que vem do nome Melanie, que não é nome típico e, por isso, difícil de ser lembrado. Todavia, com seu jeito viciante em seus modos, por sua sutileza no gesto e aparente beleza, despertam na memória a tentativa de encontrar um nome, e tal é a reação que aparece em meio ao mar vultuoso dos pensamentos, Mel.

Um homem engravatado toma Bourbon enquanto assiste, na pequena televisão do recinto, à previsão do tempo para o entardecer. São anunciadas tempestades, a moça na pequena tela quadrada ainda aconselha que fiquem em casa. O homem pede mais Bourbon e roda a aliança, impacientemente, em seu dedo. Olha a tela e roda o anel dourado em seu dedo. Sorve o liquido e bate o copo, e continua rodando o anel, incontrolavelmente, em seu dedo. Até que se machuca. Começa, então, a rodar o maço de cigarros.

– A vida é uma roda gigante. – sussurra, olhando para Mel.

Mel não escuta, está aflita com a tempestade que se aproxima. Enquanto seca uns copos e finge dar atenção ao senhor, arauto do Senhor, ela pensa no que será da noite em meio a turbulência dos ventos do oeste? E, então, ouve:

– Só Deus sabe… – o senhor diz.

Apesar do gesto ter chamado um pouco de atenção, os três meninos, pouco habituados a frequentar este lugar, não chamam mais do que devem os olhares alheios. As faces se controlam em endireitar os olhares para direções tranquilas. E, apesar do susto, pois a palavra anunciada assim, sem mais e nem menos, num berro eloquente, pouco deixa algum abalo para a memória ou perturbação para o agora. As pessoas simplesmente não se importam que três jovens bêbados deem uma ligeira escapulida e digam:

– Tempo!

Rosas alisa o caneco como se acariciasse o ombro rosado de uma mulher se despindo, olha fixamente para suas mãos desencadeando a tarefa inconsciente, enquanto a sua imaginação é revelada pela íris que ilumina as imagens. O caneco está vazio. O liquido absorvido já não é de nada, senão dor de cabeça futura. Willian se irrita com um repentino atraso. Observa Rosas em sua tarefa ingênua e se entristece, a primeira palavra do dia foi de Júlio, e, agora… agora, Rosas.

– Melzinha, minha querida, onde está o litrão? Pelo amor de Deus, traga logo isso! – levantou-se e dirigiu-se até o balcão.

– Dê-me aqui, querida. – pegou a garrafa e virou-se para voltar à mesa.

– E… – mas voltou a se dirigir a Mel, fez uma dramática pausa, colocando o dedo indicador no meio dos lábios e disse:

– Não se esqueça da gente querida, por favor. Não aguentamos mais… isso… – mais pausas com o dedo nos lábios – esquecer…, – virou-se para retornar à mesa.

O senhor não entendeu, nem Mel.

Enquanto servia o caneco dos amigos, Will iniciava o diálogo.

– É… – pausa dramática com a mão no queixo – e… é. Folhas… Somente folhas na árvore. O vento passa e acabou.

Depois de servir os três copos fazendo questão de não deixar espuma em nenhum dos copos, Will completa o que começou dizendo:

– Já que o Ju disse alguma coisa, eu queria dizer outra. Não é assim que as pessoas normais conversam?

– Pessoas normais? Isso é um pouco agressivo. – diz Rosas, voltando do devaneio num supetão.

– O problema todo é que as folhas secas continuam na árvore, enquanto as folhas verdes, e frescas, e cheias de aroma, e cor, e vida, caem e morrem; o vento é forte, mas a raiz é mais, o velho fica vivo e o novo fica morto. Tudo o que nasce é fraco… – comentava Will, enquanto tomava alguns goles do liquido gelado.

Júlio encara a mesinha redonda, está meio incomodado com a redondeza da mesa. “Como podem fazer coisas tão perfeitamente geométricas assim?” Em sua cabeça, o simples fato da observação matemática é um erro para o homem, pois tal olhar é perfeito e completo, enquanto o homem é imperfeito e incompleto. Para Júlio, a matemática é o erro definitivo da confiança do homem nele mesmo.

– Não inicie esse papo, estamos falando sobre a morte… não há espaço para política aqui! – euforicamente disse Júlio a William.

– Não, tem razão. Mas uma coisa leva a outra – diz, delicadamente, William, olhando, primeiro, para Rosas e, depois, para Júlio.

