Naquela quarta-feira ‘Seu Petrônio’ acordou às cinco e meia da manhã, tomou seu café sem açúcar e comeu pão sovado com manteiga. Às seis horas o sol já estava inteiro no céu azul e mais um dia quente se anunciava no verão de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Ele já tinha um carreto agendado para aquele dia. Iria até o centro buscar um material de construção na Venda do Italiano e levaria para o Coronel Jacinto, na Chácara Paraíso. Um trajeto longo, umas quatro horas no total, em estrada de terra, que era o único tipo que existia por ali naqueles idos de 1946. Terminado o café mandou o filho mais velho encilhar e preparar a mula. Tomou banho e fez a barba com navalha, deixando o bigode.
Saiu do banho e o filho veio cabisbaixo, medo dos pés a cabeça:

– Discurpa eu, pai, mas não teve como preparar a mula não. Ela tá arisca demais hoje.

O pai não ficou brabo e o chicote de rabo de tatu permaneceu atrás da porta aquele dia. Se limitou a olhar o menino e dizer: – Imprestável! – e foi ele mesmo preparar o bicho. O sol já ardia na pele embora o relógio ainda não mostrasse sete horas. A mula batia com a pata no chão e chacoalhava a cabeça, mas a perícia de Petrônio e o domínio sobre o animal fizeram com que ele colocasse os arreios sem maiores dificuldades. Era uma mula velha, que já estava alquebrada pelos longos anos de labuta.
A mulher já tinha preparado uma broa de milho e uma garrafa térmica com café. O filho mais novo veio pedir pra ir junto. – Não – foi a resposta seca. Pediu de novo. O pai olhou feio. O filho começou a chorar e dizer que queria ir junto. Petrônio deu um croque no topo da cabeça do menino, um pequeno golpe com o osso do dedo anular bem no cocuruto, dizendo – Se menino quer chorar agora tem motivo! – e o fedelho correu chorando pra perto da mãe, que alisou a cabeça do moleque, mas não pegou no colo.

***

Petrônio da Silva nasceu e viveu pobre. Era um homem sério. Tinha as mãos duras e ásperas dos que conhecem o trabalho pesado desde cedo e rugas profundas emoldurando os olhos rígidos, como é costume em quem trabalha de sol a sol. Não sabia ler e nas raras vezes em que precisou assinar algo sujou o dedão de tinta. Pobre diabo, sobrevivia no inferno.
Dos filhos e da mulher era conhecido pelos seus rompantes de raiva, regados à violência. Dos vizinhos era conhecido como um homem católico e trabalhador. Todos o tinham como um homem que nunca descumpriu um acordo ou foi desleal em um negócio. O filho mais novo, com quatro anos, nunca conhecera o sorriso do pai. Os mais velhos o conheceram, mas já não se lembravam. Era pai de oito, cinco homens e três mulheres. As filhas eram mandadas para a Casa das Freiras assim que desmamavam – bocas a menos para alimentar e a mais para orar ao Senhor. Os homens começavam a ajudar no trabalho assim que aprendiam a andar, catando ovo no galinheiro, limpando o quintal, cuidando dos cachorros e da velha mula. Às vezes o filho mais velho ia junto com o pai, ajudar a fazer o carreto, que era o ganha pão da família.

***

Sete e meia, trinta e dois graus, Petrônio saiu com a carroça chacoalhando pela rua. Ele mesmo tinha feito a carroça, um trabalho de marcenaria não muito bonito, mas eficiente. As tábuas bem cortadas e pregadas com precisão. Somente as duas rodas ele havia comprado, com um dinheiro emprestado do Coronel Jacinto, contrato que foi pago rigorosamente dentro do prazo com o que arrecadou fazendo carreto nos meses seguintes.

O caminho até a Venda do Italiano foi feito num ritmo lento, mas constante. Chegando lá Petrônio foi informado pelo dono que um dos homens do Coronel Jacinto havia passado pela venda ontem e encomendado mais material, que deveria ser levado hoje, sem falta.

– Mas não foi esse o combinado – disse Petrônio. – O combinado era metade desse material. Aí tem um milheiro de tijolo, mais os sacos de cimento e cal. É muito peso pra mula. Capaz de nem caber na carroça.

– Seu Petrônio – respondeu o italiano – eu não sei se vai ser bom pra mula do senhor ou não, mas o Coronel comprou o material e mandou eu te entregar e é isso que estou fazendo. O senhor sabe que não se contraria o Coronel Jacinto, não sabe?

