Nenhum piá de prédio! Assim gritava o vô.

TOC-TOC-TOC batia a bengala no chão e gritava de novo, meu neto não vai ser nenhum PI-Á DE PRÉ-DIO, NE-NHUM. Assim, bem separadinho e alto. NE-NHUM.

Piá de prédio? Sei lá o que é isso, não faço ideia, mas deve ser ruim, pois o vô estava muito bravo!

Sempre que o vô chega de Curitiba acontece o mesmo, brigam e depois a mãe o abraça e diz que tenta fazer tudo o mais correto possível e terminam falando de meu pai, de minha outra casa no condomínio e blá, blá, blá. Acho que não gostam dele. Mas desta vez o vô não voltou pra Curitiba, ficou em casa e, melhor ainda, me fez o convite do ano: viajar de ônibus! Nunca fiz isso, tô empolgado! Amanhã vou contar pra turma da escola, eles nem devem saber fazer isso. O vô sim.

Com a mochila pesada de sexta feira atravesso o pátio correndo e, com a bengala no alto (mas desta vez sorrindo e sem bater no chão), ali estava vô Roque, pronto pra nosso passeio. Acho que tantas cócegas me deixaram as bochechas com cãimbra! Pego umas folhinhas do chão e vou brincando com elas até a praça. Bem devagarinho vamos contando as pedras que o vô pisa com a bengala. Detrás dumas grades altas vejo uma mulher de avental laranja chacoalhando as mãos. Seu Roque, que bom ver você por aqui. Vai levar algum doce? Em letras pretas no meio do peito consigo ler QUIN-TO-PE-CA-DO Meu deus! A vó Luiza teria levado a palavra do senhor pra essa mulher, tadinha… Deve ter que ficar assim, do outro lado, sem sair, por pecadora. Vô, qual é o quinto pecado? Sei lá, deve ser o melhor, acho que você ta falando muito com sua vó, não leve tão a sério, viu?

Aluga exceto veículos autorizados Estacione Dr. Fabrício grade Estacionamento grade Onofre! Como o tio grade Entrada grátis grade Omelete 17 X tudo X maionese tudo com arroz feijão e batata frita grade Ana Rosa Ana Tarô? Tenho sede! Eu sei. Cê sabe tudo! Compramos uma água depois de cruzar a avenida, falou. Nunca tinha visto tantos ônibus juntos! Qual é o nosso? 917-H10 . Ah, tá… Vou decorar 917-H10 …917-H10… 917-H10… 917-H10… 917-H10

O caminho da escola até o ponto de ônibus foi lindo. O vô conhece direitinho, pois a minha casa, onde vivo com a mãe, era a casa dele. Na metade do caminho cansou um pouco assim que sentamos para conversar. Sabe que quando eu era um menino assim como você ia à fazenda de meu tio, pegava um ônibus que ia duma ponta a outra do Brasil SO-ZI-NHO! e a mãe, pra ficar tranquila, tatuava com canetinha o número do ônibus no braço esquerdo e escondia o dinheiro na meia? Nossa vô! Me conte mais!

Quando chegamos ao ponto sentou de novo, mas teve tantas pessoas que no caminho cumprimentaram ele que desta vez ficou sorrindo.

Chegou! Piii, Piii, traka, traka, trá na escola também tem catraca! (Pra que falei isso!) Ai de novo seu Roque começou a resmungar. Essa noia com a segurança até quando! No banheiro também tem catraca? Logo mais entramos na caixinha com rodas, percebi que todos os assentos estavam carimbados nas costas: CAIO, CAIO, CAIO, todos são dele? perguntei afundando o dedo no plástico cinza. Algumas pessoas riram com meu comentário, mas o CAIO é o dono ou não, vô? E aí a gargalhada geral. Gosto quando a gente me acha engraçado. O único que não gostou e começou a resmungar com minha pergunta foi um senhor que estava sentado num assento amarelo. Saiu bufando e acho que até ganhamos uma cutucada. Mas sem perder tempo dei um pulo e sentei no colo do vô que já estava no colo do amarelinho que nos abraçou toda a viagem. Uma velhinha sentada do nosso lado confirmou o que eu suspeitava. Ô, aqui ô, na janela. Meus olhos seguiram seu dedo e lemos juntos: CAIO TEC GLASS. Cê tinha razão, sussurrou no meu ouvido, é o dono. E entre orgulhoso e envergonhado me encostei no peito do vô que pra surpresa de ninguém já tava dormido.