Júlio olhou para Mel. Ela trabalhava ali, limpava os copos, ouvia a lamúria dos outros e tinha uma cara infeliz que sorri e esbanja a típica felicidade melancólica que estampa em sua testa as palavras verdes da esperança. É uma menina doce. Júlio, então, faz um sinal para Rosas e Will, para que os dois se aproximem, e cochicha:

– Até quando? Até quando aguentaremos isso? – seus olhos lacrimejam, segura a respiração e solta, segura a respiração e solta, segura a respiração e solta. Pega o caneco e se afasta.

Enquanto vira a caneca, Rosas se vira para Will e diz:

– Ainda ontem lembrei da gente, o Ju contando os dias pra entrar de férias. Lembra? Só três dias e livre. E você brigou com ele, porque não queria entrar de férias. Lembra disso? Não? – Rosas não queria responder, fingia ignorar suavemente Will, enquanto olhava a caneca e a acariciava – A gente ficou mais amigo, naquela época, nessa treta aí, você apaixonado por aquelazinha, a gente ficou mais amigo, num momento bem bosta como aquele, não é difícil imaginar porque a gente é tão amigo hoje em dia…

– Não fala assim dela… – disse baixinho, olhando para as mãos acariciadoras de caneco.

– Comparar aquele tempo com esse é coisa mórbida demais… você não pode fazer isso, cara… é contra as regras da boa saúde mental. Aqueles eram os bons? – disse Júlio, meio aflito, e, depois, sorveu dois goles do liquido que ia esquentando.

– Aqueles é que eram os bons… A Cíntia… A gente ouvindo música. O Simão rindo… Aqueles é que eram os bons. – disse Rosas.

– Lembro de coisas diferentes… Brigas e sonhos, e mais sonhos, sonhávamos. Agora, estamos nesse puta marasmo, esperando não sei o que cair do céu ou vir do inferno… – Will.

– Pensando agora, acho que e digo que era melhor ter ficado em coma… – diz Júlio num tom de piada sarcástica, Will e Rosas, todavia, viram nos olhos de Júlio a gota de sinceridade naquelas palavras, que diziam a vontade de Ju com o toque venenoso do niilismo inato de sua personalidade.

– Não diga besteiras, Ju. – Will bebeu dois goles e suspirou, tomou um folego considerável e começou a dizer – Pense na Melzinha, pense nela vivendo a vida dela, na infância rindo, e crescendo, e, na medida em que ia conhecendo mais o mundo, mais se distanciava dele, e ia direto para os sonhos, sonhava com o dia e com a noite. Um dia sonhou com a vida, e foi um pesadelo. Olhe bem para ela, Ju… olhe bem. É só isto que resta pra ela… é só isso que resta para todos nós, sonhar… – disse, amargamente, olhando para Júlio que encarava Will da mesma maneira.

– Você coloca a gente numa posição difícil, cara… Will, não é assim que funcionam essas coisas…, coisas do tipo sonhar. – disse Rosas.

Ao que Júlio respondeu, olhando através da janela corpos transeuntes que se arrastavam contra o vento, olhando fixamente o norte de suas direções.

– Tampouco concordo, tampouco concordo…. Se você olhar direito, ela está um pouco triste, mas ainda assim faz um esforço pra sorrir – os três se viraram para ver a menina que estava secando copos e acenando com cabeça, enquanto olhava suas mãos fazendo o serviço e fingia que escutava o velhinho. – É como se, na consciência dela, ela dissesse: “Está tudo bem, tudo vai dar certo no final”, mas, no fundo, lá no fundo, o seu corpo sabe que não é isso que ela quer.

– As pessoas têm o direito de ser feliz, Júlio… – falava Will.

– É claro que têm, mas elas não querem. E é aí que está a confusão. Toda a corrosão, pra tudo que a gente foi criado, e tudo que a gente pensou que quisesse pra essa vidinha de meu senhor Cristinho. E acreditou nisso, e muito. Mas e se não é isso? E se não é isso que a gente realmente quer?

– O que seria então, pelo amor de Deus? – perguntou Rosas e, depois, tomou mais uns goles até esvaziar seu caneco.

– Não sei, mas ainda acho…

Júlio é interrompido por Will.

