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Estava assistindo, alguns dias atrás, a Lembranças de Hollywood. Para quem não viu, é filme norteamericano de 1990, roteirizado por Carrie Fisher (mais conhecida como princesa Léa) e baseado em um romance autobiográfico em que Carrie aborda a convivência com sua mãe, Debbie Reynolds (mais conhecida como a moça de Cantando na Chuva). Adoro o título original das duas obras, difícil de traduzir, algo como “Cartões Postais da Beira”. Beira de quê? Do precipício? Do abismo? Bem, esses postais vêm direto do limite, daquele momento em que temos a sensação de que estamos prestes a cair do planeta, prestes a perder o equilíbrio e escorregar da face da Terra, prestes a nos perdermos do resto da humanidade… Quando escrevo, por vezes, experimento momentos assim, ao final de um trabalho ou de uma etapa importante em um trabalho. Especialmente, quando se trata de um trabalho longo: como um romance, uma peça ou uma série de roteiros.

Houve muita energia investida ali e, mais do que isso, houve um tipo de investimento na criação de um mundo ficcional (atravessando-me para materializar-se em palavras e páginas) que me remete ao título que dei a este texto. A vida é apenas um sonho? Bem, se não é/era, enquanto eu escrevia, teve de passar a ser. Pelo menos, para mim. Tive de me conectar, tão fortemente, a algo que, a princípio, era apenas fruto de minha imaginação, que vivi nesse sonho por um bom tempo. Enfim, chega a hora do adeus. Um processo de luto se instaura. Em uma de minhas cenas favoritas de “Lembranças de Hollywood”, a personagem principal diz, em tom frustrado, que não queria que a Vida imitasse a Arte, queria que a Vida fosse Arte. Quando termino um trabalho autoral, sinto a mesma frustração. Por mais que eu tenha trabalhado com afinco e por mais que ali esteja meu sonho, de alguma forma, materializado em palavras, o despertador segue tocando às seis, meu emprego fixo segue fixo, minha rotina segue tão rotineira quanto de costume. Não que o mundo tivesse parado de girar enquanto eu escrevia. Todos os textos que tenho escrito para esta coluna lidam, justamente, com esse equilíbrio entre as exigências do dia a dia e os fazeres processuais da escrita. Porém, não sei bem explicar como, enquanto escrevo, tenho a esperança de que aquela obra particular vá transcender, de alguma forma, os tempos da rotina: fazer da vida arte, também, fora do papel.

Não sei se acontece com vocês, mas sei que o processo de luto pela “perda” de uma obra ocorre com outros escritores e que, no final das contas, todos precisamos de um tempo para processar a experiência de nos dedicarmos tanto a alguma coisa, mesmo que a vida não pare. Por isso, pensei em conversarmos um pouco sobre como lidar com isso. De fato, não sei se tenho muito a dizer sobre como lidar, já que minha experiência, digamos assim, mais madura, com o tema, é muito recente. Passei, pelo menos, quinze anos em total negação, no melhor estilo Capitão Nascimento da escrita: “Missão dada é missão cumprida” – e passemos para a próxima. Com isso, acumulava tarefas e lutos sem permitir-me compreendê-los ou mesmo contemplá-los, apreciá-los. Dica um, então: não façam isso! Concedam a si mesmos a permissão de viver o fim dos processos criativos.

Posso comentar alguns dos efeitos colaterais que experimentei ao não considerar minha necessidade de “respiro” entre obras. Eles incluem odiar atividades que antes se fazia com o pé nas costas (“Aqui estou eu tendo de colocar a roupa na máquina, mesmo quando acabei de criar uma saga familiar em três gerações”), ser extremamente grosso (“Você NÃO ENTENDE o que é produzir um trabalho como esse”), começar a falar mal da própria obra (“Apenas 5% do que eu PODERIA ter feito”), importunar pessoas não diretamente relacionadas com ela com resumos incompreensíveis do que você acabou de fazer (“Então é isso: quando ela transcende em luz – o que faz parte de seus poderes desde a cena doze – isso fecha, perfeitamente, o ciclo iniciado no confronto com o pai dela e, não sei se você percebe, é super autobiográfico. Percebe?) e ficar irritado quando seus interlocutores, mais ou menos pacientes, não conseguem acompanhar seu raciocínio. Aliás, caso você já tenha se deparado com uma artista em momento semelhante, acho mais fácil fingir que acompanhou e seguir o fluxo de associações que te vier à mente. Estaremos tão encantados com nossa própria obra e tão focados na tarefa de não perder nosso vínculo com ela que é provável que qualquer comentário seu se torne genial, desde que o tom geral seja de concordância (inspiração: “com gente doida, é sempre melhor concordar”).