Até agora já contei dez mochilas, vinte e três braços, e quinze camisetas chacoalhando no topo do ônibus. Já olhando pela janela da pra ver tanta coisa diferente! Nossa Senhora do Paraíso Filhos da Fruta Vogue Chupa Corinthians! Mickey mouse no peito duma mulher empurra uma mulher que carrega uma planta com flores brancas. Que engraçado, viu? Frei Careca. Brechó da esperança. Vou contar pra vó Luiza!

Tem bosque, tem banana, tem melancia, tem jogo da amarelinha, tem flores! Quantas flores, vô! E que casarão! Como o condomínio do pai! Meu olhar fica rolando pelo arame farpado até que uma enorme caveira desenhada na parede descascada prende meu olhar. O susto me faz fugir e pouso na tranquilidade dos telhados e estátuas do outro lado do paredão. Deve morar gente importante lá. Seu Roque interrompe por cinco segundos a soneca, levanta o rosto e com uma voz medrosa fala: nem tanto, um monte de amigos meu moram lá. Um grafitti na outra ponta da parede completa DÊ FLO-RES AOS VI-VOS. Confesso que senti medo… E quase sem perceber um calor de edredom me abraçou e dormi o resto da viagem. Pelo menos isso falou o vô. Só lembro das cócegas e o sorriso dele no momento que abri os olhos de novo.

Numa mão a bengala, na outra o neto-mochila. Uns degraus depois os dois desceram na Vila Madalena.

Tenho fome. Aguente um pouco mais que no final do caminho tenho uma surpresa pra você. Sério? Minha barriga tá gritando! Falta muito? Só mais uma subidinha e meu neto vai conhecer o templo do vô Roque, minha igreja há quase 40 anos! E outra vez levantou a bengala sorrindo. Fica tão engraçado quando faz isso!

Quase no alto da montanha vemos uma barraquinha azul encostada na parede e bem no cantinho dava pra ver uma boneca de plástico nua e um ursinho de pelúcia rosa. Estava tão sujinho o coitado. Um passo depois uma mulherzinha saiu com outra menina pendurada do pescoço. Acho que era sua filha. Eu recuei um pouco e fiquei grudado na perna do vô. Mas ele fez questão de falar com elas. Então me senti seguro. O vô deixou um cartãozinho com elas e eu senti que devia fazer o mesmo. Entreguei duas figurinhas do álbum da Champions League na mão da menina. Ela sorriu e eu também.

Seu Roque tirou um lenço do bolso e quase num só movimento se despediu delas e secou o suor da testa. As palavras que depois saíram entre resmungos de sua boca só me deixaram mais confuso: bolha, dinheiro, abandono, olhar, fora. Às vezes fala tão bem que acho que poderia ser presidente. Não, melhor não…Imagina!

Mercearia São Pedro, a minha igreja! falou sorrindo. E eu achando que tínhamos chegado ao faroeste. Um monte de cartazes grudados nos postes da rua PROCURA-SE OS ÚLTIMOS CANGACEIROS DO BANDO DE LAM-PI-ÃO, mas dentro nem faroeste nem igreja, muito melhor, tava cheio de cartazes como no cinema. Beatles ao lado de Amy que olha o Queen que segura a cortina da porta, e de novo a vó Luiza: A NAÇÃO QUE NÃO ESPEROU POR DEUS? Vou perguntar pra ela depois. Deste outro lado do mundo o vô também é bem conhecido. Há uns 20 minutos que um monte de velhinho não param de me fazer cafuné na cabeça, me esticam as bochechas ou me dão tapinhas nas costas. Têm uns que chamam ele de bonitão, outros de lampião e até curitiboca. Nem sabia que o vô tinha tantos nomes. Enquanto pede aquele sanduíche de salame e queijo quente pra mim eu procuro a gaiola. Li por ali que tem uma coruja extra viva. Vamos procurar, vô?

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