– O que Simão acharia? A morte? A gente tem o direito de ser feliz, todo mundo tem. É isso que a querida Melzinha está fazendo ali. Tentando…

– Não é tão simples assim… tentar. – responde Rosas.

Os três apontam seus olhares para baixo. Abaixam as cabeças porque não sabem onde enfiar os olhares.

Júlio continuou.

– É só que… é só que… é difícil. Você sabe. A gente tá tentando, certo? Eu quero acreditar que sim.

Rosas encheu seu caneco e disse:

– É o que a gente escolhe pra viver. Acreditar em alguma coisa.

– E, nesse momento, você escolhe em acreditar no quê, Rosinha? – perguntou Will.

– Em acreditar que a gente escolhe acreditar pra continuar, sabe? Continuar vivendo.

Will encheu seu copo e foi até o fim da garrafa, que deu meio copo para Júlio, e começou a falar:

– No final, a gente acaba e tudo é perdido, porque a gente só é valioso pra gente mesmo. Por isso somos valiosos, não acha, Júlio? – perguntava com a cara insegura, até suspirava, como se fosse gaguejar, como se tentasse recuperar um pouco de autoconfiança da maneira errada, ingênua até certo ponto, mas consciente de que sua crença poderia bem ser um erro.

E Julio, como gostava de ser aquilo que pensava ser, um depósito de confiança, ficava encantando quando podia explicar alguma coisa, ainda mais quando bêbado.

– Um macaco vê uma mina de ouro e sabe o que ele faz? Ele está cagando para uma mina de ouro. Dê bananas a ele e isso, ele vai adorar, amar… Eu concordo, até certo ponto, sabe? Como a gente não sabe o que quer, cara. Isso é muito complicado. É extremamente paradoxal. A gente ama tanto que odeia. Odeia tanto que ama. Quando mais se conhece alguma coisa, menos a gente conhece. Quanto menos a gente conhece alguma coisa, mais a gente pensa saber sobre ela. As pessoas se consideram valiosas, porque bem… elas são pessoas. Mas! – levantou as mãos para completar – nem elas sabem direito isso, se querem se dar o devido valor. A gente faz muita cagada e isso acaba matando a gente por dentro. Viver morto, sabe o que digo?

– Redenção! – berra Rosas, em sua voz rugem trovões, que chama atenções.

Os olhares, dirigidos aos três meninos e com foco em Rosas, são olhares de um certo espanto. Aquela palavra faz lembrar. O senhor do jornal abaixa o caderno. E vê a jovem Mel sorrir, enquanto serve um copo de Bourbon para um engravatado. Ele suspira e deixa-se ficar admirando as imagens da televisão.

– É justamente disso que eu estava falando, Roseta… A gente busca umas coisas na infância e faz besteiras. Aí, a gente percebe que o que a gente queria estava ali na nossa frente, aí começa a busca pela redenção.

– O tempo passa, a casca muda, mas a gente não. – diz William.

Melzinha vai até a mesa dos garotos com outra garrafa. E começa a servir os copos. Escuta a parte do tempo e acrescenta:

– A gente não muda nunca, só se resguarda, deve ser por causa do medo. Meu pai costumava falar que o medo molda a gente. Que não é pra ter medo do medo. A gente só sente coragem porque tem medo.

– Então é isso que acontece com a criança feliz em cada pessoa? Ela se esconde por medo? Não sei, Melzinha… Você… era do tipo? – perguntou Julio, não conseguia falar direito.

– Do tipo o quê? – respondeu perguntando, não sabia direito, sentia-se um pouco ofendida.

– Do tipo feliz que se resguardou… – enrubesceu.

– Ah, o mundo é grande demais. – disse e se retirou para voltar ao trabalho.

O senhor ficava olhando lá do fundo, como se estivesse vigiando Mel. A verdade é que sente inveja.

– O que queriam? Inquere ele.

– Opinião. Responde.

Will fica feliz. Está estampado em seu sorriso involuntário: Alguém se lembrou de nós.

– O mundo é grande demais… – Júlio fica repetindo.

Tomando em silêncio o que sobrou da garrafa, pensando em suas cabecinhas como o mundo é grande. E não é que ficam pensando no mundo cheio dos homens, mas no mundo inteiro, cheio de vazio e movimento entre os espaços vazios. E, no meio de todo esse infinito, imaginam, ou pelo menos tentam imaginar, o silêncio, e, aí, eles se assustam. Pois a solidão é tão imensa quanto o mundo, e o silêncio é ensurdecedor. O mundo é grande demais.