Sabia. Ele e um ajudante da venda carregaram os tijolos, mais quinze sacos de cimento e seis de cal e depois amarraram tudo pra não cair, porque a pilha ficou alta. Na hora que subiu na carroça e deu o comando pra mula iniciar a marcha ela não saiu do lugar. Um chacoalhão nas rédeas e nada. A carroça estava muito pesada. Petrônio deu um tapa forte no lombo do quadrúpede:

– Anda mula! Agora! – e ela lentamente começou a se mexer.

O sol escaldante o fazia suar muito e a mula ia num passo lento por causa do peso. Petrônio comeu a broa de milho que a sua mulher preparara, mas não bebeu o café. Estava muito quente pra isso. Tomou alguns goles de água já morna de um cantil que levava na carroça. Era o dia mais quente dos últimos anos. A estrada estava vazia, todos os que puderam evitar sair naquele sol tinham evitado. O horizonte bruxuleava como se o mundo inteiro, lá na frente, estivesse derretendo. Mas Petrônio queria levar logo a carga pro Coronel e cumprir sua parte do acordo.

O Sol empacou no céu. Sua camisa estava empapada de suor, grudenta. A bermuda de jeans rústico também. A mula ia cada vez mais devagar. Não havia vento, não havia brisa, não havia nada além de calor. Muito calor.
Mais ou menos na metade do caminho havia um riacho, com uma ponte de madeira escura que permitia a travessia. Passava um pouco do meio dia quando chegaram ao riacho. Seu Petrônio parou pra beber e encher o cantil com água fresca. Depois, com uma pequena bacia deu água pra mula, sem desatar ela da carroça. A mula bebeu lentamente e esvaziou a bacia. Petrônio encheu mais uma. A mula bebeu inteira, ainda mais devagar, bufando pelas ventas.

A pele ardia sob o sol, mas o ar estava bem mais fresco nas margens do riozinho. Petrônio sentou-se na carroça e chacoalhou as rédeas pra mula andar, mas ela ficou parada. Ele chacoalhou de novo, batendo com a corda no lombo dela. Ele deu um tapa forte na bunda do bicho: – Vamos mula! Anda logo! – Mas o animal não saiu do lugar. Desceu da carroça, foi até a frente da mula e a puxou pelos arreios, mas ela não se mexeu. A mula estava empacada.

– Se você pensa que vai ficar empacada aqui tá muito enganada! – disse. E deu um puxão forte na corda, retesando o pescoço da mula. O animal olhava pra baixo, os olhos estáticos.

Petrônio deu um tapa forte na mula e depois outro. Mais um tapa, dessa vez na cara. A mula não se mexeu. Ele já tinha lidado com mulas e cavalos empacados antes. Resolveu esperar uns minutos e ver se o animal se acalmava.

Após algum tempo sentado na beira do rio olhando com raiva o animal, Petrônio foi até a carroça e tentou mais uma vez seguir viagem: – Vamos, mula. Ôô. Ei, Ei! Vamos andando! – Nada. Petrônio se arrependeu de não ter trazido o chicote de rabo de tatu. Bateu no lombo da mula com a mão espalmada. Depois chutou. O animal não mudava de propósito. – Vâmo mula do inferno! – berrou, dando coices no lombo do bicho. Mas não surtiu efeito.

Desceu da carroça e desferiu um tapa na cara da mula. O bicho balançava a cabeça e batia com as patas no chão. Ele deu um soco na têmpora da mula, depois um no pescoço, depois outro e outro e outro. Exausta, a mula sentou.

Após um período de silêncio e respiração ofegante, os golpes continuaram. Chutes na barriga, tapas e socos na cara. Porradas fortes e secas. Socos de mão ossuda, chutes de sapato gasto. Mas a mula não mudava de ideia. A mula parecia não ter nenhuma outra ideia.

Num acesso contínuo de raiva, os golpes iam rompendo cada vez com mais força. Coices na cara do animal foram desferidos com vontade, urros e gemidos se confundindo. Mas a mula estava empacada. Não saía do lugar. A mula arfava e sangrava pelo olho e pelas narinas. Tinha sangue também nas mãos de Petrônio, mas não dava pra saber de quem era. Mais chutes, coices e pontapés na barriga e na virilha. A raiva crescia e os golpes se sucediam. O calor tomara conta de tudo, do corpo, da mente, das patas, do sangue. A mula continuava empacada. A mula não mudava de ideia. A mula não tinha ideia. A mula só tinha raiva.

A mula desceu o coice com força. E a mula batia e batia, mas não adiantava, que a mula continuava empacada enquanto a mula atacava. E o suor escorria e o sangue pingava, mas a mula não mudava. E assim prosseguiu a mula, até a exaustão.

Ao fim de um longo espancamento, de violência sem lamento, a mula olhou pra Petrônio com o olho que restava aberto e disse: – Besta estúpida! – e desabando sobre as quatro patas, morreu.

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