Uma outra questão que poderia levar a uma dica: parece-me que esse tal processar não é opcional. A escolha que, sim, temos é a de como vamos passar por ele. Entrar em negação, como nos exemplos acima, torna tudo muito mais difícil, porque, como o processamento é obrigatório, ele vai buscar espaços vagos – ainda que ínfimos – para ocorrer. Comigo, acontecem duas coisas. A primeira é que, basta eu ter um momento de descanso na rotina, e começo a ser invadida por: cenas que escrevi, formas de melhorá-las (agora que já foram entregues), grandes insights sobre o processo como um todo (às vezes, inclusive, sob a forma de desenhos ou gráficos). Enfim, basta ter um minuto de descanso e minha mente volta ao tema, o que pode levar a situações constrangedoras, porque não respeita os limites de atividade impostos pelo mercado de trabalho: pode acontecer no meio de uma reunião, uma oficina de escrita, uma apresentação… É como se fantasmas de sua obra recém “perdida” se insinuassem em sua rotina e, quanto mais você tentasse afastá-los, mais fortes eles ficassem.

A segunda coisa que acontece comigo é um certo tipo de sono. Um cansaço profundo. Fico operando a 10% de minha capacidade durante esse período. E, quando sonho, adivinha quais são os temas? Sim, porque sonhos processam aquilo que vai ocorrendo em vigília. E, como a vida não pode ser sonho (pelo menos, não no sentido sugerido pelo filme)… Talvez, então, se a dica um foi “dê-se tempo ao final de uma obra ou processo criativo”, a dica dois seja “busque formas de entrar em contato com o que essa experiência foi para você e descanse ou será forçado a fazê-lo”. Não sei se funciona assim para todo mundo, mas tenho tentado, nos últimos anos, convencer-me de que posso permitir-me ter esse tempo. E a experiência, ainda que recente, me diz que ele não precisa ser longo. Às vezes, basta levar a rotina com mais calma e me tratar com carinho. Ou, honestamente, dizer que, preciso ficar sozinha por uma hora. Pode ser fechar os olhos, por um minuto, e dar espaço para o que quer que venha a minha mente. Pode ser escrever sobre como estou me sentindo. Ou criar um diário de aprendizagens, voltado para o processo criativo.

Uma última palavra sobre o tema: ando percebendo que, por mais infantil que seja a ideia de querer que a vida seja um sonho, ela é fundamental. É claro que está fadada ao fracasso. A mundo externo não se curva às regras do interno. Mas todas as belezas e horrores expressos no mundo externo estiveram, em algum momento, sonhados internamente. Então, como diz o filósofo humanista chileno Dario Ergas Benmayor, talvez, seja esse mesmo nosso papel: trazer sonhos ao mundo, despedirmo-nos deles e nos aproximarmos de novos sonhos para começar tudo de novo. Como em toda relação, enquanto estamos com o sonho, acreditamos que estaremos sempre com ele e, quando nos despedimos, precisamos de um tempo para ver o que significou e o que ainda significa daquela relação.

* no original “Life is but a dream”. Referência à canção de ninar norte-americana “Row Row Row the Boat”: https://en.wikipedia.org/wiki/Row,_Row,_Row_Your_Boat

Referências

La Mirada Del Sentido” de Dario Ergas Benmayor. Santiago, 2006. Disponível em:

 

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