– Você vive, você morre… Você vive inutilmente, você morre inutilmente. – Diz Julio. E continua – Vive limitadamente e morre ilimitadamente.

Will vê Júlio dizer tais palavras, enquanto brinca de rodar o caneco, como se fitasse o vazio para o além de um espelho que refletisse o pesar que tenta transpor em palavras que tem receio de dizer. Will, a isso, responde:

– A gente aprendeu da pior maneira. Eu digo isso porque é quase certeza absoluta que é verdade, a gente aprendeu que a morte não é solução, não é o que a gente quer.

Júlio dá um soco na mesa e aperta os dentes. Todos olham o gesto de violência. Julio olha fixamente para Will. Mel pergunta se tudo está bem e Júlio volta a se sentar, vira-se e diz:

– Sim… sim, está tudo bem. – Diz tranquilamente.

– Eu sei, Will. Por isso o problema. A gente aprende a buscar a felicidade, mas é isso mesmo que a gente quer? Viver é sofrer, então morrer é ser feliz? Também não é isso. É claro que é uma falácia infeliz. A gente quer viver, só não sabe como. É tudo tão vazio e insignificante. A gente só quer que não seja vazio e insignificante. – Júlio responde Will.

Rosas brinca com seus dedos de maneira discreta, enquanto olha o caneco vazio. Olha para os lados de soslaio, pensa no que poderia dizer e que bem não poderia dizer. Um silêncio se põe. Will esfrega a mão nos olhos e bate os pés na tentativa de reproduzir uma harmonia. Julio olha para longe além das vidraças. Sonha com a vida lá fora, mas recua. “Muitos problemas”.

– O passado, Ju. É do passado que a gente tira o significado. Sabe? Pra continuar… A gente só quer se sentir como se sentiu uma vez. – Diz Rosas.

Will responde ao comentário:

– Avidamente, o homem anda para frente. Sem pensar, ele caminha. E o que ele encontra? O futuro!

Olha para um lado e para o outro. Pensa ter visto um rosto familiar, uma silhueta agradável. Não sabe quem é. Mas deixa-o feliz, pelo rastro, o fantasma que lhe desperta na memórias, as cores e as formas de um sentimento leve e cheio de carícias. Júlio se põe de bom tom a falar:

– A tudo que se sabe, da mesma maneira, é que é inútil e, por mais útil que tentemos, fadado estamos ao fracasso – começa dizendo enquanto procura por alguns goles – Mas sabe-se lá onde está a cabeça do homem que anda para frente e olha para trás. Ou será que olha para frente e pensa no atrás? Só sabe que está indo para frente. Se o caminho é certo? Pouco importa. O que importa, nesse momento, é chegar a lugar nenhum, mas pelo menos ter percorrido um caminho. Caminho para lugar nenhum é pelo menos um caminho. E pode ser agradável ou desagradável; na maioria das vezes, os dois. Sabe-se outras coisas com dúvida é claro, e que em primazia deve ficar na cabeça como uma pulga atrás da orelha, é o tempo. E esse devora, ou nós o devoramos? Percorrendo os ermos de sua existência, percebe-se um dia que antes tinha fôlego e o suspiro profundo, suas mãos eram firmes, e seus pés pouco se cansavam. Depois, olha para as mãos e vê a pele mole, a fraqueza. Ao mesmo tempo, que se depara com a sensação de velhice, ele observa e se pergunta “O Que Terei Eu Percorrido?”. Vê-se, nos ermos, nada. Nem uma única cor, não está em lugar nenhum, em um canto ironicamente tão igual quanto o espaço cinzento que saiu. Tenta se lembrar dos cheiros, dos gostos, das vistas, e das sensações. Mas se perde, pois tudo é branco. Ele olha para frente e não vê nada. Olha para trás e a visão é a mesma. Por onde terei andando? Os dois caminhos são iguais. Ele se pergunta, o tempo passou, mesmo. E, então, volta a olhar seu corpo. Sim, ele afirma, passou. E, quando olha novamente, as rugas, as feridas. Principalmente, as profundas cicatrizes no peito. Ele comprova o que pensou anteriormente. Sim, o tempo passou… E continua andando, esquece-se do que pensou. Indiferente, ele continua. Velho e murmurando. Velho, esquecido e acabado. Ele sorri, justamente porque é engraçado, justamente porque está acabado e, mesmo acabado, a gota de teimosia persiste, e isso o faz rir, pois pensa: “Rumo ao Fracasso”. Engraçado; e, apesar da miséria de sua condição humana, ele se sente nobre dando gargalhadas frenéticas de sua própria desgraça. Nobreza, no meio de toda sua miséria; talvez, no ápice dela. É aí que o velho se encontra. É aí que ele descobre. Por isso, digo: brindemos ao velho. Brindemos a sua descoberta, a sua miséria, e a sua nobreza!

William berrou para Mel com delicadeza, como se pedisse um favor em voz alta:

– Querida! Traga três copos e uma garrafa do destilado.

Com uma mão, a querida Melzinha pegou três copos; com a outra, pegou a garrafa e se apressou para chegar até a mesa. O bar estava quieto.

– Beba conosco, querida. Todos estão quietos… – Dizia Júlio.

O casal no fundo escutava o pouco do barulho que soava extravagante para eles. Ela continuava a encarar o menino, que já era quase um homem. Ele queria dar a impressão, a ligeira impressão em seu olhar desviado, de que não estava nem aí, como se fosse um ato ingênuo de maldade, como se quisesse passar a sensação de normalidade. Ficava repetindo em sua mente. “As feridas do amor, as feridas do amor… A cicatriz é a marca do amor.” Mas já estava nas profundezas do sentimento, ignorava e simulava a indiferença. A garota sabia, olhava para o menino como se tivesse o chicote em sua cintura.

Melzinha dava desculpas do tipo: “Tenho que trabalhar, não posso fazer isso em serviço…”

– Pelo menos um refrigerante, só participe do brinde.

O casal não aprovava a ligeira saída de Melzinha. Para se sentar com estranhos? O casal se enganava, contudo, no julgamento. Quem deu o apelidinho querido de Mel foi Rosas. Situações de paixonites de escola primária. Como criança doce que era, dava nome de doce as coisas, apesar de nomear até mesmo o amargo como algo de frescor mais suave aos lábios, Mel, talvez, pensava ele agora, fosse o único nome que acertara. Rosas foi até vizinho de Melanie. Ele chegou a olhar para ela com vistas lancinantes que transpassam em flechadas rancorosas um amor incompreendido. Eles se conheceram, mas se distanciaram. Ao motivo disso, ninguém sabe a razão, os caminhos são estreitos às vezes, outras vezes largos.

O casalzinho cansou do jogo de olhares e voltou seus olhos para a mesa do outro extremo canto, onde residem três garotos no período pós juvenil, onde o frescor da idade e a amargura da vida se colidem. Olhos de reprovação, o julgamento posto. O senhor, a outra companhia de Mel, lá no canto, também olha, mas não se importa. Não concorda que Mel trabalhe num ambiente destes. Mas Mel insiste: “Pago meus estudos.” Coisa estranha para o senhor.

O engravatado se retira, joga dinheiro no balcão e sua aliança no lixo. Vai embora.

O velho, que antes se escondia atrás do jornal, não sabe o que fazer agora. Talvez, comece a ler o jornal.

– Brindemos ao velho. A miséria. A nobreza. – diz Julio.

– Ao passado, diz Rosas.

– Ao futuro, diz William.

Com uma garrafa de refrigerante, Mel:

– À vida.

Todos engolem mais do que devem engolir. O sangue sobe à cabeça. É a embriaguez. Mel se levanta para voltar ao trabalho.

Júlio pergunta:

– E os estudos, Mel?

– Larguei… – diz tranquilamente.

Os três com sorrisos estampados, viram-se para olhar a garota, que estava quase se levantando.

– Como assim, Mel?

– Larguei… simples.

Rosas iniciou uma defesa para os pensares alheios:

– Não julguem a menina assim. Não em silêncio.

– Quê isso! Só não sei o que pensar. – respondia Julio

– Sim, tipo, uma resposta. – completava Will.

– Só pensem que estou mais feliz assim. Vocês vão ver… – e se pôs de volta ao trabalho.

Ficaram olhando. Depois, se entreolharam. E deram risada. Era o álcool no sangue.

– Eu era apaixonado pela Mel, sim. Verdade… Aí, conheci o traste. Aí, me ferrei.

– Fiquei sabendo que você falou com o traste – inqueriu Will a Rosas.

– Falei, falei mesmo. A gente marcou de ver um filme, mas dei pra trás. Sabe… ela falou em recuperar a amizade. Que isso era importante pra gente. Sabe, que coisa é essa de amizade que ela tá procurando? – disse, com um nó na garganta.

– Acho que é pena, cara. Tu é cheio do desespero por essa mina. – falou Julio – e a mina sente pena pelo que ela fez com você ou, pelo menos, daquilo em que você acabou se transformando.

– Amizade…

– Eu te digo uma coisa, você pode se aproveitar da pena dela. Tô falando sério. Você pode se infiltrar como amiguinho dela. Cara… tu conhece ela pra cacete, se sabe o que deixa ela pimpa e pá! – Aconselhou Will.

– Que nada, velho. Vou é partir pra outra. Coisa engraçada… Pimpa e pá. – respondeu Rosas.

Ninguém encostou mais na garrafa de destilado.

– Que filme ela queria ver? Isso é importante, o tipo de filme. Isso pode até falar muita coisa. Ou ela pediu pra você escolher, porque isso também pode nos dizer algumas coisas. Agora, se você não quer saber é porque não quer mais a mina. O que eu desacredito muito. Já que hoje você tá todo cheio do passado, como esteve há uns dois anos. Lembrando dos bons dias… – disse Julio.

– Não quero falar sobre isso.

– Fala o filme, pelo menos… – disse Will.

– Ela queria me deixar escolher – disse, depois de recuar um pouco, tentar disfarçar.

– Você percebeu que ela só te ligou depois que você tentou se matar?

Os três se olharam seriamente. Sem piscar. E depois começaram a gargalhar. E, freneticamente, gargalharam. Até Júlio falar:

– Você já tá ligado que nunca vai esquecer dessa aí, cê já sabe, cara. É ferida. Mas existem bilhões de pessoas no mundo. E também existe você. Acho que você não pode esquecer disso. Acho que foi isso que eu aprendi. Que a gente existe. E isso é até que importante. Pelo menos pra gente mesmo.

Um silêncio mais sério. Agora, sem gargalhadas. O assunto trouxe memórias. As memórias trouxeram sentimentos. Os sentimentos palavras incontroláveis.

– Por que o Simão fez aquilo? – perguntou Rosas, enquanto olhava pra baixo.

– A gente não ia fazer, nunca. A gente concordou, mas não ia. A gente tava lá, mas não acreditava nisso.

– O Simão fez porque eu disse. Eu dei a porra da ideia… – lágrima escapou.

– Talvez o Simão acreditasse nisso. – disse Will.

– Mas ele… ele era o que mais sorria. O mais engraçado. Mais feliz, o que menos tinha motivos. Nada, eu não acredito que ele acreditava nisso.

O silêncio continuou por mais alguns minutos. Até que Júlio se impacientou:

– E o tempo continua a nos suprimir. Em sua contagem, a vida não passa de números, toda essa frieza para com a existência dá calafrios. Vamos embora. Vamos logo embora. Não aguento mais esse lugar, não aguento mais esse vermelho. Não aguento mais ver Melzinha longe da gente tendo que trabalhar ali, sem poder escutar nossa lamúria e nos confortar com sua opinião de menina doce. A vasta gama cinzenta do ambiente lá fora me deixa intrigado, as pessoas passam e se vão, porque eu também não posso ir?

– Agora já sei porque escolheu vir aqui. – disse Will.

Os três se levantaram cambaleando. “Opa…” Quase caiu. Dirigiram-se até a doce Mel. Rosas falou.

– Obrigado. Por tudo. – e deu o dinheiro que devia pela bebida.

Julio e Will acenaram para Mel. Julio abriu a porta para que os dois passassem e, depois, se foi. Com os olhos de menina doce, Mel ficou observando o movimento da porta se fechando e, como ia fechando numa velocidade baixa, Mel passou por entre imagens e, em suas imagens, ela se emudeceu. Até que a porta fez o estalo e a trouxe do devaneio. Voltou a concordar com os comentários do senhor e a lavar copos. A vida era vermelha e escura, tinha um cheiro amadeirado e gorduroso. Lá fora, era frio. Muito frio. Mas, às vezes, fazia Sol e, do oposto cinzento, ia para o dourado mais cintilante. Isso, claro, dependia do tempo.

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